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Marcha para o interior

Embora as capitais concentrem maior poder
de compra e um quarto da população brasileira,
empresas encontram meios de lucrar fora delas

Gisela Sekeff

 
Eduardo Queiroga/Ag. Lumiar
Loja O Boticário no interior de Pernambuco: instalações simples para cidades de até 30 000 habitantes

A cidade sertaneja de Santa Luzia, na Paraíba, só tem uma agência bancária. Em São José do Ouro, no Rio Grande do Sul, existe apenas uma rua asfaltada. A 250 quilômetros de Palmas, a cidade de Pedro Afonso tem três taxistas e nenhuma construção com mais de dois andares. Porto Trombetas, um povoado paraense situado no coração da Floresta Amazônica, é servido por apenas um supermercado. Além de muito pequenas, essas cidades guardam outro ponto em comum. Todas têm uma filial da perfumaria O Boticário. Com 2.000 lojas, a rede paranaense é uma das maiores franquias do país, presente em 1.260 cidades, cerca de 20% dos municípios brasileiros. Entre as empresas privadas é o caso mais bem-acabado de presença no interior: cerca de 80% de suas lojas têm clientela garantida em qualquer atalho do país. Os negócios envolvendo a marca resultam num faturamento de 1,1 bilhão de reais por ano. Mas o desbravamento dos recônditos brasileiros não é um feito isolado d'O Boticário. As concorrentes L'acqua di Fiori e Água de Cheiro, a sapataria Arezzo, a rede de lanchonetes Habib's, as casas lotéricas da Caixa Econômica e as estatais Correios e Banco do Brasil são evidências da marcha rumo ao interior.

 
Paulo Jares
Agência flutuante: os Correios têm mais de 12 000 postos em todo o país

O fenômeno tem raízes na geografia econômica brasileira. Cerca de 40% da população está situada nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, os mais ricos do país. A concentração de renda e conseqüentemente o aumento do poder de compra provocaram a convergência das empresas e era natural que, com o tempo, o mercado das capitais ficasse mais ou menos saturado. "O Sudeste absorveu boa parte dos investimentos. Agora, a corrida é por novas oportunidades e elas estão mesmo nos menores lugares", afirma Tadeu Masano, professor de geografia de mercado da Fundação Getúlio Vargas.

Uma pesquisa da Fundação Seade de São Paulo mostrou que entre 1995 e 1999 o número de estabelecimentos comerciais no interior do Estado cresceu cinco vezes mais que na capital. Enquanto os grandes centros se encontram no meio de um processo de empobrecimento, reduzindo, inclusive, sua participação porcentual na renda nacional, o interior está em evidência. Os mercados são pequenos, mas têm grande potencial de crescimento. Um levantamento da Fundação João Pinheiro, de Belo Horizonte, mostra que entre 1990 e 1997 a população do interior do Estado de Minas Gerais cresceu quase duas vezes mais que a da capital. Estima-se que a economia regional corresponda, no mínimo, a 30% da economia brasileira, o que daria algo em torno de 300 bilhões de reais.

Algumas grifes conhecidas, construídas longe das capitais, mostram a força do interior. A escola de inglês Number One só agora pretende intensificar sua presença nas capitais. No Rio de Janeiro e em São Paulo, todas as unidades estão plantadas em cidades pequenas. "Abrir negócios nas capitais exige investimento muito alto", afirma o gerente de expansão da escola, Carlos Eduardo Tristão. O caso do Magazine Luiza é ainda mais radical. Com 95 lojas espalhadas em quatro Estados brasileiros, a rede nunca saiu do interior. "Como a empresa faz um investimento muito alto em anúncios na televisão, só vale a pena entrar em praças onde a população vai ter acesso a eles", afirma o diretor comercial Eldo Moreno. Já que um anúncio no horário nobre de TV na capital paulista chega a ser dez vezes mais caro que em cidades como Ribeirão Preto, por exemplo, o Magazine Luiza prefere Ribeirão.

 

A marcha para o interior tem engrossado, nos últimos tempos, também por outras razões. A principal delas diz respeito às franquias. O sistema permite a expansão rápida dos negócios. Até o Banco do Brasil aderiu e, numa investida inédita, deve inaugurar, ainda neste semestre, sua primeira experiência no ramo. Comercializará seguros, cartão de crédito, títulos de capitalização, previdência privada e pacotes turísticos. As lojas de conveniências do banco estatal não aceitarão abertura de contas nem captação de poupança. Mas cuidarão de encaminhar os pedidos para as cidades onde existir agências.

 

Várias redes criaram no interior versões miniaturizadas de seus negócios. "Cidades muito pequenas não têm estrutura para arcar com uma loja tradicional", afirma Claudemir Barsalini, diretor comercial e de operações da Arezzo, maior cadeia de varejo de calçados da América do Sul. Desde que a Arezzo decidiu atacar cidades menores, com até 150.000 habitantes, sua rede quadriplicou e até o final do ano deverá somar 200 lojas franqueadas. O Habib's desenvolveu um modelo especial para cidades com menos de 200.000 habitantes em que o custo de implantação é 30% menor que o da loja tradicional. As perfumarias Água de Cheiro e L'acqua di Fiori também miniaturizaram suas lojas para se espalhar pelo país. Nos últimos dois anos, a Água de Cheiro abriu 150 lojas na versão compacta. A rede tem 85% dos estabelecimentos no interior.

 

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