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Com o mesmo rosto de antes

Corpo de João XXIII está intacto, mas
o Vaticano não quer falar em milagre

Um corpo que não se decompõe após a morte é uma das evidências que o Vaticano costuma considerar como milagre nos processos de canonização. Foi assim com Santa Bernadete, no começo do século XX, e com São Francisco Xavier, 270 anos antes. Na semana passada, o cardeal Virgilio Noè revelou que, decorridos 38 anos da morte do papa João XXIII, seu corpo, exumado em janeiro, se encontra praticamente intacto. O papa que dirigiu a Igreja entre 1958 e 1963 foi beatificado em 2000, num último passo para a canonização. A preservação do corpo, se considerada como um milagre, apressaria a santificação. Mas a mesma Igreja que em tantos outros casos mantém o clima de mistério quanto à incorruptibilidade dos corpos, desta vez deu sinais de que pretende tratar o fenômeno pelo ponto de vista da ciência. Dom Noè, arcebispo da Basílica de São Pedro, afirmou que o cadáver deve ter sido conservado pelo formol aplicado logo após a morte, na preparação para as cerimônias fúnebres. Também ajudou o fato de o corpo ter sido sepultado numa urna com vários revestimentos – um de cipreste e outro de carvalho, ambos recobertos por um invólucro de chumbo.

"Alguns quiseram ver nisso um sinal de Deus", disse o cardeal. "Mas esse fenômeno sozinho não pode ser considerado um milagre." A superposição dos revestimentos dificultou a entrada de oxigênio na urna e a troca de umidade com o meio externo. Isso reduziu a proliferação de bactérias responsáveis pela decomposição. O papa João Paulo II tinha determinado a transferência dos restos mortais de João XXIII de uma tumba distante para outra mais próxima do altar da basílica. Agora, com a descoberta, decidiu-se submeter o corpo a um novo tratamento químico para exibi-lo aos fiéis. Corpos de papas recebem cuidados especiais desde 1590 – por deferência à autoridade que exerceram e para que resistam ao período de exibição pública após o falecimento.

 

Santa Bernadete: neste caso, a Igreja considerou que houve um milagre

Mais que o banho de formol, outros métodos de preservação, como o embalsamamento, são dominados por ordens religiosas há séculos. Os capuchinhos de Palermo, por exemplo, prestaram serviços de mumificação à elite siciliana durante mais de 300 anos. Nas catacumbas do convento dos franciscanos há ainda hoje 6.000 múmias produzidas com a aplicação de arsênico. Muitos dos corpos dos santos venerados pelos católicos apresentam sinais e características de preservação compatíveis com processos semelhantes. "Não se faz segredo de que ocorre embalsamamento dentro da Igreja", diz o padre Zeno Hastenteufel, especialista em história do Vaticano e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Na Igreja, os casos de corpos incorruptos eram exibidos como um sinal de pureza da alma. O Vaticano agora está mais cuidadoso. Faz bem. Em Moscou, o ex-chefão Lenin está embalsamado e perfeito há mais de setenta anos em sua urna de cristal na Praça Vermelha. Em Pequim, o camarada Mao Tsé-tung também descansa sob o vidro, à vista das multidões. Podem ter sido guias geniais dos povos. Mas de santo não tinham nada.

 

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