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Edição 2002

4 de abril de 2007
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DVD
A incrível história do Sr. Morte

Um filme soberbo disseca a ética do
maior carrasco do século XX


Isabela Boscov

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Da internet
Trailer do filme

Entre os vários argumentos contra a pena de morte, contam-se a probabilidade da execução de inocentes e o fato de que, em última análise, ela torna o estado patrocinador do assassinato. Pode-se incluir aí outra questão seriíssima: a de que ela obriga o estado a patrocinar também o assassino. Sempre será necessário que alguém acione o fuzil, a cadeira elétrica, a injeção letal ou o cadafalso – para então viver com o prazer, o desgosto ou a indiferença de tê-lo feito, possibilidades todas elas perturbadoras. Poucas pessoas personificaram tão bem essa conflagração moral quanto o inglês Albert Pierrepoint. De 1932 a 1955, ele enforcou 608 condenados. De todos os carrascos que exerceram seu ofício estritamente dentro do âmbito legal, ele é o provável recordista do século XX. Da sua corda penderam anônimos, inocentes e culpados, homicidas célebres como John Christie (veja quadro abaixo), cerca de duas centenas de nazistas condenados pelos tribunais de guerra e até um amigo. Entender um homem como esse é um desafio – ao qual O Lavador de Almas (Pierrepoint, Inglaterra, 2005), lançado agora em DVD no país, se propõe com grande inteligência e com a contribuição decisiva do talento do ator Timothy Spall.

O que faz de Pierrepoint um personagem de interesse inesgotável é a complicada ética que desenvolveu. Filho e sobrinho de carrascos, ele certo dia sentiu a vocação familiar "aflorar", como disse. Submeteu-se a um teste para a Lista de Executores e logo pulou para o topo desta. Pierrepoint fatorava dados como peso, idade, sexo e forma física do condenado para determinar que altura de corda dar-lhe, numa calibração levada até a casa dos centímetros. Era também rapidíssimo. Certa vez, conseguiu em sete segundos entrar na cela de um prisioneiro, amarrar-lhe as mãos às costas, levá-lo para o cadafalso, pôr-lhe a corda ao redor do pescoço e deixá-lo cair. Pierrepoint provocava sempre uma fratura entre a segunda e a terceira vértebras. Oferecia, assim, a cortesia máxima a que um condenado pode almejar: morte instantânea, indolor e sem aquele prelúdio de agitação e horror. Depois, cuidava ele mesmo de lavar os corpos e prepará-los para o funeral. Se os entregasse ao necrotério, seriam tratados como refugo. Pierrepoint dizia, porém, que o cadáver que ali estava era o de um inocente, uma vez que o preço pelo crime fora pago.

Existem fortes argumentos a favor da tese de que Pierrepoint seria um sádico que encontrou uma forma institucional de ventilar sua vocação homicida. Por exemplo, o fato de ele ter ido ao encontro da profissão e também o registro meticuloso que mantinha num caderno com os dados de cada execução. Outros argumentos, tão fortes quanto esses, contradizem a tese, a começar pelo tratamento profissional e humano que dava às suas vítimas e por sua notória aversão a conhecer os seus crimes. Pierrepoint demorou anos para revelar à própria mulher o que fazia quando se ausentava de casa, e o público só sabe quem ele é porque o governo inglês divulgou seu nome à época da execução dos nazistas (tornando-o, brevemente, um herói). Pierrepoint se aposentou em 1956. Em 1965, o Parlamento inglês aboliu a pena de morte – e, nove anos depois, o carrasco escreveu uma autobiografia em que não faz nenhuma menção aos seus próprios sentimentos. Ao que tudo indica, Pierrepoint sublimou-os até o fim. Mas deixou uma consideração que, por vir de quem veio, exige ser levada em conta: "Acredito que nenhuma das execuções que realizei foi capaz de impedir que se cometessem outros assassinatos", escreveu ele. "Tudo que a pena capital conseguiu, a meu ver, foi a vingança."

 

MORTOS ILUSTRES

Entre as 608 pessoas enforcadas por Albert Pierrepoint,
algumas eram
verdadeiras "celebridades"

• O comandante Josef Kramer, a "Fera de Belsen", e Irma Grese, supervisora dos campos de concentração de Belsen e de Auschwitz, foram ambos executados por Pierrepoint em 13 de dezembro de 1945. Cerca de 200 outros nazistas morreram pelas mãos do carrasco inglês

• O serial killer John Christie, em cujo quintal foram descobertos dez corpos, foi enforcado por Pierrepoint em 1953. Três anos antes o carrasco executara Timothy Evans, vizinho de Christie, por crimes que provavelmente haviam sido cometidos por este

• Linda e loira, Ruth Ellis foi enforcada aos 29 anos, em 1955, pelo assassinato de seu amante, num caso de imensa projeção na imprensa. Foi a última mulher a ser executada na Inglaterra e também a última vítima de Pierrepoint

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