Risco de contágio
Presidentes
se encontram em Washington enquanto as crises dos EUA e da Argentina
ainda preocupam
AFP

Fernando
Henrique e Bush, na Casa Branca: olhos nos olhos |
Depois do primeiro encontro entre Fernando Henrique Cardoso e George
W. Bush, realizado na semana passada na Casa Branca, em Washington,
a questão comercial que divide Brasil e Estados Unidos continuou
intocada. O presidente Bush sonha em acelerar o processo de integração
do continente americano sob a égide da Alca. O presidente
brasileiro quer ver o Brasil firmar sua liderança política
e econômica no Mercosul antes de construir a ponte comercial
entre os Estados Unidos e a América Latina. "Como prometi
ontem, vou tirar meus óculos porque o senhor disse que gostaria
de olhar diretamente nos meus olhos", disse Fernando Henrique a
Bush na breve entrevista que se seguiu ao encontro privado. Houve
risadas de parte a parte, e Fernando Henrique efetivamente tirou
e recolocou rapidamente os óculos. Ninguém arredou
pé de sua posição inicial. Como é de
praxe nesses encontros, Fernando Henrique e Bush ficaram de se empenhar
pessoalmente no trabalho diplomático que vem sendo feito
para amaciar as convicções de cada um dos lados. Ambos
terão tempo para cuidar disso.
Para
o Brasil, as questões mais urgentes que dizem respeito aos
Estados Unidos e ao Mercosul são de outra ordem. O Brasil,
que vive um raro período de graça em sua economia,
torce para não ser contagiado pela desaceleração
americana e pelo aprofundamento do enigma da vizinha Argentina.
Depois de semanas de sinais desalentadores, tanto os Estados Unidos
quanto a Argentina deram uma pequena trégua na semana passada.
Dos Estados Unidos veio a boa notícia de que a renda das
pessoas não caiu apesar da queda dos demais indicadores da
economia. E a confiança dos consumidores, que estava abalada,
melhorou um pouco. Saltou 8 pontos, revertendo toda a queda verificada
em fevereiro. As bolsas oscilaram loucamente, mas terminaram a semana
em relativa calma. Do lado argentino, a aprovação
parcial, pelo Congresso, do pedido de poderes especiais para o ministro
da Economia, Domingo Cavallo, brecou o processo de desintegração
do país vizinho. Bastou a trégua para que o otimismo
prevalecesse no Brasil. "A esta altura dos acontecimentos, o Brasil
pode até ser beneficiado pela má situação
da Argentina. Existe a possibilidade de que os investidores prefiram
o Brasil a outros países emergentes no momento de decidir
onde aplicar seu dinheiro", diz Marcelo Lara Resende, economista
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
AFP

O
ministro Cavallo: luta para que a Argentina saia do buraco |
De fato, o Brasil, hoje, apresenta um cenário estável
e saudável quando comparado a outras economias de porte semelhante.
O otimismo se justifica no curto prazo. Quando se olha mais longe,
a situação não é tão cristalina.
A crise americana pode não ter chegado ainda a seu pior momento.
Se o desaquecimento da maior economia do planeta for mais profundo
e se prolongar ainda por muito tempo, as conseqüências
para o país podem ser mais duras. Na semana passada, o Banco
Central refez os cálculos de quanto dinheiro estrangeiro
entrará no Brasil até o fim do ano. Dos 24 bilhões
de dólares que se acreditavam certos, o BC acha melhor não
esperar mais que 21,6 bilhões, em razão das incertezas
no mercado externo. Ainda é um valor alto. Mas a diminuição
não deixa de ser um pequeno sinal de contágio da maré
baixa que impera no planeta.
Do
ponto de vista do Brasil, a questão argentina é ainda
mais complicada. O nó da chamada paridade cambial não
foi desatado magicamente pela volta de seu arquiteto, o economista
Cavallo, ao governo. Como se sabe, o peso está grudado ao
dólar por um dispositivo constitucional. Essa simbiose não
pode ser desfeita sem sacrifícios que só se pedem
ao povo em tempos de guerra. Metade da dívida pública
foi feita em dólar. Mais da metade das dívidas das
pessoas também estão penduradas na cotação
que garante que 1 peso vale 1 dólar. Se o peso flutuar, a
esperada desvalorização quebra ao mesmo tempo o governo
e os cidadãos.
Pois
bem, a Argentina vive o impasse de não ter como mudar e ao
mesmo tempo não poder ficar na mesma situação.
O que fazer? Ninguém sabe ao certo. "Podemos enfrentar situações
para as quais não estamos preparados", diz Salomão
Quadros, economista da Fundação Getúlio Vargas,
do Rio de Janeiro. Não é exagero esperar um agravamento
do quadro argentino. Políticos e economistas da Argentina
acreditam que Cavallo tem no máximo um ano para mostrar os
resultados de suas medidas. Por enquanto, o efeito Cavallo é
psicológico, graças a sua hiperatividade pessoal.
