Entrevista: Constantino
Junior O novo rei dos ares
O dono da Gol, e agora da Varig, detalha seus planos, que incluem operar linhas
internacionais de baixo custo, sem primeira classe
Lucila
Soares
Cacalos Garrosstazu/Valor/Folha Imagem
"Não
vamos lançar a barra de cereal de 1 quilo. Mas nem por isso vamos oferecer caviar
e vinhos"
Constantino
Junior é apaixonado por aviões. Gosta de voar, é fascinado
por engenharia e pela complexa operação de uma companhia aérea.
Aprendeu a pilotar aos 15 anos, e seus olhos brilham quando se lembra de seu primeiro
vôo sem instrutor. " Eu me senti um passarinho", diz. Na semana passada,
os olhos de Junior tinham outro bom motivo para brilhar. Apenas seis anos depois
de ter recebido do pai a incumbência de criar uma companhia aérea,
o empresário, de 38 anos, fechou a compra da Varig por 320 milhões
de dólares e se prepara para desbancar a TAM, ainda neste ano, da liderança
do setor. É um dos mais espetaculares casos de sucesso do capitalismo brasileiro
dos últimos anos. A operação tem importância estratégica.
Permite à Gol assumir todos os horários de pousos e decolagens da
Varig em todo o país, e ainda lhe dá acesso às licenças
para aterrissar nos principais aeroportos da Europa. O plano é fazer da
Varig uma empresa que ofereça vôos internacionais de baixo custo.
Na noite de quinta-feira, no Rio de Janeiro, Constantino Junior deu a seguinte
entrevista a VEJA.
Veja
A Varig foi vendida, há oito meses, por 25 milhões
de dólares. De acordo com as informações divulgadas, o investimento
do fundo Matlin Patterson foi de 75 milhões de dólares. Por que
o senhor pagou um preço 220% acima desse valor? Constantino
Junior O antigo controlador aportou muito mais recursos do que esses
100 milhões de dólares, até para permitir que a empresa se
mantivesse em operação. Mas, independentemente disso, a questão
é quanto esse negócio pode agregar valor à Gol. E, nesse
sentido, estou bastante confiante em que a operação adiciona mais
valor à Gol do que o que nós estamos pagando por ela. Inclusive
porque utilizamos como recursos capital próprio e ações da
Gol.
Veja Que
papel essa compra desempenha na estratégia da Gol? Constantino
Junior A Gol Transportes Aéreos continua com sua missão
de popularizar o transporte aéreo na América do Sul, aproximando
fronteiras e cobrando tarifas de baixo custo em todos os mercados que comportem
aviões como os nossos na região. A Varig passa a cumprir um papel
importante de oferecer no mercado doméstico um serviço diferenciado,
com vôos diretos entre os principais centros, preservando o programa de
fidelidade Smiles como um diferencial. Na América do Sul, deverá
operar as rotas de Buenos Aires e Santiago, além de manter Bogotá
e Caracas. E vai reiniciar as operações internacionais com dois
tipos de serviço: classe executiva e classe econômica. Vamos eliminar
a primeira classe, porque entendemos que o mercado mudou. Hoje se busca muito
mais praticidade e conforto a preço acessível do que luxo a preços
exorbitantes.
Veja
A primeira classe vem sumindo no mundo inteiro, e a executiva tem
se popularizado e perdido parte de seu conforto (poltronas mais próximas,
menos serviços). Será que voar se tornou definitivamente um sacrifício,
até para quem tem dinheiro? Constantino Junior De
forma alguma. Estamos falando em prover transporte aéreo com conforto e
praticidade, permitindo que o passageiro economize na passagem e gaste esse dinheiro
no champanhe que ele preferir no destino, aproveitando muito melhor cada centavo.
Ele poderá inclusive beber champanhe gelado, o que normalmente não
acontece nos aviões. E não está nos planos reduzir o tamanho
das poltronas ou aumentar a quantidade delas na classe executiva. Além
do mais, a Gol não está ditando uma regra. Apenas oferece uma alternativa
que acredita ser a que melhor atende à maioria do mercado. Se alguém
quiser oferecer luxo, que ofereça.
Veja
Como aplicar o conceito de baixo custo na longa distância?
Que consumidor agüenta vôos desconfortáveis, mesmo que baratos,
por mais de dez horas? Constantino Junior A distribuição
de poltronas num vôo de baixo custo de longa distância é igual
à das companhias tradicionais. O modelo se apóia em outros pilares,
como frotas padronizadas, uso intensivo de tecnologia no gerenciamento da companhia
e em práticas voltadas para o cliente, como check-in pela internet. Também
podemos oferecer um serviço de bordo compatível com um vôo
internacional. Não vamos lançar a barra de cereal de 1 quilo, mas
nem por isso trabalharemos com variedades de caviar, de vinhos, com esse requinte
excessivo.
