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Uma jóia rara

Igreja de São Francisco da Penitência, um
dos símbolos do barroco brasileiro, é reaberta
depois de doze anos de abandono

Lucila Soares


Clique nas imagens para ampliá-las

Fotos Claudia Laborne
O Convento de Santo Antônio e a Igreja de São Francisco da Penitência: conjunto harmônico


O barroco brasileiro produziu alguns dos mais imponentes conjuntos arquitetônicos do mundo. Ouro Preto, Congonhas do Campo e o centro histórico de Salvador fazem parte de uma lista de maravilhas que deixam boquiabertos todos os especialistas em história da arte. Mas é por trás de uma fachada carioca sem nenhuma notoriedade que se esconde um dos maiores tesouros do barroco tropical. A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no centro do Rio de Janeiro, é um requintadíssimo exemplar do luxo e da dramaticidade que são a marca da arte dos séculos XVII e XVIII. Depois de doze anos abandonada à umidade e aos cupins, ela será reinaugurada na próxima sexta-feira, depois de um trabalho minucioso de restauração. Volta-se a ver assim como eram originalmente as obras de três dos mais importantes artistas portugueses da época: o entalhador Manuel de Brito, o mestre escultor Francisco Xavier de Brito – que depois influenciaria o trabalho de Aleijadinho em Minas Gerais – e o pintor Caetano da Costa Coelho.

O que torna a Igreja de São Francisco da Penitência uma preciosidade é o pioneirismo. O Rio de Janeiro era uma jovem cidade de menos de 100 anos em 1657, quando a Ordem Terceira de São Francisco, braço leigo (e rico) da ordem do santo de Assis, iniciou a construção de uma capela anexa ao Convento de Santo Antônio. A sofisticação da igreja e das imagens foge ao padrão brasileiro da época. "Mesmo em relação a Lisboa é uma igreja precoce. E em muitos aspectos antecipa o barroco mineiro", diz a arquiteta Claudia Storino, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que coordenou o trabalho de restauração. Também chama a atenção a unidade de estilo, rara para uma época em que as igrejas levavam muito tempo para ser construídas e iam tendo o projeto modificado durante a obra.

Basta entrar na igreja para ter a noção do tamanho da empreitada que a restauração significou. Todas as paredes são revestidas de talha de madeira dourada e estavam tão sujas que era impossível apreciar devidamente os detalhes de flores e anjos. O altar-mor, dominado por um impressionante Cristo alado – representação do sonho de São Francisco de libertá-lo do sofrimento da cruz –, ameaçava ruir. O teto, que retrata a ascensão do santo padroeiro da ordem, é pintado em perspectiva, técnica já comum no barroco italiano mas nunca utilizada antes no Brasil. Estava coberto de uma crosta de sujeira que tirava boa parte do impacto visual da obra, dramática no jogo de luz e sombra. Isso sem falar nos problemas estruturais que ameaçavam a integridade física do edifício. Só de telhado foram substituídos 3.000 metros quadrados.

O trabalho de recuperação levou dois anos e envolveu uma equipe que chegou a ter 120 pessoas. Até tomografia computadorizada foi usada em algumas imagens, para detectar o que estaria por baixo das camadas de tinta que escondiam a pintura original. No caso da Nossa Senhora da Conceição, que veio de Portugal, descobriu-se sob um inexpressivo manto azul um precioso brocado esculpido, com detalhes de ouro. Mas a maior parte dos achados deve ser creditada ao trabalho de chinês dos técnicos. Munidos de bisturis cirúrgicos, espátulas de dentista, lixas e solventes, eles encontraram no altar principal e nos das laterais uma belíssima pintura marmorizada azul escondida sob camadas de dourado. Descobriram também que o Senhor Morto da igreja era, na verdade, um Cristo crucificado adaptado. A imagem tivera os braços quebrados e os olhos fechados com massa para cumprir a nova função.

A restauração custou 3,5 milhões de reais, financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com recursos da Lei Rouanet. O trabalho não acabou. As próximas etapas incluem a recuperação das duas capelas laterais e da casa do administrador, além da instalação de um museu de arte sacra. A idéia é dar autonomia financeira ao conjunto, que vai abrigar oficinas de arte e será aberto para casamentos e recepções. A recuperação física do passado de um país e sua manutenção em estado apresentável são uma lição sabida de cor nos países com tradição de zelo pela própria História. O Brasil parece estar aprendendo.

 

Por trás de uma fachada austera, o barroco explode com toda a força no dourado da talha de madeira que reveste a nave, nas imagens do altar principal, na iluminação natural que realça o claro-escuro das paredes e do teto e também em detalhes descobertos ao longo do minucioso trabalho de restauração: acima à esquerda, a pintura marmorizada em azul do altar e, à direita, a delicadeza da decoração do balaústre, que reproduz o desenho do chão



São Francisco da Penitência abriga um conjunto precioso de obras que a torna um exemplar precoce da arte do período barroco até para os padrões da metrópole, Lisboa, dos séculos XVII e XVIII. Acima à direita, a imagem de Nossa Senhora da Conceição do altar principal, livre das inúmeras camadas de pintura que esconderam durante anos suas cores originais e o delicado trabalho da roupa, como o brocado de seu manto, talhado na madeira e com detalhes de ouro. No alto à direita, o teto executado em perspectiva pelo pintor português Caetano da Costa Coelho, num magistral trabalho de luz e sombra que mostra a ascensão do santo padroeiro da igreja e foi pioneiro no Brasil. No alto à esquerda, a face atormentada do Cristo alado que domina a cena do sonho de São Francisco de libertá-lo do sofrimento da cruz. E, acima à esquerda, o detalhe dos anjos dourados que enfeitam os balcões laterais da igreja

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