Mas a desconfiança nos mercados é enorme. Na semana
passada, o risco-país referente à Argentina, indicador
que mede o humor dos investidores com relação aos
países onde colocam seu dinheiro, estava em 930 pontos. É
muito. Equivale quase ao indicador que a Turquia recebeu há
um mês, quando desvalorizou sua moeda. O Plano Cavallo ainda
é um enigma. Ele não revelou, por exemplo, como espera
cortar os gastos públicos. Só no primeiro trimestre,
o governo gastou 700 milhões de dólares acima do combinado
com o FMI. Um rombo e tanto. Cavallo também não falou
sobre o desemprego, que anda beirando os 15%. Ele alimenta o sonho
de ser o novo presidente da Argentina. Nessa condição,
falar em ajuste econômico não é bom. Por isso,
o ministro da Economia tem se limitado a fazer discursos populistas
para empresários e para o povo.
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Os
riscos do contágio para o Brasil existem e suas vias são
bem conhecidas. Segundo avaliação do Banco Central,
uma desvalorização do real da ordem de 10% gera alta
de 1 ponto porcentual na inflação. Desde que Argentina
e Estados Unidos começaram a turvar as águas da economia
mundial, há três meses, o real já perdeu 10%
de seu valor. Nada muito preocupante até agora. Pelo modelo
adotado por técnicos do BC, isso poderá fazer com
que a inflação salte 1 ponto em junho. Essa constatação
leva a outra conta. Para segurar cada 1,25 ponto porcentual na inflação,
o governo tem de aumentar os juros em 1 ponto. Logo, se os temores
de quebra da Argentina e da desaceleração dos Estados
Unidos continuarem a gerar desconfiança e se os brasileiros
seguirem comprando dólares para se garantir, os resultados
são previsíveis. A economia brasileira esfriará.
Na
semana passada, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, apostava no
cenário otimista. Ele disse que o Brasil poderá crescer
4,2% neste ano. "Há sinais claros de crescimento nos agronegócios,
na indústria, nos investimentos e na redução
do desemprego", afirmou Malan. "A desaceleração americana
pode provocar uma variação de 0,1 ponto porcentual
no desempenho do Brasil." Conclusão: o Brasil não
é uma ilha. É natural que seja afetado pelo que se
passa no mundo. Mas o país foi bem vacinado e está
forte. Portanto, o mais provável é que, em caso de
contágio, sofra bem menos que nas epidemias globais dos últimos
anos.
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Estilo
George W. Bush
O
presidente George W. Bush tomou a primeira medida de impacto
no cenário internacional desde que assumiu o poder,
há menos de três meses: mandou uma banana para
os ecologistas e anunciou na semana passada que não
irá implementar o Protocolo de Kioto, que prevê
cortes nas emissões de gases poluentes. Sem os Estados
Unidos, o maior poluidor do planeta, o protocolo vira fumaça
e aumenta a ameaça do aquecimento global. A desculpa
esfarrapada de Bush é que o crescimento da economia
é sua prioridade. E não será ele quem
aumentará os custos da indústria com medidas
antipoluentes. A decisão diz bastante sobre o novo
presidente americano. Os republicanos são tradicionalmente
representantes do mundo dos negócios mas há
muito não se via um presidente tão, como se
diz por lá, pró-business.
Bush aos poucos começa a imprimir sua marca de governo.
As diferenças em relação ao antecessor
mostram-se além das posições políticas,
necessariamente mais conservadoras. Bush virou de cabeça
para baixo a rotina da Casa Branca, atuando como se fosse
o principal executivo de multinacional. "Ele é o primeiro
presidente dos Estados Unidos a ter um MBA", justifica seu
chefe de gabinete, Andrew Card. O estilo típico das
grandes corporações fica evidente nos mínimos
detalhes, a começar pela composição do
secretariado, formado por políticos com larga experiência
de governo ou em multinacionais. Diferentemente de Bill Clinton,
que era centralizador, Bush dá as linhas gerais, delega
poderes para que seus secretários as cumpram e depois
cobra os resultados, mesmo porque sua falta de paciência
em se debruçar sobre documentos ou análises
conjunturais já virou mote para piadas. O vice Dick
Cheney atua como se fosse um primeiro-ministro, a ponto de
os humoristas da televisão ironizarem que o país
ficou sem governo quando o vice submeteu-se a uma angioplastia,
em março. Para um presidente com apenas seis anos de
experiência política e conhecido pelas sucessivas
gafes, não deixa de ser uma estratégia prudente.
Outras mudanças refletem as características
pessoais do novo ocupante da Casa Branca. Bush adotou um código
de conduta para os assessores que inclui cordialidade e respeito
nos relacionamentos pessoais e até cuidado com o vestuário.
Ou seja, nada de minissaias ou blusas decotadas, uma marca
dos tempos de Monica Lewinsky. A pontualidade é quase
uma obsessão: nas audiências, é implacável
com os que se atrasam e demonstra impaciência quando
elas se estendem além do horário. Bush chega
ao Salão Oval às 7 horas e raramente fica após
as 18h30. Clinton era mais indisciplinado com a agenda e com
freqüência estendia a jornada madrugada adentro.
Se o antecessor tinha no charme seu maior trunfo, Bush tenta
não fazer feio: malha por mais de uma hora quatro vezes
por semana. Quando um maluco armado invadiu os jardins da
Casa Branca, no horário comercial, um porta-voz disse
que o presidente nunca correu risco. De fato, não estava
trabalhando no Salão Oval, mas do outro lado do prédio,
fazendo halterofilismo em sua academia improvisada na ala
residencial.
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