Tem lógica?
E eis que o filósofo inglês
Bertrand
Russell volta à tona
Flávio
Moura
Durante
uma turnê de palestras pelos Estados Unidos, o inglês
Bertrand Russell (1872-1970) foi convidado para um jantar
de gala. Sentou-se ao lado do diretor de uma respeitável
faculdade para mulheres, que, intrigado por suas freqüentes
intervenções na imprensa, lhe perguntou: "Por
que o senhor deixou de lado a filosofia?" Sem perder a fleuma,
Russell respondeu: "Porque descobri que preferia fazer sexo".
Parte de um rico anedotário, essa historieta é
bastante representativa da trajetória de um homem que
começou sua carreira obcecado pelos temas mais áridos
e abstratos da filosofia e morreu disparando opiniões
a respeito de tudo e de todos. Uma excelente biografia recém-lançada
na Inglaterra e nos Estados Unidos e três livros medianos
publicados há pouco no Brasil põem de novo em
evidência a figura desse pensador.
Na filosofia, Russell procurou encontrar, pelos caminhos da
lógica e da matemática, um mundo de verdades
eternas por trás do caos da realidade. A paixão
e o rigor com que perseguiu seu objetivo, em obras como Princípios
da Matemática (1903), garantiram-lhe certo destaque
entre os pensadores do começo do século XX.
Na I Guerra Mundial, porém, ele começou a voltar-se
para outros temas. "Como filósofo da matemática,
Russell havia conquistado uma grandeza rara. Como jornalista
e comentador político, ele iria produzir uma quantidade
impressionante de escritos de segunda linha", sentencia o
professor inglês Ray Monk, na elogiada biografia The
Ghost of Madness. Os três volumes lançados
no Brasil são bons exemplos desse Russell de segundo
time. Dois deles, Ideais Políticos e Silhuetas
Satíricas (ambos da editora Bertrand Brasil), trazem
textos sobre religião, casamento e ética, entre
outros assuntos. O outro, História do Pensamento
Ocidental (tradução de Laura Alves e
Aurélio Rebello; Ediouro; 463 páginas; 28 reais),
é um apanhado de opiniões sobre pensadores renomados,
dos pré-socráticos a Wittgenstein. Resumo de
uma obra anterior, mais famosa e um pouco mais profunda, História
da Filosofia Ocidental, o livro deve ser visto com desconfiança:
serve no máximo para dar um vernizinho cultural a quem
se interessar por filosofia.
Confidente do poeta T.S. Eliot, a quem chegou a doar um pedaço
de sua herança, professor do austríaco Ludwig
Wittgenstein e amigo da nata da intelectualidade inglesa de
sua época, Russell teve uma vida conturbada. Órfão,
ele cresceu sem maiores informações sobre os
pais: a avó nobre que o criou temia que soubesse de
um escândalo conjugal que abalara a família.
A mãe de Russell teve um affair rumoroso com o preceptor
contratado para educar sua prole. A vida amorosa do filósofo
não foi melhor do ponto de vista moral. Ele se divorciou
três vezes, teve incontáveis amantes e Dora,
sua segunda mulher, chegou a engravidar de outro homem enquanto
os dois ainda estavam juntos. Com ela, Russell montou uma
escola alternativa para criar os filhos. Ele era um dos professores
e dava às crianças total liberdade. A experiência
pedagógica naufragou. Seu filho, John, era um menino-problema
e terminou esquizofrênico. Russell também chegou
a concorrer ao Parlamento inglês. A versão oficial
diz que sua principal bandeira política foi o pacifismo.
No entanto, segundo o biógrafo Monk, por trás
disso havia uma indisfarçável simpatia pelos
comunistas, que se revelou nas ocasiões em que evitou
bater de frente com Fidel Castro. No começo da década
de 60, quando da crise dos mísseis em Cuba, Russell
simplesmente se recusou a acreditar que as armas russas em
Cuba fossem nucleares. Já para denunciar os descaminhos
da política americana não tinha meias palavras.
Nos anos 60, nonagenário, combateu as atrocidades da
Guerra do Vietnã. Sem maio de 68 e sem Simone de Beauvoir,
Russell foi uma espécie de Jean-Paul Sartre britânico
que tentou realizar na vida pública o sonho de extrema
grandeza que planejara para sua filosofia. Não conseguiu
e o seu legado intelectual, matemáticas à parte,
é duvidoso. Tem lógica.
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Ele
tinha opinião para tudo
Sexo
e casamento
"Muito
poucos dentre os homens e mulheres que tiveram uma educação
convencional aprenderam a se sentir confortáveis
em relação ao sexo e ao casamento. Sua
educação lhes ensinou que insinceridade
e mentira são virtudes e que o sexo é
repugnante. Essa atitude tornou o casamento insatisfatório
e a não-satisfação dos instintos
resultou em crueldade mascarada de moralidade."
Pais
e filhos
"Não
há nenhum motivo especial para as crianças
respeitarem os pais mais do que os pais respeitam os
filhos. Exceto que, enquanto os filhos são jovens,
os pais são mais fortes do que eles. O mesmo
se dá na relação entre homens e
mulheres."
Matemática
"Para
aqueles que investigam os propósitos da matemática,
a resposta comum é que ela facilita a construção
de máquinas, ir de um lugar para o outro e a
vitória sobre países estrangeiros, seja
na guerra ou no comércio. A matemática,
porém, vista com justeza, possui não apenas
verdade, mas suprema beleza uma beleza fria e
austera, como só a grande arte pode mostrar."
Pecado
"Suponhamos
que as bombas atômicas reduziram a população
do mundo a um casal de irmãos. Deveriam eles
deixar desaparecer a raça humana? Eu não
sei a resposta, mas não penso que ela possa ser
afirmativa apenas porque o incesto é um pecado."
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