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Batalha perdida

Círculo de Fogo quer fazer justiça
à
participação russa na II Guerra.
Mas o tiro sai pela culatra

Isabela Boscov

 
A Batalha de Stalingrado, em 1942: o começo do fim para Hitler

As glórias de ingleses e de americanos durante a II Guerra já foram cantadas à exaustão pelo cinema e renderam ao menos um punhado de clássicos. Mas como ficam os russos nessa história? Para começar, nenhuma nação suportou baixas tão estarrecedoras quanto a União Soviética durante o conflito. Foram mais de 20 milhões de mortos, metade deles civis. Inglaterra e Estados Unidos contabilizaram, juntos, 800 000 mortos. Mais: foi em território soviético que Adolf Hitler começou de fato a perder a guerra. No que toca ao cinema ocidental, porém, a importância dos russos nesse cenário foi abafada pela Guerra Fria, que logo os restaurou ao papel de vilões que ocupavam desde a revolução comunista de 1917. Como mais esse episódio está encerrado, seria hora de fazer justiça. E, a princípio, esse até parece ser o objetivo de Círculo de Fogo (Enemy at the Gates, Inglaterra/Alemanha/Estados Unidos/Irlanda, 2001), que estréia nesta sexta-feira no país.

Dirigido pelo francês Jean-Jacques Annaud (de O Nome da Rosa e Sete Anos no Tibete), Círculo de Fogo trata do capítulo mais feroz e decisivo da campanha alemã na Rússia: a Batalha de Stalingrado. Em meados de 1941, Hitler rompeu seu pacto de não-agressão com o ditador Josef Stalin e avançou pelo território inimigo. Entre seus objetivos estava a cidade de Stalingrado, às margens do Rio Volga, importante centro industrial do país e caminho para grandes reservas petrolíferas cobiçadas pelos nazistas. Desde o início, a Alemanha topou com dois obstáculos: o implacável inverno russo, que já havia derrotado Napoleão 129 anos antes, e a determinação de Stalin, que atirava seus soldados para a morte com uma irresponsabilidade sem precedentes. Esse impasse culminou de forma dramática em Stalingrado (hoje Volgogrado). Em agosto de 1942, os alemães começaram a arrasar a cidade com bombas e tanques. Entrincheirados nas ruínas, os soviéticos lutaram por seu posto palmo a palmo e corpo a corpo durante seis longos meses, usando minas e franco-atiradores. Não tinham nada a perder. Se não fossem mortos pelos alemães, seriam executados por seus próprios oficiais, que cumpriam as ordens de Stalin de fuzilar no ato os "covardes". "Nem um passo para trás" era seu lema – atrás, bem entendido, estava o Rio Volga. Se essa barreira fosse rompida, a União Soviética estaria derrotada.

Quase todos esses fatos estão em Círculo de Fogo. Até seu protagonista, Vassili Zaitsev, existiu realmente – exímio atirador, abateu com seu rifle mais de duas centenas de oficiais nazistas. O filme, no entanto, não faz jus à importância do tema. Zaitsev é interpretado pelo inglês Jude Law (de O Talentoso Ripley), um bom ator. Logo de início, a platéia acompanha sua aterradora chegada a Stalingrado. Já na travessia do Volga seus companheiros são massacrados pelas balas disparadas dos aviões alemães. Mais alguns minutos de carnificina, em terra, e não sobra um russo vivo – exceto Zaitsev e o oficial político Danilov (Joseph Fiennes), que se impressiona com a pontaria miraculosa do camarada. Zaitsev é exatamente aquilo de que os russos precisam no momento: um exemplo. Com a anuência de Nikita Kruchev, conselheiro político da batalha (e, mais tarde, premiê soviético), a máquina de propaganda é incumbida de transformá-lo em herói do povo.

Não é de estranhar que os russos, desesperados, tirassem alguma esperança desse estratagema. Surpreendente é que também o diretor acredite no artifício. Tudo o que se refere a Zaitsev – a paixão dele e de Danilov pela mesma mulher, o prolongado duelo que protagoniza com um atirador alemão encarregado de caçá-lo – é tratado como acontecimento central para os rumos da batalha. Esta, por sua vez, fica relegada ao papel de coadjuvante. É um desserviço a todos os envolvidos: a essência da vitória em Stalingrado é o sacrifício de 1,1 milhão de russos, não o heroísmo de um único homem. A inversão de sinais seria perdoável se os personagens tivessem alguma riqueza e pudessem "falar" em nome de gente de carne e osso. O que ocorre é o contrário. Do burocrata covarde ao camponês valente e o alemão frio, nenhum estereótipo do gênero ficou de fora. Até o talento de Annaud para composições visuais belíssimas cai mal aqui, já que o diretor não consegue injetar nelas a emoção necessária. Seria de esperar que, ao final de Círculo de Fogo, a platéia estivesse muda de espanto diante das barbaridades vividas por russos e alemães. Mas, à parte a excelente seqüência do desembarque em Stalingrado, não há urgência ou terror no filme. Se ele tem um mérito, é colocar em melhor perspectiva a maturidade alcançada por Steven Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan, que fala de homens e guerra durante todos os seus 170 minutos, sem se apoiar em muletas românticas ou de outra espécie qualquer. Quanto à participação russa na II Guerra, o cinema continua a lhe dever um retrato à altura.

 

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