Veja O senhor pretende que a Gol seja a primeira companhia de baixo custo a voar
longa distância no mundo. Empresas como a irlandesa Ryanair tentam e não
conseguiram ainda. Por que elas não conseguem? E por que a Gol conseguiria? Constantino Junior É apenas questão de tempo.
Essa é uma tendência mundial. Esse movimento da Gol recoloca a aviação
brasileira numa posição de vanguarda no mundo. A Ryanair caminha
para isso com a aquisição da também irlandesa Aer Lingus,
mesmo operando no mercado europeu, que é enorme e ainda tem grande potencial
de crescimento. A AirAsia está criando sua companhia de baixo custo e longo
curso para operar vôos internacionais. A Virgin Blue, australiana, também.
Veja A rentabilidade da Gol só perde para a da Ryanair. Mas a empresa pratica
tarifas muito próximas às das concorrentes tradicionais. Por quê? Constantino Junior O preço por quilômetro no mercado
doméstico saiu de praticamente 55 centavos, em valores de hoje, em 1996,
para menos de 30 centavos em 2006, enquanto a demanda reagiu, principalmente a
partir de 2002. Saímos de 22 milhões de passageiros/ano em 1996
para 40 milhões no ano passado. Os preços nunca foram tão
baixos. Mas há uma convergência do mercado para esse modelo de negócios.
No início das operações da Gol, os custos de operação
da companhia chegavam a ser 60% menores que os de outras companhias. Nós
passamos a ser a referência, outras empresas mudaram a gestão, buscando
ganhos de eficiência. E isso provocou uma redução geral nas
tarifas. Por isso a diferença. Não porque a Gol esteja cobrando
mais caro do que antes, mas porque o mercado opera atualmente com tarifas médias
mais baixas.
Veja
O senhor afirma que Gol e Varig serão empresas diferentes
e que, portanto, a concorrência não será afetada. Como pretende
pôr em prática uma "concorrência" entre empresas do mesmo dono?
Existe algum exemplo disso na aviação mundial? Constantino
Junior Não me ocorre nenhum. Talvez nós sejamos mesmo
os primeiros. Mas eu tenho muito claro que o desafio das duas empresas é
atender ao anseio de diferentes clientes. Existem os dois mercados. Aquele de
quem prioriza o serviço, o sistema de reserva, o programa de milhagem,
e aquele que prioriza o preço. Existem os dois perfis e nós queremos
ambos. O papel dessa competição é dimensionar o tamanho de
cada um. A Gol tem um plano estratégico, a Varig terá o seu. Se
nós percebermos que o mercado valoriza mais o serviço que a Varig
oferece, ela crescerá mais. Se a Gol conseguir mostrar que tem a preferência
do passageiro, será ela a ter seu crescimento acelerado. Vamos deixar que
o mercado decida.
Veja
Em que prazo devem acontecer as ações anunciadas?
Quando todos os slots (autorizações de vôos) da Varig
estarão ocupados? Em quanto tempo a Varig poderá voltar a fazer
rotas internacionais? Constantino Junior Temos de aguardar
a aprovação da Agência Nacional de Aviação Civil,
e também a sinalização do Conselho Administrativo de Defesa
Econômica, para então partir para algumas definições.
A idéia é iniciar as operações dos vôos internacionais
para a Europa num prazo entre quatro meses e um ano. Em mais quatro meses, deveremos
começar a voar para Nova York e Miami. No mercado doméstico, os
prazos são mais curtos. Já estávamos em contato com fabricantes
para renovar e ampliar a frota da Varig de forma a ocupar todos os slots.
Veja O senhor
anunciou que o Smiles será reforçado. Como será isso? Está
nos planos voltar a integrar a Star Alliance? Constantino Junior
Nós não definimos ainda o perfil da aliança que a Varig fará
no âmbito do programa de fidelidade. O que está garantido é
que o Smiles será mantido da forma como foi concebido. O programa conta
ainda com 5 milhões de membros, dos quais 3 milhões ativos. É
um número expressivo, que demonstra a força da Varig e do Smiles
mesmo depois de tanto desgaste ao longo dos últimos anos.
