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O país que vendeu
o DNA de seu povo

A Islândia cede a uma empresa privada
o direito de pesquisar dados genéticos
da população

Elcio Ramalho, de Reykjavik

 
Elcio Ramalho
Elcio Ramalh
O brasileiro Luiz Gustavo , pesquisador da deCode, e a islandesa Sigurbjörn: genes no mercado

Isolada a meio caminho entre a Europa e a América do Norte, com temperaturas árticas durante a maior parte do ano, a Islândia é conhecida por suas excentricidades, como vulcões ativos, geleiras eternas e a economia baseada na exportação de bacalhau e camarão. Há agora uma nova peculiaridade: o governo islandês vendeu a uma empresa de biotecnologia, a deCode Genetics, o direito de pesquisar o código genético e os dados médicos de toda a população da ilha. A deCode pretende vender o resultado dos estudos às grandes companhias farmacêuticas, para ser usados no desenvolvimento de remédios para doenças genéticas. O governo vai receber 11 milhões de dólares e participação nos lucros pelos próximos doze anos. O primeiro contrato já foi fechado com o megalaboratório suíço Hoffmann-La Roche. Os suíços pagarão 200 milhões de dólares e, em troca, a deCode tentará encontrar no DNA dos islandeses os genes responsáveis por uma dúzia de doenças graves.

A Islândia se tornará um país cobaia por causa das condições únicas. São apenas 280.000 habitantes, todos descendentes de vikings que colonizaram a ilha há mais de 1.000 anos. O isolamento fez com que o código genético da população apresentasse pouca variação, o que torna mais fácil identificar genes alterados por mutações naturais que possam causar doenças. Ajuda bastante a mania islandesa de traçar árvores genealógicas. As igrejas guardam informações sobre 650.000 moradores – um assombro, visto que o total de pessoas que viveram na ilha nos últimos doze séculos não chega a 1 milhão. Para completar, desde 1915 o serviço público de saúde arquiva dados de todos os habitantes do país. "Aqui é mais fácil encontrar as variações genéticas que levam a doenças", diz o islandês Kari Stefansson, fundador da deCode.

O carioca Luiz Gustavo de Camargo, 24 anos, engenheiro formado em Boston, é um dos quatro empregados sul-americanos da empresa. Seus dados genéticos, apesar de ele ser estrangeiro, também foram incluídos no pacote da deCode. A transação é amparada numa lei específica. Tudo que cada cidadão precisa fazer é doar um pouco de sangue. Em troca, receberá de graça qualquer medicamento que venha a ser desenvolvido. Menos de 7% dos islandeses preferiram ficar de fora do negócio. É o caso de Sigurbjörn Armanndsdottir, de 51 anos, doente de esclerose múltipla. "Eu não quero expor meus problemas para uma empresa com interesses comerciais", disse a VEJA. "Quem me garante que no futuro eles não vão prejudicar minha família com essas informações?"

 
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Dos arquivos de VEJA
  Reportagem publicada 21/02/2001 sobre as conclusões do Projeto Genoma Humano

 

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