O dia dos caçadores
Câmara
dos Lordes abate a lei de Blair
que pretendia salvar as raposas
Acabar
com os parlamentares hereditários da Câmara dos Lordes
e com a caça à raposa, uma tradicional diversão
da nobreza. Essas eram duas das mais vistosas promessas de campanha
do atual primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que assumiu
o cargo em 1997. No Parlamento, o político trabalhista conseguiu
uma vitória parcial, com a anulação dos mandatos
dos nobres que haviam herdado a vaga na Casa dos Lordes uma
espécie de Senado em que os representantes não são
escolhidos pelo voto. De 751 lordes hereditários, só
92 continuaram na Câmara. Nada mudou para os lordes vitalícios,
indicados pela rainha. Com a caça à raposa, porém,
Blair está longe de ter o mesmo sucesso. A principal barreira
é justamente o apego dos lordes à tradição.
Na semana passada, eles derrubaram por ampla maioria 317
a 68 o projeto que pretendia proibir o esporte. A lei havia
sido aprovada em janeiro pela Câmara dos Comuns esta,
sim, eleita pelo voto popular.
A
nobreza está perdendo espaço, mas não quer
perder a pose num país cuja importância econômica
se reduziu drasticamente desde os tempos em que era um império
sobre o qual o sol não se punha. A Inglaterra é um
país de economia fortíssima, mas relativamente ao
que foi não passa de uma sombra. Das antigas tradições,
restam a rainha, a troca da guarda no palácio, o chá
das 5 e as caçadas. Toda a população ainda
se distrai com a corte, os guardas e o chá que representa
40% de tudo que se bebe na Inglaterra , mas quatro quintos
dos ingleses estão solidários com as raposas, contra
os caçadores.
A
temporada de caça começa em novembro e obedece a um
ritual minucioso. É obrigatório o uso de casaco, bota
e casquete de montaria. Dezenas de cães farejadores acompanham
a tropa, atiçados por gritos e cornetas. O faro os leva às
raposas, dando início à perseguição.
Mais de 200 matilhas estão registradas nos órgãos
competentes. São mortas por ano em torno de 25.000
raposas, de um total de 217 000 existentes no país. Os fazendeiros
defendem a matança porque elas atacam os rebanhos de ovelha
e os galinheiros. Os ecologistas são contra a caça
porque consideram uma crueldade um grupo de pessoas, cavalos e cães
perseguir e matar um animalzinho pouco maior que um gato. A Universidade
de Birmingham pesquisou o assunto e descreve casos em que um dos
cães segura a presa pela perna ou pelo rabo enquanto outros
mordem seu corpo até atingir órgãos como coração,
pulmões e intestinos. Os lordes afirmam que a manutenção
da caça preserva 8.000 empregos
diretos, num país que tem 59 milhões de habitantes.
É a Inglaterra, um país cujo passado se recusa a morrer.
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