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Auto-retrato Eumir
Deodato Eumir
Deodato trabalhou com artistas consagrados como Frank Sinatra, Kool & the
Gang e Björk. Às vésperas de embarcar de Nova York, onde mora,
para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, o maestro
falou ao repórter Sérgio Martins sobre sua carreira e disparou farpas
contra os ex-companheiros de bossa nova. NOS
ANOS 60, O SENHOR FOI TENTAR A SORTE NOS ESTADOS UNIDOS, JUNTAMENTE COM ARTISTAS
COMO TOM JOBIM, JOÃO GILBERTO E LUIZ BONFÁ. ELES VOLTARAM, MAS O
SENHOR FICOU E INVESTIU EM OUTROS GÊNEROS. ESTAVA CANSADO DA BOSSA NOVA?
O pessoal daquele período costuma dizer que foi um tremendo sucesso nos
Estados Unidos. A verdade é que fizeram um punhado de shows para brasileiros
expatriados e voltaram rapidinho para casa. Eu queria ficar aqui de fato, e portanto
não podia tocar só bossa. Aprendi a ampliar meus horizontes musicais.
COMO FOI TRABALHAR COM FRANK
SINATRA? Ele era uma estrela e se cercava de um pessoal bem mal-encarado.
Foi por preguiça que não gravou um disco inteiro com a obra de Tom
Jobim. Não estudava as canções. Por isso, acabou registrando
apenas cinco. O SENHOR ACOMPANHA
OS ARTISTAS DA BOSSA NOVA ELETRÔNICA, COMO BEBEL GILBERTO? A bossa
se popularizou tanto que hoje você depara com artistas de tango que se acham
bossa-novistas. Entre os que fazem música eletrônica, não
é muito diferente. Olhe, quase trabalhei com a Bebel num tributo ao Ennio
Morricone. Mas levei três canos dela e agora só a chamo de Torre
de Bebel. Tive de chamar Daniela Mercury às pressas para fazer o disco.
Ela não conseguiu acertar o tom, e tive de usar um afinador eletrônico
para consertar a voz dela. NO COMEÇO
DA CARREIRA O SENHOR TOCOU COM MAYSA, UMA CANTORA FAMOSA PELO GÊNIO FORTE.
DAVA MEDO TRABALHAR COM ELA? Sabe que não tive problemas? As pessoas
que mais sofriam numa apresentação de Maysa eram aquelas que insistiam
em conversar. Maysa jogava água nelas. SÉRGIO
MENDES É OUTRO BOSSA-NOVISTA DE PRIMEIRA HORA QUE DESENVOLVEU UMA CARREIRA
AMERICANA. VOCÊS COSTUMAM CONVERSAR? Não com freqüência.
Sérgio demitiu uma banda inteira porque eles tiveram a ousadia de lhe pedir
aumento. Eu gosto de grandes instrumentistas e pago a eles muito bem. Somos pessoas
diferentes. COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA
À FRENTE DA BANDA KOOL & THE GANG? Musicalmente, muito boa.
O único problema é que o dono da gravadora deles era ligado à
máfia. O filho do sujeito tinha problemas com drogas e eu morria de medo
de ele ter uma overdose no meu estúdio. Eu ia acabar pagando o pato. Escapei
na primeira oportunidade. O selo do Kool & the Gang se chamava Delightful
("Maravilhoso") Records. Para mim, era Pesadelo Records. EXISTE
ALGUM OUTRO PAÍS ONDE O SENHOR GOZE DE TANTO RESPEITO QUANTO NOS ESTADOS
UNIDOS? Sou adorado na Europa. Em Londres, o pessoal da velha-guarda leva
meus discos para autografar junto com os filhos, que também são
fãs. Por incrível que pareça, também gostam de mim
nas Filipinas. Eu me apresentei por lá em 1975, por causa de uma versão
dançante que fiz da Ave Maria de Schubert. Quando voltei, anos depois,
encontrei um monte de meninos batizados de Eumir ou Deodato.
NOS ANOS 90, O SENHOR FOI TRABALHAR NA BOLSA DE
VALORES. POR QUÊ? Eu havia me desiludido com a música, queria
fazer algo diferente. Foi bom, mas o trabalho na bolsa exige muita disciplina
qualidade que eu não tenho. Também sofro da "síndrome
do jogador". Ou seja, tinha dificuldade em parar na hora certa e por causa disso
perdi um bom dinheiro. |