O
Segredo recicla achados de outros livros
de auto-ajuda e dilui conceitos da psicanálise, da economia e da religião
Jerônimo
Teixeira
Imagno/Getty
Images
ONIPOTÊNCIA
DO PENSAMENTO Freud analisou os mecanismos
da magia, que seriam próprios dos povos primitivos e das crianças – mas também
sobrevivem no mundo moderno
O
antecessor de toda a literatura de auto-ajuda é o poeta e ensaísta
americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882), com seu chamado ao aperfeiçoamento
pessoal em Autoconfiança, texto de 1841. Esse ensaio pregava
um individualismo extremado e anti-social a sociedade, dizia Emerson, nada
mais é que uma "conspiração para roubar a virilidade de seus
membros". A auto-ajuda posterior do inglês James Allen, no início
do século XX, ao guru "quântico" indiano Deepak Chopra (veja
quadro) herdou a retórica motivacional de Emerson, mas a
colocou em uma moldura conformista. Passou-se a valorizar o sucesso. A moderna
auto-ajuda é, afinal, um produto da sociedade de mercado. No fundo de todos
os seus livros, há uma simplificação das idéias centrais
da teoria econômica liberal: como agente econômico livre, o homem
é capaz de mudar suas circunstâncias e produzir riqueza. Não
surpreende, aliás, que um dos maiores clássicos da auto-ajuda, Como
Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, do americano Dale Carnegie, tenha surgido
em resposta a uma crise econômica a Grande Depressão dos anos
30.
Os grandes capitalistas
em geral professam uma filosofia de autoconfiança e otimismo, às
vezes traduzida em livros autobiográficos com um pé na auto-ajuda
caso, por exemplo, de Jack Definitivo, best-seller de Jack Welch,
executivo da General Electric, e, bem antes, de Autobiografia, de Andrew
Carnegie, magnata da siderurgia do século XIX. "Um estado de espírito
luminoso vale mais do que a boa sorte. Os jovens devem aprender que a mente, como
o corpo, pode se mover da sombra para o sol", dizia Carnegie. Há exceções,
claro: ninguém diria que o magnata Howard Hughes, retratado no filme O
Aviador, era uma personalidade "ensolarada" mas sua hipocondria e suas
debilitantes fobias sociais não o impediram de ser bilionário.
AP
ILUSIONISMO
MENTAL Uri Geller jura que dobra talheres
e faz adivinhações com a força da mente. Mas esses são truques que todo mágico
de salão sabe reproduzir
No plano da psicologia, a auto-ajuda pretende ensinar seus leitores a superar
traumas, entraves e inibições que os impeçam de chegar à
felicidade. Pode ser encarada, nesse sentido, como uma versão barata da
psicanálise. "A convocação a tomar uma parte mais ativa na
vida, através do conhecimento daquilo que nos determina, é uma aspiração
socrática que a psicanálise herdou, e que a auto-ajuda dilui", diz
o psicanalista Renato Mezan, professor da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. Outra concepção fundamental da auto-ajuda é
que as pessoas carregam, dentro de si mesmas, forças que atuam em sentido
contrário aos seus desejos mais uma vez, diz Mezan, uma diluição
de um conceito fundamental da psicanálise: os mecanismos de defesa.
Talvez seja o próprio fundador da psicanálise quem forneça
os melhores instrumentos críticos para entender do que trata O Segredo.
No clássico Totem e Tabu, Sigmund Freud examina com rigor os mecanismos
do pensamento mágico que seria peculiar aos povos primitivos e às
crianças. O princípio fundamental da magia, segundo Freud, é
a "onipotência do pensamento" a idéia de que se pode conseguir
qualquer coisa apenas pela força do desejo. Essa concepção
corre ao lado do animismo, a doutrina segundo a qual todas as coisas, sejam elas
animais, vegetais ou minerais, carregam uma alma. Essas são crenças
ancestrais que, sempre de acordo com Freud, persistem na vida moderna "sob a forma
degradada da superstição". O Segredo cabe perfeitamente no
figurino do pensamento mágico. O livro não fala mais em "alma",
preferindo termos laicos roubados da física, como "energia" ou "magnetismo"
mas, sob o novo vocabulário, subsiste a idéia de que a realidade
física que cerca o homem é dotada de consciência. O livro
é insistente nesse ponto: o universo está sempre ouvindo o que as
pessoas pensam. E esses pensamentos podem mudar qualquer coisa. São, nos
termos de Freud, onipotentes.
"Todas
as grandes tradições religiosas acabam se distanciando do pensamento
mágico. No judaísmo, isso ocorre, grosso modo, com os profetas hebraicos,
que criticavam os sacrifícios como modo de barganha com Deus", diz o teólogo
Luiz Felipe Pondé, da PUC de São Paulo. No judaísmo e depois
no cristianismo, a relação com Deus passou a ser regida pela ética,
não pelo toma-lá-dá-cá (ainda que algumas vertentes
pentecostais retornem ao pensamento mágico na sua "religião de resultados").