Veja O senhor comanda uma empresa
que é o maior case brasileiro de sucesso empresarial dos últimos
anos. O que determinou esse sucesso? Constantino Junior
É sempre uma conjunção de fatores. Mas o mais importante
é que a Gol foi criada para romper paradigmas, e isso significa que de
tempos em tempos ela tem de se renovar. Nós aparecemos no momento certo,
em que existia espaço no mercado, que nos deu oportunidade de quebrar paradigmas,
de trazer um novo modelo de negócios para o Brasil. Rompemos com alguns
conceitos que estavam arraigados. Eu ouvi de um empresário experiente do
turismo sobre o nosso plano de vender passagem pela internet: "Muito bem, mas
você não está na Suíça. Você vai limitar
sua empresa a 2%, 3% do mercado. Hoje a Gol vende 85% das passagens pela internet
e o bilhete de papel é coisa do passado também para as demais empresas.
Nós tivemos a coragem de apostar e a sorte de encontrar as pessoas certas
para fazer isso. Amanhã, outra empresa vai quebrar os paradigmas atuais.
E nós trabalhamos para que essa empresa seja uma Gol renovada.
Veja Qual foi seu pior momento à
frente da companhia? Constantino Junior Sem dúvida
nenhuma, o acidente (do vôo 1907, que completou seis meses na quinta-feira,
dia em que esta entrevista foi realizada). Além da tragédia
em si, coincidiu que o acidente marcou o início de sucessivos problemas
no setor aéreo, o que faz com que seja freqüentemente relembrado.
É claro que isso é fator de desgaste para a companhia, mas não
é perceptível nas pesquisas. Ao contrário, como a Gol se
esforçou ao máximo para dar a melhor assistência possível
às famílias das vítimas do acidente, ficou demonstrado que
é uma empresa que tem responsabilidade. Nós amadurecemos com essa
tragédia. Nenhuma companhia que passa por isso continua a ser a mesma.
Veja Os senhores
estão comprando a Varig em pleno apagão aéreo. Não
é um risco? Constantino Junior Muitas vezes as melhores
oportunidades não aparecem nos melhores momentos. Mas nós adquirimos
a Varig olhando para o futuro. Eu confio que os problemas serão solucionados.
Houve uma conjunção de fatores que criou uma situação
muito difícil para os clientes e também para os nossos colaboradores.
Muitas vezes a Gol disponibiliza 100% de sua frota e 100% de seu pessoal e não
consegue ter informação, que é aquilo de que o cliente mais
precisa. A falta de informação é o coração
do apagão aéreo.
Veja
Por que a Gol não participou do leilão da Varig no
ano passado, tendo tido anteriormente uma aproximação com a Fundação
Rubem Berta (a ex-controladora) para comprar a empresa? Constantino
Junior Basicamente, porque há um ano a Gol vivia um momento
bem diferente do atual. Nós ainda tínhamos o desafio de receber
várias aeronaves novas, estávamos abrindo seis bases internacionais
na América do Sul. No ano passado, contratamos quase 3.500 funcionários.
Vivíamos um momento vertiginoso, e não quisemos dar um passo maior
que as pernas. Também havia dúvidas em relação à
Lei de Recuperação Judicial, que é nova. Hoje sabemos que
ela tem eficácia.
Veja
Mas ainda se fala no risco de a GTI (subsidiária da Gol
que comprou a Varig) assumir todo o passivo, que é de impressionantes
7 bilhões de reais. O passivo pode recair sobre a Gol, que é a controladora.
Esse risco existe? Constantino Junior Nós entendemos
que a transação compreende a compra de uma empresa VRG, que opera
a marca Varig, livre de qualquer passivo. É dessa forma que concluímos
a negociação, e entendemos que o risco é mínimo, na
medida em que os trabalhadores fizeram parte desse plano de recuperação
e concordaram com a venda da unidade produtiva isolada nas condições
previstas no leilão. Esse princípio contido na lei, de que os credores
decidem o futuro da empresa, foi o que norteou o leilão. E nós acreditamos
que ele será preservado.
Veja
A CVM está questionando o vazamento de informações
na operação. VEJA noticiou as negociações um
mês antes da compra e anunciou a conclusão menos de uma semana antes
de sua concretização. Esse questionamento pode trazer problemas?
Constantino Junior Creio que não. Percebo que a
CVM cumpre seu papel, mas a Gol preza a transparência. Vamos colaborar com
as informações necessárias à investigação,
e não acredito que isso vá interferir em nada.
Veja O senhor é apaixonado
por corridas de carros. O que é mais emocionante: ultrapassar um Porsche
ou a TAM? Constantino Junior Qualquer ultrapassagem é
boa, gera perspectivas boas, evolução, faz parte de uma caminhada
para o futuro. A Gol não tem como meta ultrapassar a TAM. O principal objetivo
é fazer o nosso trabalho, oferecer ao cliente a opção do
nosso serviço e deixar que ele escolha. Se isso redundar em liderança,
ótimo. Até porque esse não é um fator nada desprezível
para uma empresa que pretende ser um player global.