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Edição 2002

4 de abril de 2007
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Medicina
Eles acreditam em bioidênticos

Há quem afirme que hormônios manipulados em
farmácias combatem o envelhecimento. Para a
medicina tradicional, é como crer em duendes


Anna Paula Buchalla

Vince Bucci/Getty Images
A atriz Suzanne Somers: a embaixatriz dos hormônios bioidênticos é bioidêntica a tantas outras


O assunto está em alta nos Estados Unidos desde que a atriz americana Suzanne Somers lançou Ageless: the Naked Truth about Bioidentical Hormones (em português, algo como Eterno – A Verdade Nua e Crua sobre os Hormônios Bioidênticos). O tema do livro, um dos mais vendidos da Amazon.com, são alguns hormônios sintéticos, feitos em farmácia de manipulação, com estrutura química e molecular exatamente igual à dos produzidos pelo organismo. Por que uma atriz se interessaria pelo assunto? Porque, assim como muita gente, acredita que essas substâncias têm um poder antienvelhecimento. A história dos bioidênticos tem mais de vinte anos. No começo, nem tinham esse nome. Depois que a terapia de reposição hormonal para mulheres na menopausa foi colocada na berlinda, em 2002, por um estudo que a associou ao aumento dos riscos de infarto, derrame e câncer de mama, eles, os hormônios manipulados, voltaram à ordem do dia – e com a nova denominação de bioidênticos. Há quem defenda que são uma alternativa mais segura e eficaz de repor o que falta na menopausa. Não são, de acordo com a maioria dos médicos. Também não há comprovação de que retardariam os efeitos do tempo, ao contrário do que prega a senhora Somers.

Há dois tipos de hormônios biodênticos. O primeiro é fabricado por laboratórios farmacêuticos. Vamos deixá-lo de lado. O segundo é feito, como já se disse, em farmácias de manipulação, a partir de extrato de soja e inhame mexicano, principalmente. Os defensores dos bioidênticos manipulados dizem que eles podem ser feitos sob medida para cada paciente. "É o que chamamos de customizar um remédio", diz o médico Ítalo Rachid, um dos precursores da disseminação desses hormônios no Brasil. Em comunicado oficial, a Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos adverte que a fabricação individualizada de um hormônio, a tal "customização", é praticamente impossível de ser alcançada "porque os níveis de hormônio no sangue são difíceis de medir e regular devido às variações fisiológicas". Além disso, não há estudos que atestem os benefícios e riscos dos bioidênticos manipulados, que não são controlados pelos órgãos de vigilância sanitária – ao contrário daqueles fabricados pelos grandes laboratórios.

Há médicos que questionam até mesmo a adoção da palavra "bioidêntico". "Não há nada de científico nesse termo. É uma mera questão mercadológica", afirma o endocrinologista Amélio Godoy Matos, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. O grande apelo dos hormônios bioidênticos manipulados é o de que eles seriam naturais e, por isso, o organismo se mostraria capaz de metabolizá-los da mesma forma que faz com um hormônio do próprio corpo. No entanto, dizer que esses tratamentos são naturais, ou que não são remédios, como chega a propagandear Suzanne Somers, está longe de ser verdade. Um bioidêntico pode até derivar de plantas como soja e inhame mexicano, mas para se tornar um decalque de uma molécula humana é preciso sintetizá-lo artificialmente. Só se não tivesse de sofrer alterações em sua estrutura química é que poderia ser considerado natural.

Os médicos que defendem os hormônios bioidênticos manipulados partem da premissa de que os hormônios em geral seriam a chave capaz de desligar o processo de envelhecimento do corpo. Eles identificam, inclusive, 23 "pausas", afora a menopausa. Para cada uma dessas pausas, haveria um hormônio bioidêntico sob medida: testosterona bioidêntica, GH bioidêntico, DHEA bioidêntico, e por aí vai. "As taxas de hormônios não caem porque envelhecemos, e sim nós envelhecemos porque elas caem", diz o médico Rachid. Esse tipo de afirmação leva os médicos ortodoxos à loucura. Houve até um bate-boca, nos Estados Unidos, entre Suzanne Somers e médicos mais tradicionais no programa Larry King Live, da CNN. "Quando todos perceberem que basta repor o hormônio que perdemos no processo de envelhecimento, nas quantidades exatas de que precisamos, não será necessário tomar mais nenhum remédio", disse a atriz. Ao que um dos interlocutores – com diploma – retrucou: "Suzanne deveria deixar a prática médica para os médicos. Deixe que nós cuidamos dos pacientes". Ela atribui seus alegados 60 anos redondos aos hormônios bioidênticos – a ginástica pesada, as plásticas e as injeções de Botox, que a deixaram bioidêntica a tantas outras loiras de alegados 60 anos da Califórnia, a atriz deixa para lá. Grande atriz.

 

A biopropaganda

Para mulheres na menopausa
Os hormônios bioidênticos seriam mais eficazes e seguros do que o método convencional de reposição hormonal. Isso porque, além de serem cópias fiéis dos hormônios humanos, a sua dosagem seria feita sob medida para as necessidades de cada paciente.
Nem mais nem menos do que ela precisaria

A verdade
Não há estudos clínicos que atestem a segurança e a eficácia desses remédios. Formular as doses exatas de determinado hormônio é difícil porque essas substâncias existem em quantidades ínfimas no organismo e variam muito ao longo do dia

Para retardar o envelhecimento
Partindo do princípio de que a chave do envelhecimento está na queda da produção hormonal, os defensores dos bioidênticos argumentam que é possível voltar aos níveis hormonais da juventude.
Por exemplo, um homem ou mulher por volta dos seus 60 anos deveria ter a mesma quantidade de GH (o hormônio do crescimento) circulante no sangue que tinha aos 20 anos

A verdade
A queda hormonal é apenas uma parte do processo natural de envelhecimento. Nada se provou cientificamente sobre os poderes antienvelhecimento da reposição de hormônios, a não ser o alívio de sintomas associados à idade. A única teoria antiidade comprovadamente aceita pela comunidade médica é a da restrição calórica

 

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