Juliette Lewis dá um tempo
na carreira de atriz e mostra sua faceta de roqueira rebelde
Sérgio
Martins
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Juliette:
chega de Hollywood. Ela quer vans quebradas e bares malcheirosos
Na década de 90, Juliette Lewis despontou como uma das grandes promessas
do cinema americano. Em 1991, aos 18 anos, ela foi indicada ao Oscar de coadjuvante
por O Cabo do Medo no qual causara frisson com a cena em
que chupava o dedão de Robert de Niro. Foi também protagonista em
filmes de Woody Allen (Maridos & Esposas) e de Oliver Stone (Assassinos
por Natureza). E então, por motivos insondáveis, os papéis
começaram a minguar. Hoje sua carreira de atriz se limita a pontas no cinema
e na TV e a eventuais incursões teatrais, como na peça Loucos
de Amor, de Sam Shepard, que ela recentemente estrelou em Londres. Juliette,
porém, não parou: o que ela fez foi reencarnar como roqueira. À
frente do grupo Juliette & the Licks, para o qual canta e compõe, ela
continua ligeiramente abaixo do radar e também com o mesmo talento
ebuliente que a notabilizou como atriz. A cantora e sua banda têm por filosofia
se apresentar em qualquer lugar e para qualquer público, por menor que
seja. É uma vida itinerante e sem confortos, na qual vans quebradas e botecos
malcheirosos são rotina. Trocar Hollywood por isso pode parecer maluquice,
mas Juliette tem uma explicação para a decisão: "Trabalhar
ao lado de De Niro equivale a tocar guitarra com Jimi Hendrix. Ser atriz não
me dava mais essa excitação", disse ela a VEJA.
O trunfo de Juliette & the Licks é de fato a força de sua líder,
roqueira de uma estirpe que anda em falta na cena americana a das rebeldes
verdadeiras, e não de butique. Quando ela se mete a compor, saem coisas
como Death of a Whore (Morte de uma Prostituta) e Bullshit King
(O Rei da Bobagem). No palco, Juliette tem a vibração de uma versão
feminina (e igualmente escrachada) de Iggy Pop. Mas não se trata de pose.
O forte da turma são as apresentações ao vivo, mas mesmo
nos dois discos que ela lançou até aqui (o mais novo, Four on
the Floor, chega nesta semana às lojas brasileiras) se pode averiguar
que Juliette é uma cantora eficiente e original e que os Licks são
uma competente banda de punk/pop.
Juliette,
enfim, vai bem além daquele velho clichê da atriz que resolve cantar.
Até sua biografia a credencia a essa veia de rebelião roqueira.
Aos 14 anos, ela pediu emancipação dos pais; aos 15, consumia cocaína
como se fosse cereal matinal; nos sets, tinha fama de briguenta e instável.
Juliette, porém, diz que largou as drogas há onze anos e que os
pitis são coisa do passado tudo, garante, graças à
cientologia, aquela seita bizarra que faz sucesso entre os tipos graúdos
de Hollywood. "As pessoas têm uma idéia errada do que seja a cientologia,
mas ela me ajudou no processo de autoconhecimento", afirma Juliette, tentando
parecer razoável. O problema da seita, acredita a atriz e cantora, está
no seu autodesignado assessor de imprensa. "Tom Cruise prega as benesses da cientologia
sempre sorrindo, como se ela fosse a solução para tudo, e é
claro que ninguém acredita nele." Juliette também está longe
de ser alguém de quem se aceitem conselhos de vida mas ela, ao menos,
merece ser ouvida.