O Segredo, embora ensine a barganhar com o universo, busca amparo na sabedoria
religiosa menos imediatista. Um aforismo de Buda ("Tudo o que somos é resultado
do que pensamos") é citado no livro, embora o desapego às coisas
terrestres próprio do budismo seja esquecido. E o "método criativo"
da obra é baseado em uma frase de Jesus que aparece, com pequenas variações,
nos evangelhos de Mateus e Marcos: "Tudo quanto pedirdes em oração,
crendo, recebereis". É uma miscelânea que não faz sentido
aos olhos dos estudiosos da religião. "Essa tentativa de transformar Jesus
e Buda em gurus do pensamento positivo é risível", diz Pondé.
O recurso à tradição
cristã não é inédito na auto-ajuda. Um dos "clássicos"
do gênero, O Poder do Pensamento Positivo, de 1952, foi escrito por
um pastor metodista, Norman Vincent Peale. Expressão da ética protestante
de que fala o sociólogo alemão Max Weber, Peale fazia uma relação
direta entre fé e prosperidade, com recurso a outras tantas máximas
da Bíblia (por exemplo, "se Deus está por nós, quem
pode estar contra nós?", da epístola de São Paulo aos Romanos).
O Segredo é mais parcimonioso na citação das escrituras
e busca dar um verniz "científico" a suas proposições. Seu
apelo constante à positividade, contudo, só encontrará eco
nos leitores dispostos a dar o salto cego da fé, abraçando a idéia
mágica de que os pensamentos transformam o mundo. E transformam mesmo
mas só os muito originais e desde que convertidos em ação.
O israelense Uri Geller (quem
tem mais de 40 anos deve se lembrar bem dele) poderia ser garoto-propaganda de
O Segredo. O livro e o documentário da australiana Rhonda Byrne
propõem que o pensamento não conhece limites na sua capacidade de
alterar o mundo. É quase o mesmo que Geller vem afirmando já há
mais de trinta anos nas demonstrações públicas de seu suposto
poder psíquico. Aliás, há mais de uma semelhança entre
o mais recente best-seller de auto-ajuda e o autoproclamado paranormal. Se o que
eles pregam às vezes parece funcionar de fato, nunca é assim pelas
razões que eles alegam. Geller diz fazer adivinhações e dobrar
talheres com o poder da mente, mas esses truques podem ser reproduzidos por qualquer
ilusionista, como o mágico e cético profissional James Randi já
demonstrou sobejamente. O Segredo alega que leitores e espectadores podem
mudar sua vida radicalmente com alguns exercícios mentais simples, desde
que entendam a "lei da atração", segundo a qual toda pessoa seria
uma "torre de transmissão humana", bombardeando o universo com o magnetismo
de seus pensamentos.
O fato
cabal é que essa lei não existe. "O pensamento por si só
não altera o mundo físico, mas as pessoas têm maior probabilidade
de obter sucesso se mantiverem uma atitude positiva. Esse é um fato psicológico
bastante simples", diz Gustav Jahoda, da Universidade de Strathclyde, na Escócia,
autor de A Psicologia da Superstição. Há ainda um
último ponto em que a analogia entre Geller e O Segredo se revela
pertinente: assim como os truques do israelense pertencem ao repertório
comum de qualquer mágico, O Segredo também não traz
nada de propriamente original. Ele apenas recicla, de forma muito eficiente, é
verdade, obras anteriores de auto-ajuda que, por sua vez, já requentavam
idéias bem mais complexas do universo da economia, da psicologia, da psicanálise
e da religião.
UM SÉCULO DE
CONSELHOS
Algumas obras de
auto-ajuda que anteciparam as idéias de O Segredo
SÉCULO XIX O poeta e ensaísta
americano Ralph Waldo Emerson tornou-se uma espécie de precursor
da auto-ajuda com Autoconfiança, de 1841. O texto prega uma imersão
radical na vida interior de cada indivíduo: "Acreditar que aquilo que é
verdadeiro no seu coração é verdadeiro para todos os homens
isto é o gênio".
INÍCIO
DO SÉCULO XX Em 1902, o empregado de fábrica inglês
James Allen lança O Homem É Aquilo que Ele Pensa,
livro que já trazia a idéia central de O Segredo: bons pensamentos
produzem bons resultados. "Só precisamos nos acertar para descobrir que
o universo está certo", diz ele.
ANOS
30 Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, do americano Dale
Carnegie, é considerado um divisor de águas da auto-ajuda. Publicado
em 1936, em plena Grande Depressão, buscava motivar seus leitores com uma
mensagem simples: "Acredite que você pode mudar sua vida e isso se concretizará".
ANOS 50 Sucesso
do pastor americano Norman Vincent Peale, O Poder do Pensamento Positivo,
de 1952, tem uma nota religiosa mais evidente do que os outros livros de auto-ajuda.
Ensina que a fé pode conseguir qualquer coisa. A síntese do livro
é a seguinte fórmula: "Reze, imagine, realize".
ANOS 90 Médico indiano radicado
nos Estados Unidos, Deepak Chopra tornou-se guru com livros como As
Sete Leis Espirituais do Sucesso. Suas obras conjugam idéias místicas
inspiradas nas religiões orientais e em noções duvidosas
de física quântica coquetel que se repete, em doses diferentes,
em O Segredo