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Edição 2002

4 de abril de 2007
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Música
Louquinha, mas feliz

Juliette Lewis dá um tempo na carreira de atriz
e mostra sua faceta de roqueira rebelde


Sérgio Martins

 

WireImage/Other Images
Juliette: chega de Hollywood. Ela quer vans quebradas e bares malcheirosos

Na década de 90, Juliette Lewis despontou como uma das grandes promessas do cinema americano. Em 1991, aos 18 anos, ela foi indicada ao Oscar de coadjuvante por O Cabo do Medo – no qual causara frisson com a cena em que chupava o dedão de Robert de Niro. Foi também protagonista em filmes de Woody Allen (Maridos & Esposas) e de Oliver Stone (Assassinos por Natureza). E então, por motivos insondáveis, os papéis começaram a minguar. Hoje sua carreira de atriz se limita a pontas no cinema e na TV e a eventuais incursões teatrais, como na peça Loucos de Amor, de Sam Shepard, que ela recentemente estrelou em Londres. Juliette, porém, não parou: o que ela fez foi reencarnar como roqueira. À frente do grupo Juliette & the Licks, para o qual canta e compõe, ela continua ligeiramente abaixo do radar – e também com o mesmo talento ebuliente que a notabilizou como atriz. A cantora e sua banda têm por filosofia se apresentar em qualquer lugar e para qualquer público, por menor que seja. É uma vida itinerante e sem confortos, na qual vans quebradas e botecos malcheirosos são rotina. Trocar Hollywood por isso pode parecer maluquice, mas Juliette tem uma explicação para a decisão: "Trabalhar ao lado de De Niro equivale a tocar guitarra com Jimi Hendrix. Ser atriz não me dava mais essa excitação", disse ela a VEJA.

O trunfo de Juliette & the Licks é de fato a força de sua líder, roqueira de uma estirpe que anda em falta na cena americana – a das rebeldes verdadeiras, e não de butique. Quando ela se mete a compor, saem coisas como Death of a Whore (Morte de uma Prostituta) e Bullshit King (O Rei da Bobagem). No palco, Juliette tem a vibração de uma versão feminina (e igualmente escrachada) de Iggy Pop. Mas não se trata de pose. O forte da turma são as apresentações ao vivo, mas mesmo nos dois discos que ela lançou até aqui (o mais novo, Four on the Floor, chega nesta semana às lojas brasileiras) se pode averiguar que Juliette é uma cantora eficiente e original e que os Licks são uma competente banda de punk/pop.

Juliette, enfim, vai bem além daquele velho clichê da atriz que resolve cantar. Até sua biografia a credencia a essa veia de rebelião roqueira. Aos 14 anos, ela pediu emancipação dos pais; aos 15, consumia cocaína como se fosse cereal matinal; nos sets, tinha fama de briguenta e instável. Juliette, porém, diz que largou as drogas há onze anos e que os pitis são coisa do passado – tudo, garante, graças à cientologia, aquela seita bizarra que faz sucesso entre os tipos graúdos de Hollywood. "As pessoas têm uma idéia errada do que seja a cientologia, mas ela me ajudou no processo de autoconhecimento", afirma Juliette, tentando parecer razoável. O problema da seita, acredita a atriz e cantora, está no seu autodesignado assessor de imprensa. "Tom Cruise prega as benesses da cientologia sempre sorrindo, como se ela fosse a solução para tudo, e é claro que ninguém acredita nele." Juliette também está longe de ser alguém de quem se aceitem conselhos de vida – mas ela, ao menos, merece ser ouvida.

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