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O barão vermelho

Lionel Jospin, o socialista que deu
jeito na França, vem ao Brasil

Ruth de Aquino, de Paris

 
AFP
Jospin: elo de alianças delicadas

Se a esquerda brasileira precisa de algum top model para se inspirar, é aconselhável ouvir atentamente uma estrela política que chega na quarta-feira ao Brasil para uma visita de três dias: o veterano premiê socialista Lionel Jospin, da França, que seria provavelmente um excelente candidato à Presidência do Brasil pela ala esquerdista, se a legislação assim o permitisse. Passará por Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, com uma delegação de vinte políticos e empresários, sob a cobertura de um obeso batalhão de jornalistas, cinqüenta no total.

O sexagenário Jospin é um homem coerente e muito hábil. Bate de frente com qualquer versão suavizada do capitalismo, mas faz isso com certa graça. "Capitalismo é uma força que se move, mas não sabe em que direção está indo", resumiu certa vez. Consegue ser, na França, o elo de alianças delicadas, como a dos verdes com socialistas e comunistas, a sua versão de "esquerda pluralista". No poder desde 1997, Jospin não tem o sorriso marqueteiro do primeiro-ministro inglês Tony Blair nem a suposta modernidade do chanceler alemão Gerhard Schroeder. Ex-professor universitário de economia, acadêmico com nota baixa em carisma, ficou um bom tempo encarregado do setor de treinamento do Partido Socialista francês. No comando do governo, seus talentos desabrocharam.

A inflação do ano passado foi de 1,6%, o desemprego caiu para 8,8%, houve superávit comercial de 17 bilhões de dólares e o PIB do país deu um salto de quase 3%, taxa invejável na Europa. Por meio de conquistas assim, Jospin transformou-se em líder da esquerda internacional, mesmo coabitando com um presidente de direita como "o rei" Jacques Chirac. Último dos moicanos, dinossauro, ultrapassado, de tudo Jospin já foi acusado. E resistiu. Agora, já é incensado como o verdadeiro Terceiro Homem, numa alusão à Terceira Via entre o capitalismo e o comunismo, apregoada pelo inglês Blair e o alemão Schroeder.

Os cínicos que querem provocar Jospin gostam de citar sua segunda mulher, Sylviane Agacinski, como sua arma mais poderosa. Sylviane é autora de vários livros, entre eles Política dos Sexos (1996). Despreza guetos feministas, diz que antes de tudo é filósofa (fez doutorado), deu uma palestra para 200 pessoas em outubro do ano passado, no Instituto de Estudos Políticos de Paris, em que o nome Jospin não foi citado uma única vez em duas horas. Eles se conheceram em 1989, quando Sylviane foi ao então ministro da Educação Jospin pedir que abraçasse a causa dos filósofos franceses.

Conservadores atacam o discurso de Jospin como "retórica vazia". Dizem que, se a França continuar a gastar quase 10% de seu produto interno bruto com remédios, o sistema não vai agüentar. O "Estado ativo" apregoado por Jospin significaria, na verdade, a médio prazo, impostos mais altos, mais anos de trabalho e menos benefícios sociais, segundo a oposição.

A direita pode dizer o que quiser, mas nas últimas eleições municipais quem ficou com Paris foi Jospin e seu prefeito, Bertrand Delanoë. Desde 1871 a capital não era gauche. E a título de informação cultural para quem dividir a mesa com o premiê no Brasil: por mais que Jospin combata a discriminação contra os homossexuais e que o prefeito socialista de Paris tenha assumido publicamente e com orgulho sua opção homossexual, é de péssimo tom mencionar que os gays comemoraram em ruas e bares do Marais, madrugada adentro, entre flores e discursos inflamados, a vitória rosa de Delanoë. Jospin e sua assessoria negam-se até a recordar a festança.

 
AP
AFP
AP
Greve nos trens franceses, medidas contra a febre aftosa (ao lado) e protesto de agricultores: concessões eleiçoeiras

Caso as eleições presidenciais de 2002 fossem hoje, Jospin derrubaria Jacques Chirac por 52% a 48% dos votos, segundo pesquisa de 22 a 24 de março da Paris-Match. Quem chega a Paris desavisado se pergunta como Jospin continua favorito no meio de tanto fogo cruzado. Afinal, a qualquer momento uma greve pode estourar na França. Vôos, trens, metrô param com mais freqüência em Paris que em qualquer outra capital. Caminhoneiros bloqueiam sem o menor pudor refinarias e estradas. Até o Louvre, um museu que recebeu no ano passado 6 milhões de visitantes, fechou as portas na semana que passou. E os juízes, que são proibidos por lei de fazer greve, foram às ruas pela segunda vez neste ano, heresia que não cometiam desde 1991. Não foi em vão. Os magistrados saíram do gabinete de Jospin com uma promessa volumosa por baixo da toga: a criação de mais 1.200 empregos na Justiça. Concessões como essa mostram que o governo receia o preço político das paralisações. Foram exatamente ondas de greves que derrubaram o antecessor de Jospin na França, o gaullista Alain Juppé.

