Não
atire o pau no gato
As
pequenas crueldades infantis são inevitáveis,
mas não devem ter a tolerância dos pais,
segundo os psicólogos
Maurício
Oliveira
Se você flagrar seu filho puxando o rabo do gato, estapeando
o focinho do cachorro, dando uns cascudos no irmão menor,
não se apavore a ponto de achar que está criando um
delinqüente em sua própria casa. De acordo com os psicólogos,
não há como evitar esses pequenos atos de crueldade,
corriqueiros até os 7 anos. "Todo bebê nasce com uma
dose de maldade que precisa ser aparada para não crescer
livremente", define o psiquiatra e psicólogo Haim Grunspun,
especializado em infância e ligado à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Assim, as crianças
passam por uma fase de perversidade durante seu desenvolvimento
e irão exercitá-la em graus variados. As crueldades
que praticam, entretanto, não podem ser comparadas às
dos adultos, porque elas não têm discernimento sobre
o que é certo e o que é errado. Esse comportamento
ocorre mais entre meninos, criados em geral com mais liberdade,
sem a mesma vigilância exercida sobre as meninas.
Na
educação dos filhos, entretanto, os pais devem deixar
claro que a crueldade nunca é tolerável nem
com os animais, nem com parentes e amigos, nem com empregados, nem
com garotos pobres ou mendigos. "Nenhum momento pode ser mais apropriado
para definir limites do que esses em que a criança expõe
sua perversidade", diz o neuropediatra Luiz Celso Vilanova, chefe
do setor de neurologia infantil da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp). É uma fase em que os filhos ficam o tempo
todo testando os limites impostos pelos pais. Situações
do gênero podem ser muito proveitosas para a formação
da criança e por isso não devem passar em branco
(confira no quadro).
Se o garoto sente de verdade que o pai ou a mãe não
aprovam as atitudes, tende a não repeti-las. É aí
que muitos adultos pecam, ao deixar de repreender. Há quem
relegue a responsabilidade à escola, o que certamente não
provoca o mesmo efeito, apesar de iniciativas bem-intencionadas.
Hoje, já existe até mesmo uma versão politicamente
correta para o clássico infantil Atirei o Pau no Gato
("Não atire o pau no gato/ Porque isso não se faz/
O gatinho é nosso amigo/ Nós devemos proteger os animais"),
difundida nas escolas.
Um
símbolo desse comportamento que beira o diabólico
é Angélica, a menina de 3 anos do desenho animado
americano Rugrats, exibido no Brasil pelo SBT com o nome
de Os Anjinhos e no original pelo canal a cabo Nickelodeon.
Típica filha única mimada, ela não hesita em
infernizar a vida alheia para se manter no centro das atenções.
Aproveitando-se do fato de ser a mais velha da turma, adora amedrontar
os colegas. Muito do sucesso do desenho, um dos mais populares do
momento tanto nos Estados Unidos como no Brasil, pode ser explicado
por um fato simples: a criançada se identifica com o jeito
de ser da loirinha de marias-chiquinhas. Espertas, as crianças
percebem quando têm espaço para deitar e rolar. Se
um dia judiam do gato na frente dos pais e ninguém diz nada,
acham que aquela etapa já está superada e podem partir
para um desafio maior quem sabe jogar o bichano do 7º
andar. "A diferença entre normalidade e patologia está
na gravidade e na freqüência dos atos. Se a criança
persiste na conduta, é sinal de que algo está errado
em casa", diz o especialista Luiz Celso Vilanova.
A
regra, entretanto, é a assimilação de um padrão
tolerável. Tanto assim que todo mundo tem uma história
do gênero para contar. O sambista carioca Dudu Nobre, por
exemplo, sempre colocava a culpa das artes que aprontava na irmã
mais nova e sentia um prazer sádico ao vê-la
apanhar pelo que não havia feito. Já o músico
e apresentador de TV João Gordo não apenas inventava
apelidos para todos os colegas como, aproveitando-se do porte avantajado,
chegava a extorquir dinheiro dos mais fracos na hora do recreio.
A musa das quadras de vôlei Leila Barros também fez
das suas apesar do rosto angelical vivia pegando no pé
de uma colega rica e gordinha, apelidando-a de "Baleia", "Rolha",
"Boneco de Neve" e outras designações do gênero.
A deputada federal Rita Camata lembra-se de que já foi capaz
de fazer picadinho da camisa de um colega da 1ª série
só porque ele riu de sua trança. E o escritor Luis
Fernando Verissimo teve experiências mais sutis, embora não
menos aguerridas: "Uma vez tentei provocar uma luta entre uma formiga
vermelha e uma preta, mas não consegui. Acho que elas eram
primas", conta.
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