Prefeito muito
doido
Com
atos teatrais, Mockus põe
ordem na prefeitura e diminui
a violência em Bogotá

Raul
Juste Lores, de Bogotá
Nem
Rudolph Giuliani, vestido de drag queen numa festa a fantasia em
Nova York, nem Cesar Maia, com seus factóides. O prefeito
mais excêntrico do continente é Antanas Mockus, de
Bogotá. A cidade de 7,5 milhões de habitantes já
se acostumou com suas brincadeiras. Casou-se (pela terceira vez)
em um circo, montado num elefante. Já se fantasiou de Super-Homem
e de Grilo Falante ("o grilo da boa consciência de cada um")
ao promover campanhas educativas. Também posou nu, imitando
O Pensador, para uma revista. Eleito pela segunda vez no final do
ano passado com quase 40% dos votos, comemorou o Dia Internacional
da Mulher proibindo os homens de sair à rua numa sexta-feira.
Nas praças públicas, várias atividades, shows
musicais e até números de strippers animaram a Noite
das Mulheres. A cidade, que costuma registrar entre cinco e dez
homicídios nas noites de sexta-feira, não teve um
só naquele dia.
AFP
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Hernán Diaz
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AP
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| Mockus
de Super-Homem, posando de O Pensador e casando no circo: ordem
nas contas municipais |
Com
programas assim, Mockus ganhou respeito e popularidade (tem quase
80% de aprovação, muito mais que os 30% do presidente
Andrés Pastrana). Em um país dominado pela violência,
com as mais altas taxas de homicídios e seqüestros do
mundo, Bogotá começa a gerar notícias positivas.
Em seu primeiro mandato como prefeito (1995-1997), ele instituiu
a polêmica Lei Cenoura. "Cenouras" são as pessoas certinhas,
comportadas, na gíria local. Mockus determinou que todos
os bares e discotecas da cidade deixassem de vender bebidas alcoólicas
a partir da 1 da manhã. Apertou a fiscalização
(e as punições) para quem as vendesse a menores de
idade e promoveu uma campanha de desarmamento da população.
Em Bogotá, o número de assassinatos por grupo de 100
000 habitantes caiu de setenta em 1995 para 39 em 2000. Cali, a
segunda maior cidade colombiana, teve 102. Mockus contratou atores
e mímicos para intervir no trânsito, chorando e brigando
com motoristas que desrespeitassem os sinais. Distribuiu milhares
de cartões vermelhos para que os motoristas pudessem acusar
a infração alheia sem violência. "O cartão
vermelho substituiu os xingamentos, e, às vezes, muitos tiros",
explica.
Filho
de lituanos que fugiram da União Soviética, ele estudou
matemática e filosofia na França e foi reitor da Universidade
Nacional da Colômbia. Numa ocasião, para disciplinar
uma platéia estudantil durante um protesto, abaixou as calças
e, nu, conseguiu o silêncio dos estudantes. Perdeu o cargo,
mas logo chegou à prefeitura de Bogotá à frente
do pequeno Partido Visionário, que fundou. É o segundo
cargo mais importante do país, depois da Presidência
da República. Com 17% da população colombiana,
Bogotá produz 35% do PIB nacional. O prefeito é, pode-se
dizer, um populista esclarecido. "Sei que corro o risco de cair
no ridículo, mas minhas atitudes fazem parte de uma pedagogia
cidadã, as pessoas acabam dando mais atenção
ao que eu proponho", disse Mockus a VEJA. "Ele é muito popular
justamente porque é muito diferente dos políticos
tradicionais. Tem uma relação lúdica com o
povo", teoriza Miguel Silva, diretor da revista Gatopardo, uma
das mais importantes da Colômbia. Não há
nada de risível no modo com que pôs ordem na administração
municipal. Mockus aumentou impostos, fez crescer a arrecadação
e está implementando um ajuste fiscal nas contas da prefeitura,
com demissões e reestruturação de várias
instituições. Os moradores de Bogotá aplaudem.
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