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Mosquito de grã-fino

Dengue entre famosos no Rio
acende alerta para epidemias

Marcelo Carneiro

 
Eduardo Monteiro
Fernando Martinho
Arthur Cavalieri
Nuzman: dias de dor no Canadá Ana Paula: era alarme falso Márcia Müller: outra vítima

A atriz Ana Paula Arosio não tem, mas achava que tinha. A apresentadora de televisão Márcia Peltier já está na segunda experiência, e seu marido, o cartola Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, levou a sua para o Canadá. A arquiteta Márcia Müller, vizinha da apresentadora, também não resistiu. E o secretário estadual Luiz Rogério Magalhães, braço direito do governador Anthony Garotinho, tem certeza de que foi premiado. Não, não se trata de uma nova moda que pegou entre os bem-nascidos do Rio de Janeiro. Essa turma de cariocas ilustres viveu as duas últimas semanas sobressaltada por um fantasma de 5 milímetros e um tremendo poder de fogo. É o mosquito Aedes aegypti, transmissor do temido vírus da dengue. A doença reapareceu com força na cidade e chamou a atenção para epidemias provocadas pela ação de mosquitos, como a dengue e a febre amarela. A diferença é que, desta vez, o inseto parece ter feito uma opção preferencial pelos ricos.

Na verdade, o Aedes aegypti não escolhe classe social, sexo ou raça. Mas bastou o aparecimento de uma forma mais violenta do vírus – o dengue do tipo 3 – em um condomínio de luxo no Leblon, Zona Sul do Rio, para o clima de pânico se instalar. Pudera. O Jardim Pernambuco é um oásis de privacidade com apenas 130 mansões em uma belíssima área verde. A casa mais barata não sai por menos de 1 milhão de dólares, e entre os moradores estão o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, empresários e socialites. Pois foi exatamente lá que o mosquitinho picou três vítimas ilustres, o casal Márcia Peltier e Nuzman e a arquiteta Márcia Müller. A apresentadora, que há dez anos contraiu uma forma mais branda da doença, desta vez foi nocauteada. Ficou duas semanas praticamente deitada na cama, com tremedeira, dores no corpo, enjôo e manchas vermelhas na pele. Amargou ainda um considerável prejuízo financeiro. "Perdi cinco propostas de trabalho e adiei em quase um mês meu novo programa de TV", diz Márcia. Ela teve os primeiros sintomas de dengue praticamente no mesmo momento em que o marido, que viajara para Toronto a trabalho, começou a baquear.

O aparecimento de focos da doença na Zona Sul do Rio pode dar a impressão de que o vírus da dengue passou a atingir a classe média com a mesma fúria com que há anos castiga os mais pobres. Na verdade, a maior parte das vítimas do mosquito continua na zona suburbana do Rio e em cidades da Baixada Fluminense, vizinhas da capital. O que mudou foi a percepção da doença. Tome-se o exemplo de Márcia Peltier. "Minhas amigas me perguntavam, assustadas, como eu tinha contraído dengue. Eu falei que isso não era uma doença de favelados e todo mundo devia se cuidar", conta Márcia. De fato, os parrudos seguranças do Jardim Pernambuco nada podem contra o mosquito. O Aedes aegypti burla qualquer vigilância e escolhe locais de água limpa e parada para colocar seus ovos. Uma piscina malcuidada vira parque de diversões para os insetos. Outro foco da doença são as bromélias, que a classe média adaptou às varandas de casas e apartamentos.


Sempre foi assim. Mas os casos só ganharam as manchetes dos jornais depois que os com-piscina e com-bromélia perceberam que estavam correndo risco de cair doentes – como é comum ocorrer, aliás. A dengue passou mais de um século estigmatizada como doença de populações pobres. Coisa da patuléia, nome que batizou a primeira epidemia de dengue no Rio, em 1846. Agora, o alerta geral fez o Estado disparar no ranking de casos da doença. Até a atriz Ana Paula Arosio, que contraiu uma infecção nas amígdalas, buscou um hospital no Rio, com medo de que fosse dengue. Só de janeiro a março deste ano, foram quase 10.000 notificações, número superior ao de Estados tradicionalmente problemáticos como Amazonas, Pará e Acre. A situação também é grave em São Paulo, que já contabiliza 4.578 casos desde janeiro.

As armas para enfrentar esse tipo de doença são as mesmas que o sanitarista Oswaldo Cruz usou, em 1904, para combater o mosquito transmissor da febre amarela. Uma estrutura quase militar e disciplina férrea para ir de casa em casa eliminando os focos da doença. Nem todos os Estados, porém, têm conseguido enfrentar essa batalha. Um levantamento recente da Fundação Nacional de Saúde mostrou que alguns deles apresentam um sistema precário de combate a epidemias (veja quadro). Entre esses estão dois dos Estados mais ricos da federação. O Rio de Janeiro, em vergonhoso 14º lugar. E Minas Gerais, que no momento enfrenta um surto de febre amarela, na modesta 11ª posição. Tomara que o susto que aconteceu graças ao aparecimento do mosquito de grã-fino ajude a melhorar esse cenário.


Com reportagem de
Lourenço Flores, de Brasília

 

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