A
conta não fecha
Leão quer saber por que 6 600 contribuintes
têm
diferença entre renda e conta bancária
Ana
d'Angelo, de Brasília
Ana Araujo
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| Everardo
Maciel, secretário da Receita: poder de fogo com novo arsenal |
A
Receita Federal está descobrindo um mundo novo. Em janeiro
passado, o Fisco ganhou o poder legal de cruzar as informações
entre o imposto de renda e os dados da CPMF, contribuição
que incide sobre a movimentação bancária. Ao
fazer o cruzamento, os fiscais vêm encontrando coisas do arco-da-velha.
Na semana passada, nada menos que 6.600 contribuintes estavam convocados
a dar explicações à Receita: são 4.200
pessoas físicas e 2.400 empresas. Em todos os casos apareceu
uma disparidade acentuada entre rendimento declarado e movimentação
bancária. Só para se ter uma idéia: os 6.600
contribuintes, juntos, movimentaram nos bancos a astronômica
bolada de 146 bilhões de reais em 1998. Mas, em suas declarações
de renda, aparecem como trabalhadores de baixa renda ou empresas
de fundo de quintal. Uma parte dos 6.600 nem se deu ao trabalho
de entregar a declaração do IR ao Leão.
A
maioria dos convocados fica em São Paulo, o que faz sentido,
pois o Estado concentra grande número de contribuintes. Mas
chama a atenção que, em segundo lugar, estejam contribuintes
do Amazonas e, logo em seguida, da Bahia (veja tabela ao lado).
"Na lista tem de tudo. São empresas de todos os setores
e contribuintes das mais diversas profissões, até
estudantes e secretárias movimentando milhões nas
contas", diz o secretário adjunto da Receita, Jorge Rachid.
Um dos convocados mora em Brasília, seu CPF é falso
número 999888777 , mas sua movimentação
bancária é um espanto: 23 milhões de reais
em 1998. Uma empresa de São Paulo, apesar de ter declarado
estar fora de operação em 1998 e sem nenhuma receita,
conseguiu movimentar 50 milhões de reais em sua conta bancária
mesmo assim. A Receita Federal sabe que, na maioria dos casos, está
tratando com "laranjas", gente que empresta o nome para abrir uma
conta no banco que movimentará dinheiro sujo.
Essa nova linha de investigação da Receita Federal
só foi possível depois que, em janeiro, entraram em
vigor duas leis. Uma permite que o secretário da Receita,
Everardo Maciel, cruze as informações da CPMF com
a renda declarada. A outra autoriza o Leão a quebrar o sigilo
bancário de contribuintes suspeitos sem ter de consultar
a Justiça. A Receita já descobriu, inclusive, as atividades
que apresentam as maiores disparidades entre renda e movimento bancário.
Em primeiríssimo lugar, aparecem grandes e médios
empresários, cuja movimentação bancária
chega a ser dez vezes maior que a renda. Em seguida, estão
os microempresários. Em terceiro lugar, médicos, dentistas,
advogados e farmacêuticos, com contas bancárias que
movimentam quantias até cinco vezes maiores que a renda
quando o normal é que a diferença não passe
de duas vezes.
Nem todo mundo está satisfeito com o poder de fogo do novo
arsenal da Receita Federal. Já existem hoje no Supremo Tribunal
Federal quatro ações contestando os poderes da Receita.
O PSL, um partido nanico, moveu duas ações
uma contra o uso dos dados da CPMF e outra contra a quebra de sigilo
bancário pela Receita sem a autorização judicial.
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) protesta
contra as duas coisas numa única ação. Por
fim, a Confederação Nacional da Indústria (CNI)
moveu uma ação apenas contra a quebra do sigilo bancário.
Em tese, as ações questionam se a Receita deve ter,
nos termos da Constituição, poderes para quebrar sigilo
sem manifestação anterior da Justiça ou mesmo
de usar dados sigilosos como os extraídos a partir da CPMF.
Mas, na prática, percebe-se que as ações propostas
por entidades do comércio e da indústria têm
sintonia perfeita com as categorias que mais aparentam diferenças
entre a renda e a conta bancária. Afinal, em primeiro lugar
na lista da Receita estão justamente os empresários
grandes, médios e micros.
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