Olho por olho,
dente por dente
Política
de retaliações torna ainda mais violento
o conflito entre palestinos e israelenses
Reuters
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| A
menina Shalhevet, de 10 meses, morta com tiro na cabeça. Na
foto, com seus pais, em Hebron |
As dimensões do pesadelo em que estão metidos israelenses
e palestinos podem ser medidas por um crime terrível, cometido
na segunda-feira passada. Com mira de raio laser, que torna a pontaria
virtualmente infalível, um franco-atirador palestino matou
com um tiro na cabeça um bebê israelense de 10 meses,
Shalhevet Pass, que repousava no carrinho, ao lado do pai, alvejado
em seguida. Ele sobreviveu com duas balas no corpo. O assassinato
foi cometido em Hebron, cidade onde um pequeno enclave de 500 ultranacionalistas
judeus teima em viver entre 120.000 palestinos.
Em seguida, a milícia fundamentalista Hamas e o grupo terrorista
Jihad Islâmica explodiram três bombas em diferentes
partes de Israel, matando dois adolescentes judeus e ferindo mais
de cinqüenta pessoas.
Os
israelenses entraram em pânico. Diante da pressão de
seus compatriotas, Ariel Sharon ordenou a primeira ação
militar desde que assumiu como primeiro-ministro, no mês passado.
Na noite de quarta-feira, helicópteros bombardearam cinco
prédios usados pelo aparato de segurança do líder
palestino Yasser Arafat, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
Como os palestinos foram avisados dos ataques com antecedência,
apenas duas pessoas morreram. Mas estilhaços atingiram a
casa à beira-mar de Arafat, localizada a apenas 100 metros
de um dos prédios destruídos. "Os dias de contenção
estão terminados", anunciou Sharon. Desde que assumiu, ele
vinha resistindo à pressão para "fazer alguma coisa"
para refrear a Intifada, a revolta palestina nos territórios
ocupados, iniciada em setembro. A retaliação da semana
passada serviu sobretudo para acalmar o público interno.
Do ponto de vista da segurança, o efeito pode ser o inverso,
injetando ainda maior determinação na militância
palestina.
AP
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AFP
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| Destroços
de um carro-bomba que explodiu em Jerusalém e a resposta de
Israel bombardeando o quartel-general da Força 17, a guarda
pessoal de Arafat, em Gaza. Cada ataque é respondido com uma
ação ainda mais violenta, e o conflito entre judeus e árabes
fica cada vez mais longe de uma solução |
O resultado
imediato foi uma substancial escalada retórica, com ambos
os lados fazendo ameaças de guerra total, e mais mortos palestinos,
abatidos pelas tropas israelenses em manifestações
nos territórios árabes ocupados desde 1967. A paz,
que palestinos e israelenses negociam há sete anos, raras
vezes pareceu mais distante. Apesar de eleito com a promessa de
levar segurança a qualquer custo aos israelenses, Sharon
vive um delicado jogo de equilíbrio de poder com Arafat e
pouco pode fazer de concreto para evitar os atentados, exceto pressionar
as autoridades palestinas para que contenham seus radicais. Uma
das formas de evitar os ataques suicidas de palestinos dentro de
seu território é isolar as cidades palestinas e limitar
a circulação de veículos entre elas. Até
agora, o principal fruto dessa política foi levar a economia
desses locais para o fundo do poço, deixando a Autoridade
Palestina, dirigida por Arafat, de mãos atadas, incapaz de
fornecer serviços básicos e funcionar como governo.
Esse vácuo de poder está sendo preenchido perigosamente
pelos grupos fundamentalistas, principalmente o Hamas e a Jihad
Islâmica. Arafat também já perdeu os amigos
judeus que tinha depois que a onda de violência levou a esquerda
israelense para o lado de Sharon.
A
irritação dos palestinos é resultado da frustração
em não conseguir fundar uma pátria. Israel ocupou
há 34 anos a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, onde vivem
3 milhões de palestinos. De lá para cá, 150.000
colonos judeus instalaram-se nos territórios ocupados. Em
1993, os dois lados concordaram em negociar o fim da ocupação.
Mas desde que Arafat recusou os termos de um acordo oferecido pelo
primeiro-ministro que antecedeu a Sharon, no ano passado, palestinos
e israelenses pouco têm a dizer uns aos outros. O problema
é piorado pela proximidade física, com as duas populações
vivendo à distância de uma pedrada uma da outra. A
lei que passou a valer na região é a do olho por olho,
dente por dente, com contornos de rixa tribal.
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