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O Napster era fichinha

Os sites que distribuem música se propagam rapidamente e deixam as gravadoras atônitas

Luís Fernando Tinoco


Ilustração Kipper

Na mitologia grega, um dos mais difíceis trabalhos do herói Hércules foi enfrentar a Hidra de Lerna, o monstro de nove cabeças. A cada cabeça que Hércules decepava, o monstrengo gerava outras duas. Na era da internet, a Hidra tem o formato de música digital. Quanto mais a indústria fonográfica luta para evitar que milhões de internautas troquem arquivos musicais ilegalmente, mais sites aparecem para facilitar a prática, sem pagar um centavo a gravadoras, produtoras e artistas. Um rápido passeio pela rede mostra dezenas de endereços de troca gratuita de músicas.

Numa tentativa de derrotar o monstro digital, as gravadoras atacaram primeiro a sua cabeça mais visível e poderosa, o Napster, dono de um cadastro de 57 milhões de usuários em todo o mundo. Em fevereiro, a Justiça americana obrigou o Napster a bloquear a transferência das obras protegidas por direitos autorais. O site obedeceu à ordem. Resultado: a audiência caiu de 1,5 milhão de usuários para 1,1 milhão durante a segunda semana de março. Ainda assim, a pirataria de músicas pela rede não vai acabar tão facilmente.

Serviços alternativos surgem a cada instante oferecendo de graça o que custa dinheiro na loja. Uma das opções mais famosas é a rede Gnutella, que permite consultas diretamente nos computadores dos usuários. Se um internauta de Curitiba, por exemplo, entra num dos sites Gnutella em busca de uma música dos Beatles, o sistema é capaz de lhe transferir uma composição dos rapazes de Liverpool arquivada em um computador na Malásia. A operação não requer um servidor central com a lista dos arquivos copiáveis, como no Napster. Isso quase inviabiliza uma ordem judicial de bloqueio das transferências – a menos que um juiz pudesse mandar apreender milhões de computadores espalhados pelo planeta. Além de músicas, o sistema troca vídeos, softwares, imagens e outros arquivos mais pesados, uma prática que só não é mais usada por causa da lentidão da internet.

Fora o Gnutella, outros clones do Napster se multiplicam. Um dos mais procurados é o iMesh, que também permite copiar todo tipo de arquivo. O site OpenNap ajudou a alimentar a pirataria ao criar um servidor paralelo ao do Napster. Isso abriu caminho para o nascimento de mais de cinqüenta cópias quase idênticas ao original americano. Uma delas é o Rapster, versão para Macintosh criada por brasileiros. Sistemas de troca de arquivos mais enxutos também surgiram. O AudioGalaxy funciona em computadores de baixo desempenho. O Aimster trabalha integrado ao software de comunicação instantânea AOL Instant Messenger. Grandes empresas também resolveram entrar na dança. A loja virtual Amazon.com fez acordos com bandas de rock internacional e oferece download gratuito e autorizado de algumas faixas dos discos que vende.

Prevendo o risco de não conseguir vencer a fera, a indústria fonográfica pensa em domesticá-la. A gravadora BMG fez um acordo com o Napster para transformá-lo em site pago a partir de julho. A Warner planeja lançar um sistema semelhante. Outras grandes, como EMI, Universal e Sony, apostam no streaming, uma espécie de rádio em que o usuário ouve a música pelo computador sem copiá-la.

Segundo o instituto Jupiter Media Metrix, a venda mundial de música via download pela internet vai saltar de 45 milhões de dólares em 2001 para 1,5 bilhão em 2005. Mas quem vê a rede hoje, apinhada de sites que permitem copiar música de graça, duvida que o monstro possa ser abatido tão cedo.

 
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Reportagem, publicada em 28/02/2001, sobre o acordo entre o Napster e as gravadoras

 

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