Mais
alto e mais rápido
Na maior virada de sua história,
a Boeing
desiste da guerra pelos superjumbos e aposta
num avião quase tão veloz quanto o som
Reuters
 |
|
O
jato "sônico": duas
horas a menos
de vôo no
trecho São Paulo Paris
|
Depois
de perder para a concorrente européia Airbus a guerra
dos superjumbos, a Boeing vai tentar levar a disputa para
um campo mais elevado literalmente. Na última quinta-feira,
a empresa americana anunciou a construção de
uma nova família de jatos, com a qual pretende revolucionar
a aviação comercial. Com desenho em formato
de flecha, parecido com o do ônibus espacial, o novo
jato terá asas na parte traseira, onde estarão
embutidas duas enormes turbinas para impulsioná-lo
quase à velocidade do som. Será o avião
de passageiros mais rápido do mundo, depois do Concorde.
Uma viagem São Paulo Paris será feita em nove
horas, duas a menos que o tempo exigido hoje. Também
voará mais alto, a cerca de 14.000 metros, 3 quilômetros
acima dos jatos atuais. Com maior autonomia de vôo,
poderá ir daqui ao Japão sem fazer escala. Ou,
partindo do Rio de Janeiro, ir a Lisboa e voltar sem reabastecer.
Levará entre 100 e 300 passageiros, dependendo do modelo.
Para os milhões de passageiros que hoje têm de
enfrentar viagens longas e enfadonhas, é uma grande
novidade. Para a Boeing, é uma tentativa de sobreviver
aos tempos difíceis. No mundo dos negócios,
nada é tão dolorido para uma empresa quanto
perder a liderança em seu ramo de atuação.
É o que está acontecendo com a Boeing. No fim
do ano passado, pela primeira vez em três décadas,
a companhia foi superada pela européia Airbus no mercado
de superjatos. A Boeing ainda é a maior fabricante
mundial de aviões comerciais, mas perde para a concorrente
nas vendas antecipadas, para entrega nos próximos anos.
Resultado: nas últimas semanas, a gigante americana
iniciou uma guinada radical em seus planos.
AP/Barry Sweet
 |
|
Sede
da Boeing em Seattle:
mudança sinaliza
que fazer aviões
deixará de ser
o maior negócio
|
A
primeira mexida, de caráter mais simbólico que
prático, é a mudança de sua sede mundial,
Seattle, para outra cidade americana ainda a ser definida.
A fabricação de aviões, que hoje responde
por 61% de seu faturamento, deixará de ser a principal
atividade da empresa. A Boeing pretende manter-se como concorrente
de peso nesse mercado, mas sua nova prioridade são
os negócios ligados à área espacial,
como a fabricação de satélites, foguetes
e canhões de raios laser para defesa contra mísseis.
A companhia também quer oferecer internet de alta velocidade
aos passageiros dos jatos comerciais e um novo sistema de
controle de tráfego aéreo que permitirá
identificar, por satélite, a posição
de cada um dos aviões em vôo ao redor do planeta
(veja quadro).
A decisão de mudar a sede da empresa é exemplar
nessa guinada. Seattle, a cidade que abrigou a Boeing nos
últimos 85 anos, é um dos lugares mais ricos
e agradáveis para viver nos Estados Unidos. Devido
às boas escolas e à ótima infra-estrutura,
ali estão, entre outras grandes companhias, a Microsoft
e a Amazon.com. Apesar disso, a Boeing está indo embora.
E, ao contrário do que acontece no Brasil, o motivo
não é uma guerra fiscal entre os Estados americanos.
A empresa está à procura de uma nova sede porque
pretende mostrar ao público e aos acionistas que sua
unidade de aviões não será mais o carro-chefe
da empresa. A fábrica de aviões, com seus 78.000
empregados, continuará em Seattle, mas o quartel-general
será em outro lugar provavelmente Chicago, Denver
ou Dallas. "Temos de reinventar nossa maneira de fazer negócios",
anunciou o presidente da empresa, Phil Condit.
Tempos
difíceis A Boeing está tentando adaptar-se
aos tempos difíceis porque sua participação
no mercado mundial de aviões continua diminuindo. Uma
das razões é o novo projeto da concorrente Airbus,
o A380, um mastodonte de 555 lugares, o maior avião
de passageiros já fabricado até hoje. Com o
novo modelo, a Airbus obteve 66 encomendas adiantadas, antes
mesmo que a primeira unidade saísse da fábrica.
A Boeing tentou reagir anunciando uma versão mais robusta
do seu 747, para 525 passageiros. Teve de desistir porque,
passados seis meses, não apareceu uma única
encomenda. Pior: como a competição nesse mercado
é muito grande, a lucratividade também caiu
e os acionistas estão exigindo que a empresa entre
em negócios que lhes dêem maior retorno.
Batizado provisoriamente de "Cruzador Sônico" e ainda
sem prazo para sair das pranchetas, o novo superjato anunciado
na semana passada voará a Mach .95, marca pouco inferior
à velocidade do som (que viaja a Mach 1). Isso significa
cerca de 1.100 quilômetros por hora, algo entre 15%
e 20% mais rápido que os atuais jatos comerciais. Outra
vantagem é que, voando a uma altitude mais elevada,
a 15 quilômetros do nível do mar, o novo avião
será mais silencioso, enfrentará menos turbulências
e poderá escapar das atuais rotas comerciais, cada
vez mais congestionadas em todas as regiões do mundo.
"Este é o avião que os nossos clientes vinham
nos pedindo", afirma Alan Mulally, presidente executivo da
área comercial da Boeing.
Na prática, a aposta não é tão
segura quanto parece. A Airbus decidiu investir em aviões
gigantes, capazes de transportar um número cada vez
maior de passageiros, de modo a reduzir o custo por viagem
das companhias aéreas e, conseqüentemente, das
passagens. A Boeing mirou na pressa e no conforto dos passageiros.
Seu novo avião levará um número menor
de pessoas, mas a um preço provavelmente maior que
o do jato convencional. Resta saber o que os passageiros vão
preferir: chegar mais rápido ao destino ou pagar menos
pela passagem.
|