Médicos
americanos recomendam o uso de estatinas para crianças com colesterol
alto
Paula Neiva
Ben Edwards/Getty Images
Cuidado: os comprimidos só são indicados se exercício
físico e dieta não resolverem
A
Associação Americana do Coração acaba de divulgar
a nova cartilha para o controle do colesterol alto infantil. O documento recomenda
a prescrição de estatinas como primeira opção de tratamento
para as crianças que não conseguem reduzir os níveis de LDL,
o colesterol ruim, apenas com exercício físico e dieta. Lançadas
no mercado em meados da década de 80, as estatinas revolucionaram o tratamento
do colesterol alto. Até então, os únicos recursos disponíveis
eram mudanças no estilo de vida o que só funcionava para,
no máximo, 20% dos pacientes. A indicação de estatinas para
crianças está baseada nos estudos mais recentes sobre a gênese
das doenças cardiovasculares, especialmente o infarto. De acordo com os
médicos que elaboraram as novas diretrizes, "agora existem evidências
definitivas de que o processo de acúmulo de gordura nas artérias
começa na infância e sua progressão e severidade estão
diretamente associadas aos níveis de colesterol". Por isso, eles defendem
o uso de recursos mais agressivos desde cedo.
O tratamento medicamentoso contra o colesterol alto é indicado para meninos
com mais de 10 anos e meninas depois da primeira menstruação cujas
taxas de LDL sejam superiores a 190 miligramas por decilitro de sangue ou acima
de 160 miligramas por decilitro, associadas a dois outros fatores de risco ou
a histórico familiar de doença coronariana precoce. O objetivo é
baixar esses níveis para 110 miligramas por decilitro ou menos o
mesmo valor de referência para adultos. "Os estudos realizados com crianças
mostram que os efeitos colaterais são raros e que não há
riscos de a terapia atrapalhar a maturação sexual desses jovens
uma preocupação pertinente, já que o colesterol é
matéria-prima para a produção de hormônios", diz o
cardiologista Francisco Fonseca, professor da Universidade Federal de São
Paulo.
O documento da Associação
Americana do Coração adverte que a opção pelas estatinas
só deve ser feita se o colesterol não baixar o suficiente com a
prática regular de atividade física e a adoção de
uma alimentação equilibrada por, no mínimo, três meses
ou quando o problema é causado por um distúrbio genético.
"É preciso tomar cuidado para que a prescrição não
se torne uma panacéia", diz a cardiologista Tânia Martinez, professora
do Instituto do Coração, em São Paulo. "Antes de iniciar
um tratamento medicamentoso, deve-se tentar exaustivamente baixar esse índices
com mudanças no estilo de vida." O receio é que as estatinas se
transformem numa espécie de "ritalina do coração". Ou seja,
que elas se tornem, assim como o remédio indicado para a hiperatividade
infantil, a primeira e única opção de pais
pouco propensos a dar mais atenção a seus filhos.