Entre
os vários argumentos contra a pena de morte, contam-se a probabilidade
da execução de inocentes e o fato de que, em última análise,
ela torna o estado patrocinador do assassinato. Pode-se incluir aí outra
questão seriíssima: a de que ela obriga o estado a patrocinar também
o assassino. Sempre será necessário que alguém acione o fuzil,
a cadeira elétrica, a injeção letal ou o cadafalso
para então viver com o prazer, o desgosto ou a indiferença de tê-lo
feito, possibilidades todas elas perturbadoras. Poucas pessoas personificaram
tão bem essa conflagração moral quanto o inglês Albert
Pierrepoint. De 1932 a 1955, ele enforcou 608 condenados. De todos os carrascos
que exerceram seu ofício estritamente dentro do âmbito legal, ele
é o provável recordista do século XX. Da sua corda penderam
anônimos, inocentes e culpados, homicidas célebres como John Christie
(veja quadro abaixo), cerca de duas centenas de nazistas
condenados pelos tribunais de guerra e até um amigo. Entender um homem
como esse é um desafio ao qual O Lavador de Almas (Pierrepoint,
Inglaterra, 2005), lançado agora em DVD no país, se propõe
com grande inteligência e com a contribuição decisiva do talento
do ator Timothy Spall.
O que
faz de Pierrepoint um personagem de interesse inesgotável é a complicada
ética que desenvolveu. Filho e sobrinho de carrascos, ele certo dia sentiu
a vocação familiar "aflorar", como disse. Submeteu-se a um teste
para a Lista de Executores e logo pulou para o topo desta. Pierrepoint fatorava
dados como peso, idade, sexo e forma física do condenado para determinar
que altura de corda dar-lhe, numa calibração levada até a
casa dos centímetros. Era também rapidíssimo. Certa vez,
conseguiu em sete segundos entrar na cela de um prisioneiro, amarrar-lhe as mãos
às costas, levá-lo para o cadafalso, pôr-lhe a corda ao redor
do pescoço e deixá-lo cair. Pierrepoint provocava sempre uma fratura
entre a segunda e a terceira vértebras. Oferecia, assim, a cortesia máxima
a que um condenado pode almejar: morte instantânea, indolor e sem aquele
prelúdio de agitação e horror. Depois, cuidava ele mesmo
de lavar os corpos e prepará-los para o funeral. Se os entregasse ao necrotério,
seriam tratados como refugo. Pierrepoint dizia, porém, que o cadáver
que ali estava era o de um inocente, uma vez que o preço pelo crime fora
pago.
Existem fortes argumentos
a favor da tese de que Pierrepoint seria um sádico que encontrou uma forma
institucional de ventilar sua vocação homicida. Por exemplo, o fato
de ele ter ido ao encontro da profissão e também o registro meticuloso
que mantinha num caderno com os dados de cada execução. Outros argumentos,
tão fortes quanto esses, contradizem a tese, a começar pelo tratamento
profissional e humano que dava às suas vítimas e por sua notória
aversão a conhecer os seus crimes. Pierrepoint demorou anos para revelar
à própria mulher o que fazia quando se ausentava de casa, e o público
só sabe quem ele é porque o governo inglês divulgou seu nome
à época da execução dos nazistas (tornando-o, brevemente,
um herói). Pierrepoint se aposentou em 1956. Em 1965, o Parlamento inglês
aboliu a pena de morte e, nove anos depois, o carrasco escreveu uma autobiografia
em que não faz nenhuma menção aos seus próprios sentimentos.
Ao que tudo indica, Pierrepoint sublimou-os até o fim. Mas deixou uma consideração
que, por vir de quem veio, exige ser levada em conta: "Acredito que nenhuma das
execuções que realizei foi capaz de impedir que se cometessem outros
assassinatos", escreveu ele. "Tudo que a pena capital conseguiu, a meu ver, foi
a vingança."
MORTOS ILUSTRES
Entre as 608 pessoas enforcadas por Albert Pierrepoint,
algumas eram verdadeiras "celebridades"
• O comandante Josef Kramer, a "Fera de Belsen", e Irma Grese, supervisora
dos campos de concentração de Belsen e de Auschwitz, foram ambos
executados por Pierrepoint em 13 de dezembro de 1945. Cerca de 200 outros nazistas
morreram pelas mãos do carrasco inglês
•
O serial killer John Christie, em cujo quintal foram descobertos dez corpos,
foi enforcado por Pierrepoint em 1953. Três anos antes o carrasco executara
Timothy Evans, vizinho de Christie, por crimes que provavelmente haviam sido cometidos
por este
• Linda e loira,
Ruth Ellis foi enforcada aos 29 anos, em 1955, pelo assassinato de seu
amante, num caso de imensa projeção na imprensa. Foi a última
mulher a ser executada na Inglaterra e também a última vítima
de Pierrepoint