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Edição 2002

4 de abril de 2007
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Auto-retrato
Eumir Deodato

Eumir Deodato trabalhou com artistas consagrados como Frank Sinatra, Kool & the Gang e Björk. Às vésperas de embarcar de Nova York, onde mora, para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, o maestro falou ao repórter Sérgio Martins sobre sua carreira e disparou farpas contra os ex-companheiros de bossa nova.

NOS ANOS 60, O SENHOR FOI TENTAR A SORTE NOS ESTADOS UNIDOS, JUNTAMENTE COM ARTISTAS COMO TOM JOBIM, JOÃO GILBERTO E LUIZ BONFÁ. ELES VOLTARAM, MAS O SENHOR FICOU E INVESTIU EM OUTROS GÊNEROS. ESTAVA CANSADO DA BOSSA NOVA?
O pessoal daquele período costuma dizer que foi um tremendo sucesso nos Estados Unidos. A verdade é que fizeram um punhado de shows para brasileiros expatriados e voltaram rapidinho para casa. Eu queria ficar aqui de fato, e portanto não podia tocar só bossa. Aprendi a ampliar meus horizontes musicais.  

COMO FOI TRABALHAR COM FRANK SINATRA?
Ele era uma estrela e se cercava de um pessoal bem mal-encarado. Foi por preguiça que não gravou um disco inteiro com a obra de Tom Jobim. Não estudava as canções. Por isso, acabou registrando apenas cinco.  

O SENHOR ACOMPANHA OS ARTISTAS DA BOSSA NOVA ELETRÔNICA, COMO BEBEL GILBERTO?
A bossa se popularizou tanto que hoje você depara com artistas de tango que se acham bossa-novistas. Entre os que fazem música eletrônica, não é muito diferente. Olhe, quase trabalhei com a Bebel num tributo ao Ennio Morricone. Mas levei três canos dela e agora só a chamo de Torre de Bebel. Tive de chamar Daniela Mercury às pressas para fazer o disco. Ela não conseguiu acertar o tom, e tive de usar um afinador eletrônico para consertar a voz dela.

NO COMEÇO DA CARREIRA O SENHOR TOCOU COM MAYSA, UMA CANTORA FAMOSA PELO GÊNIO FORTE. DAVA MEDO TRABALHAR COM ELA?
Sabe que não tive problemas? As pessoas que mais sofriam numa apresentação de Maysa eram aquelas que insistiam em conversar. Maysa jogava água nelas.

SÉRGIO MENDES É OUTRO BOSSA-NOVISTA DE PRIMEIRA HORA QUE DESENVOLVEU UMA CARREIRA AMERICANA. VOCÊS COSTUMAM CONVERSAR?
Não com freqüência. Sérgio demitiu uma banda inteira porque eles tiveram a ousadia de lhe pedir aumento. Eu gosto de grandes instrumentistas e pago a eles muito bem. Somos pessoas diferentes.  

COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA À FRENTE DA BANDA KOOL & THE GANG?
Musicalmente, muito boa. O único problema é que o dono da gravadora deles era ligado à máfia. O filho do sujeito tinha problemas com drogas e eu morria de medo de ele ter uma overdose no meu estúdio. Eu ia acabar pagando o pato. Escapei na primeira oportunidade. O selo do Kool & the Gang se chamava Delightful ("Maravilhoso") Records. Para mim, era Pesadelo Records.  

EXISTE ALGUM OUTRO PAÍS ONDE O SENHOR GOZE DE TANTO RESPEITO QUANTO NOS ESTADOS UNIDOS?
Sou adorado na Europa. Em Londres, o pessoal da velha-guarda leva meus discos para autografar – junto com os filhos, que também são fãs. Por incrível que pareça, também gostam de mim nas Filipinas. Eu me apresentei por lá em 1975, por causa de uma versão dançante que fiz da Ave Maria de Schubert. Quando voltei, anos depois, encontrei um monte de meninos batizados de Eumir ou Deodato.  

NOS ANOS 90, O SENHOR FOI TRABALHAR NA BOLSA DE VALORES. POR QUÊ?
Eu havia me desiludido com a música, queria fazer algo diferente. Foi bom, mas o trabalho na bolsa exige muita disciplina – qualidade que eu não tenho. Também sofro da "síndrome do jogador". Ou seja, tinha dificuldade em parar na hora certa e por causa disso perdi um bom dinheiro.

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