E o que dizer das eleições municipais realizadas há pouco? A "esquerda pluralista" perdeu em aproximadamente quarenta cidades importantes, mesmo com a direita toda esfacelada em brigas internas. A queda maior foi dos comunistas, que agora não comandam nenhuma cidade com população superior a 100.000 habitantes. Mas os verdes estão sorrindo, apesar das vacas e ovelhas loucas. Eles souberam capitalizar as preocupações ambientais e alimentares dos franceses e se gabam hoje de ser o segundo pilar do governo Jospin. Mais uma saia-justa para o primeiro-ministro, pressionado por sua própria coalizão a reestruturar o governo para adequá-lo às aspirações do eleitorado. Um dos grandes teóricos da esquerda pluralista, o deputado socialista Jean-Christophe Cambadélis, admite que, em 2002, o maior desafio de Jospin será "revalorizar os ecologistas sem desvalorizar os comunistas".

Com tudo isso, a popularidade do primeiro-ministro continua, aparentemente, inabalada. Jospin tornou-se um ideólogo no bom sentido, visto pela população como um político capaz, corajoso, profissional e honesto. A oratória do grande comunicador lhe falta, mas talvez isso tenha passado a ser vantagem num mundo cada vez mais descrente de desempenhos orientados pelo marketing. Para ajudá-lo ainda mais, a direita anda très mal das pernas. O partido de Chirac tenta mas não consegue desvencilhar-se do mar de lama de processos de corrupção. Na semana passada, a lama subiu ao joelho do presidente. Um juiz convocou Jacques Chirac a depor em nebuloso escândalo envolvendo habitações populares e empresas que teriam pago gordas comissões à prefeitura de Paris então encabeçada por ele próprio.

 
Fotos AP
O rival Jacques Chirac e o prefeito eleito de Paris, Bertrand Delanoë: Jospin é o favorito para as eleições presidenciais de 2002

De qualquer maneira, Jospin é hoje um político ainda mais cauteloso do que antes das eleições municipais. Avalia que as derrotas em pequenas cidades puniram a arrogância de alguns políticos de esquerda, pouco antenados com as preocupações locais dos eleitores, e premiaram uma nova geração da direita. Suas justificativas públicas na semana passada, para os correligionários, mencionavam sobretudo o desinteresse das classes populares e dos jovens em votar. A maior pergunta que os socialistas se fazem é: o que fazer para atrair os jovens idealistas às urnas? Afinal, é Jospin que vem batendo na tecla de "pleno emprego", especialmente para a mão-de-obra ainda sem calos nas mãos. Apesar do esforço, o primeiro-ministro não tem razão para festejar nesse campo. Como declara o jornal inglês The Guardian, a França exporta centenas de jovens motoristas de ônibus parisienses para o mercado carente de Londres.

Sobre seu favoritismo na eleição presidencial do ano que vem, Jospin não se vangloria de nada: "Não há nenhuma certeza de ganhar, mas também não há nenhum fatalismo derrotista". Como dizia Harold Wilson, premiê britânico dos anos 60 e 70, "uma semana é um longo tempo na política". E até 2002 tem muita pedra no caminho de Jospin. Seus críticos ironizam o que consideram elitismo do primeiro-ministro: seria bem mais fácil imaginar Lionel Jospin saindo de um festival de cinema de arte no circuito cult da Rive Gauche do que enraizado no campo. Mesmo antes da febre aftosa. O diretor-geral do instituto de pesquisas Sofres, Philippe Mechet, ainda não acredita em Jospin presidente: "O presidente da República é nosso rei, nós precisamos de uma figura simbólica e representativa". Jospin, um político educado na ENA, a escola da elite do funcionalismo público da França, e comprometido com o Terceiro Mundo e as relações internacionais, não caberia nesse perfil, segundo seus críticos. Mas, em maio de 1995, quase derrubou Chirac, e ganhou mais de 47% dos votos.

Mesmo indisposto a mexer em alguns tabus, Jospin deve, no mínimo, ser ouvido no Brasil por seus méritos de costura política. Algo que os trópicos ou não entenderam ainda ou não encontraram um alfaiate à altura. Às vezes, falta costura por excesso de egos. Outras, a costura desanda tanto que vai além das convicções ideológicas, desmoralizando as siglas e afastando os eleitores, que continuam obrigados a votar. Na França, só vota quem quer.

 

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