A escritora e psicanalista Betty Milan, agora colunista de VEJA, reúne
em livro as experiências de seu "consultório sentimental"
Thaís
Oyama
Lailson
Santos
Betty:
a partir de maio, seu "consultório sentimental" estará no site de
VEJA. Os leitores poderão enviar e-mails com dúvidas sobre amor,
sexo e relacionamentos
"Digo,
logo existo." A escritora e psicanalista Betty Milan gosta de citar a versão
lacaniana do axioma mais famoso de Descartes. Falar, argumenta ela, é o
primeiro passo para observar-se. E observar-se é o primeiro passo para
libertar-se seja de preconceitos, de medos ou das armadilhas do inconsciente.
O livro Fale com Ela (Editora Record; 335 páginas; 30 reais) é
fruto dessa convicção. Nele, a autora reúne 85 cartas e e-mails
enviados por leitores da coluna semanal homônima que ela manteve na Revista
da Folha, do jornal Folha de S.Paulo, por dois anos. A compilação
dessas correspondências compõe um tocante catálogo das aflições
humanas: há o marido que se recrimina por pedir à mulher que se
fantasie na hora do sexo, a solitária que pergunta se pode ser feliz mesmo
sendo feia e a mulher que considera o marido perfeito mas não consegue
largar o amante que a maltrata. A todos, a autora responde valendo-se das duas
ferramentas que domina, a literatura e a psicanálise.
Ao citar poemas de Manuel Bandeira para um homem de 70 anos que lhe confessa a
paixão por uma jovem de 20 ou explicar para o marido que quer a mulher
fantasiada que "não somos donos de nós mesmos" e estamos todos "sujeitos
a algo que nos escapa e determina os nossos atos, o inconsciente", Betty Milan
não oferece soluções, mas aponta possibilidades. Diz ela:
"Liberdade, inclusive a sexual, só é possível quando existe
liberdade subjetiva. E a possibilidade de liberdade subjetiva, por sua vez, aparece
quando você se escuta, percebe os imperativos do inconsciente e liberta-se
deles". A partir de maio, o endereço eletrônico de VEJA (vejaonline.abril.com.br)
hospedará o "consultório sentimental" de Betty Milan. Nele, a escritora
e psicanalista responderá a dúvidas de leitores sobre amor, sexo,
casamento e família. Um exercício de liberdade destinado ao sucesso.
Descendente
de imigrantes libaneses, a paulistana Betty Milan sempre quis ser escritora. Mas,
como a tradição familiar rezava que ao filho primogênito estava
reservado o título de doutor, ela escolheu fazer medicina. Na faculdade,
Betty descobriu a psiquiatria que, concluiu, lhe possibilitava enxergar
o ser humano de um ângulo muito mais interessante do que o das aulas de
anatomia. Recém-doutorada na matéria, entrou para a Sociedade Brasileira
de Psicanálise, onde ficou apenas o tempo de ser expulsa suas críticas
ao "behaviourismo" então dominante não foram bem recebidas. Expurgada,
foi para a França procurar sua turma, ou melhor, sua nova turma.
O encontro com o psicanalista e filósofo Jacques Lacan a quem pretendia
propor que enviasse um discípulo para o Brasil mudou sua vida. "Ele
me arrebatou", diz. Quatro meses de análise no célebre consultório
da Rue de Lille e a "transferência rolando solta" fizeram
com que Betty decidisse se separar do marido brasileiro e fincar o pé na
França. A convivência com Lacan, primeiro como paciente, mais tarde
como sua tradutora e assistente, durou quatro anos. A experiência está
contada em O Papagaio e o Doutor, o segundo dos cinco romances da autora,
publicado também na França. Pela falta de reverência com que
a discípula descreve o mestre, o livro ganhou elogios de Catherine Millet,
a última amante de Lacan ("É o seu mais fiel retrato") e críticas
de Judith Miller, filha do psicanalista e herdeira oficial de sua obra ("É
brasileiro demais").
No fim
da década de 70, Betty casou-se com o historiador e editor de artes Alain
Mangin, com quem viveu, no Brasil e na França, até a morte dele,
há três anos. O casal teve um filho, que vive nos Estados Unidos,
onde estuda cinema. Betty, hoje com 62 anos, continua morando metade do ano em
São Paulo, metade em Paris. Em breve, verá encenada aqui a primeira
peça escrita diretamente para o teatro, Brasileira de Paris, uma
sátira do machismo e da libertinagem. Foi escrita para que as pessoas riam,
segundo Betty. Certamente, fará mais que isso. Betty Milan é daquelas
autoras que têm a rara capacidade de tirar, de cada pequena história,
o seu caráter universal. Fale com Ela é outra prova disso.