Malharias
de Santa Catarina compram grifes do sSudeste, mudam de cara e ganham as passarelas
Silvia
Rogar,de Jaraguá do Sul e Brusque
Otavio
Dias de Oliveira
Amir
Slama, entre Donini e Gil Karsten, da Marisol: Rosa Chá "made in" Jaraguá
do Sul
O
momento mais aguardado do Fashion Rio, o principal evento da moda carioca, é
a entrada de Gisele Bündchen na passarela. Curiosamente, ela não veste
a camisa de nenhuma marca local: desde 2005, desfila com exclusividade para a
Colcci, grife controlada pelo grupo catarinense AMC Têxtil. Ter a top model
como garota-propaganda é apenas um sinal das mudanças nas malharias
de Santa Catarina, que ganharam projeção nacional graças
à mão-de-obra com disciplina germânica e ao maquinário
de ponta. Agora, uma nova geração de empresários vem apostando
num ingrediente que era escasso no estado: estilo. Por isso, eles têm arrematado
marcas de roupa badaladas e contratado profissionais experientes do eixo RioSão
Paulo. Até na moda praia estão conquistando seu naco: antes de parar
no corpinho de fãs da grife, entre elas a modelo Naomi Campbell e a socialite
Paris Hilton, boa parte dos biquínis da Rosa Chá já é
produzida em Jaraguá do Sul, uma cidade com 133.000 habitantes. É
lá que fica a sede e a principal fábrica da Marisol, que, em abril
do ano passado, comprou 75% da linha paulistana de moda praia.
O casamento das duas empresas teve como impulso a gestão de marcas, idéia
repetida como um mantra pelos jovens executivos têxteis catarinenses. O
sonho deles é ambicioso: guardadas as devidas proporções,
querem consolidar, nas próximas décadas, conglomerados brasileiros
a exemplo do gigante francês LVMH, que controla a Louis Vuitton e a Dior,
entre outras grifes. "Vender malha a quilo e roupa barata é uma coisa que,
hoje, qualquer um pode fazer. Fomos atrás do produto acabado para aumentar
o valor agregado do que fabricamos", diz Arnaldo Sampaio, diretor comercial da
Colcci. Isso porque a competição vem agora de todas as partes. A
partir do início dos anos 80, surgiram pólos têxteis em todas
as regiões do país. Depois, foi a vez de a China barrar a velocidade
do crescimento da indústria brasileira. "Dar mais personalidade ao produto
virou uma necessidade, principalmente para as empresas que têm a ambição
de crescer no mercado internacional", comenta Giuliano Donini, 32 anos, diretor
de marketing da Marisol, que faturou 440 milhões de reais em 2006.
Além da compra da Rosa Chá, fundada pelo estilista Amir Slama, que
continua no comando da criação, a escalada da malharia na moda inclui
a Lilica Ripilica, linha infantil que tem 119 franquias e bate ponto em 2 800
multimarcas. A Marisol deu a sua maior cartada em setembro passado, quando inaugurou
uma loja de 70 metros quadrados da Lilica na Via della Spiga, a poucos passos
da Prada e da Dolce&Gabbana ponto comercial dos mais nobres de Milão.
Desde 2004, a etiqueta também é patrocinadora e desfila suas graciosas
roupas para meninas no Fashion Rio.
Eduardo
Marques/Tempo Editorial
Thaís
Losso e equipe da Sommer: modernos invadem a pequena Brusque
Caso
ainda mais impressionante é o da AMC Têxtil. Fundado em 1980, o grupo
começou a trilhar novo caminho em 2000, quando deixou de ser apenas fabricante
de malhas e comprou a Colcci, até então uma marca jovem de roupas,
voltada para as classes C e D. Sob nova administração, a linha virou
fenômeno. Com crescimento que gira em torno de 40% ao ano desde 2004, a
etiqueta vendeu 3 milhões de peças em 2006 e já tem franquias
nos Estados Unidos, na Guatemala, na Espanha e nos Emirados Árabes. Por
trás do sucesso da AMC está Alexandre Menegotti, 35 anos, herdeiro
e executivo do grupo. De desconhecido completo, ele passou a um dos manda-chuvas
da moda nacional ao adquirir também as marcas paulistanas Sommer
sucesso entre os descolados e Carmelitas, que cria roupas com acabamentos
e detalhes sofisticados. "Nossa preocupação é não
deixar o design ficar em segundo plano", diz Alexandre. A nova ênfase em
estilo também teve seus reflexos nas universidades: Santa Catarina é
hoje o segundo estado em cursos de moda do país, perdendo apenas para São
Paulo.
Na AMC, chama atenção
o vaivém de modernos pelos corredores. Com roupas e acessórios extravagantes,
eles contrastam com o clima pacato de Brusque, município onde fica a sede
do grupo. "Meus amigos de São Paulo achavam que eu não passaria
nem três meses aqui. Mas já estou há um ano e meio
e muito feliz. Agora, muita gente de lá pergunta se há novas vagas
na AMC", diz Thaís Losso, 32 anos, estilista da Sommer. Ela substituiu
Marcelo Sommer, que, em 2004, vendeu sua grife à AMC e, dois anos depois,
se desligou totalmente da direção criativa. Dos seis profissionais
da equipe de Thaís, cinco vieram de marcas paulistanas.
Para profissionais vindos do Sudeste, as empresas têxteis de Santa Catarina
costumam pagar salários até 50% maiores que os de São Paulo.
Edinho Vasques, que tinha no currículo passagens pela Zoomp e pela Hugo
Boss, é um deles. Já completa quatro anos no estado e, atualmente,
é gerente de marketing da Dudalina. "Quem vem para cá tem de saber
que a disciplina é mais rigorosa: o trabalho começa pontualmente
às 8 horas", diz ele, que morava num apartamento alugado de dois quartos
nos Jardins e, agora, é dono de uma casa de 250 metros quadrados com piscina
e decoração impecável, em Brusque. "Existe um choque cultural
para os dois lados, mas temos todo o cuidado para minimizar os contrastes", reconhece
Ciro Roza, prefeito da cidade. Acostumado a trabalhar em São Paulo, cidade
onde fundou a Slam, grife associada à ferveção das pistas
de dança, o estilista Giuliano Menegazzo ainda diz sentir a diferença.
Com visual clubber e tatuagens enormes, ele trabalha há seis meses em Blumenau,
onde coordena o estilo das marcas da Dudalina. "Às vezes me olham demais
na rua, eu me sinto praticamente um E.T.", comenta.