Atentado na UnB pode se resumir
a uma simples briga de vizinhos
Alexandre
Oltramari
Fotos
Marcelo Ferreira/CB
Alunas
africanas que dormiam num quarto atingido: susto na madrugada
Na semana passada, vândalos atearam fogo às portas de três
apartamentos ocupados por estudantes africanos no alojamento da Universidade de
Brasília, a UnB. Ninguém ficou ferido. O incêndio criminoso,
dada a origem das vítimas, tem sido tratado como um atentado racista. "É
um incidente que nos enche de vergonha", disse o ministro Celso Amorim, das Relações
Exteriores. O Ministério Público pediu à polícia que
investigasse os indícios de que o crime tenha sido um ato racista. Uma
comitiva parlamentar também foi à universidade exigir providências.
"São nazifascistas que colocaram fogo justamente nos quartos dos setores
onde os negros africanos estavam hospedados", afirmou o deputado Doutor Rosinha
(PT-PR). Estudantes fizeram manifestações contra o ato e, sem nenhum
nexo com o ocorrido, aproveitaram para exigir mais verbas para a universidade.
Pressionada, a UnB triplicou a segurança em suas dependências e transferiu
para hotéis de Brasília todos os 22 estudantes africanos que vivem
no alojamento. O reitor sugeriu que, a partir de agora, a data do incêndio
seja lembrada como o dia da luta pela igualdade racial.
A indignação por um ato de conotação racista merece
todo o repúdio e indignação. Mas, ao que tudo indica, o crime
nada tem a ver com a cor da pele das vítimas. Há indícios
de que por trás do incidente esteja apenas uma banal contenda entre vizinhos.
Um ano atrás, ao retornar de madrugada para o seu alojamento na UnB, o
universitário africano Adilson Fernandes Dias decidiu ouvir zouk,
um ritmo musical caribenho, semelhante à lambada, muito popular nos países
africanos de língua portuguesa. Um estudante brasileiro, Roosevelt dos
Reis, reclamou do volume do som. Os dois brigaram e o brasileiro levou a pior.
Ambos foram suspensos pela universidade, mas o clima ficou pesado no alojamento,
que abriga 377 universitários brasileiros e 23 estrangeiros. Paredes foram
pichadas com insultos generalizados. Um dos dormitórios incendiados era
ocupado exatamente por Adilson Fernandes Dias, o africano que trocou agressões
com Roosevelt dos Reis.
Estudantes
da UnB protestam: racismo ou falta de dinheiro?
Apesar
do barulho que se fez, nem as vítimas do ato de vandalismo acreditam que
o motivo do incêndio seja racismo. Dos nove apartamentos ocupados por africanos,
três foram atingidos. "Foi um conflito individual que se alastrou", diz
o estudante africano Nivaldo Domingos Gomes, que pulou de uma altura de 3 metros
para escapar das labaredas. "Quiseram atingir um ou dois de nós. Não
existe uma ameaça contra negros aqui", conta Lenine da Silva, nascido na
Guiné e aluno de ciências sociais. Há, de fato, um desconforto
entre alguns estudantes brasileiros em relação à presença
de estrangeiros no alojamento universitário. Acham que eles ocupam o lugar
de brasileiros carentes. É uma evidência de que a discriminação
no Brasil é motivada mais por razões econômicas.