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O desenho da popularidade de FHC a partir
de agora será decisivo para definir os
rumos da sucessão de 2002

Lia Abbud e Tatiana Chiari

"Meu governo está apagando a inflação da memória. A partir da estabilidade estamos dando passos importantes para distribuir renda, crescendo, gerando empregos, sem ilusões e sem retrocessos"

Fernando Henrique, em
cadeia de rádio e TV
Wilson Pedrosa/AE

FHC: a 6 pontos porcentuais de fazer a curva azul tocar na curva vermelha

Existem duas maneiras de interpretar o eletrocardiograma da popularidade de Fernando Henrique Cardoso. Uma delas é negativa. Desde março de 1999, a desaprovação ao governo tucano superou a aprovação. Ou seja, a sociedade está mais descontente do que contente com FHC há exatos 25 meses. A outra interpretação é um pouco mais animadora para a turma do governo. De maio do ano passado para cá, a aprovação vem subindo de maneira consistente. Na semana passada, quando o Ibope divulgou a última série de pesquisas, FHC estava a apenas 6 pontos porcentuais de fazer a curva azul da aprovação tocar na curva vermelha da desaprovação para, quem sabe, investir numa virada.

A curva da popularidade presidencial em geral interessa basicamente aos marqueteiros oficiais que já não precisam de muitos motivos para gastar rios de dinheiro em rodadas de pesquisa e em campanhas publicitárias de divulgação das ações e virtudes do governo. Quando os números positivos são substituídos pelos negativos, é hora de torrar mais alguns milhões de reais para descobrir as razões do insucesso. No caso dessa pesquisa em particular, feita pelo Ibope por encomenda da Confederação Nacional da Indústria, a popularidade de Fernando Henrique não interessa apenas ao ministro Andrea Matarazzo, responsável pela comunicação oficial. A aprovação presidencial pode ser peça-chave para definir a sucessão de 2002. Conforme a inclinação do eletrocardiograma, o Brasil terá eleição ou plebiscito.



José Serra, ao lado do sempre popular Ratinho, e Ciro Gomes, no programa da sempre linda Adriane Galisteu: a campanha eleitoral já começou

Explica-se: em 1994, como responsável pelo Plano Real, o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique, concentrou em torno de si os debates. Naquele ano, os eleitores se dividiram entre os que pretendiam entregar a Presidência ao homem que baixou a inflação e os que não tinham planos de fazer isso. Ninguém tinha olhos para analisar com frieza as virtudes dos demais candidatos. Vivia-se um clima de sim ou não a FHC. Dá-se a isso o nome de plebiscito. Aconteceria de novo quatro anos depois. Na corrida de 1998, o eleitor acreditou novamente em Fernando Henrique – e de forma cega. Nos dois casos, a vitória se deu no primeiro turno. Os especialistas acham difícil que a popularidade de FHC suba a ponto de viabilizar um terceiro plebiscito seguido em torno de um sucessor apontado por ele. Mas os bruxos do Palácio do Planalto não descartaram essa possibilidade.

O mais provável é que o próximo presidente saia de um processo eleitoral clássico, como o de 1989, ano da sucessão de José Sarney. O governo federal estava fraco, mergulhado numa crise de descrença. Vinte e duas candidaturas se apresentaram, quase todas de oposição, e a guerra dos números durou até o final do primeiro turno. Fernando Collor chegou na frente com algum conforto (28,52% dos votos no primeiro turno), mas Lula suou para chegar lá. O candidato do PT obteve 16,08% dos votos, menos de 500.000 votos à frente do terceiro colocado, Leonel Brizola, do PDT. O quarto colocado, Mário Covas, atingiu 10,78% dos votos. Observe: a distância porcentual entre o segundo e o quarto colocados foi de apenas 5,3%. Embora Collor tenha se transformado numa atração, não se pode dizer que a discussão se concentrou unicamente em torno de sua candidatura. "Ninguém tem bola de cristal, mas, diante dos números atuais, o novo presidente deve vencer raspando", diz o cientista político Marcos Coimbra, diretor do instituto de pesquisas Vox Populi.

A pesquisa do Ibope aponta uma tendência que se viu em 1989. Nas três simulações preparadas pelo instituto, Lula aparece isolado na liderança, sempre com algo em torno de 30% das intenções de voto – feito Collor. Já a distância entre o segundo colocado (sempre Ciro Gomes) e o quarto varia entre 7% e 10%, de acordo com a simulação – distância muito parecida com os 5,3% de 1989. Em dois dos três cenários, o Ibope colocou o nome de Itamar Franco. Em ambos, o governador de Minas fica em terceiro lugar. Tem 16% das intenções de voto (apenas 3 pontos abaixo de Ciro) quando o candidato do PSDB é Tasso Jereissati, e cai para 14% contra o ministro da Saúde, José Serra. Nessa simulação, Serra e Antonio Carlos Magalhães aparecem empatados. Na semana passada, alguns candidatos já estavam em ação. Ciro esteve no programa de Adriane Galisteu, na Rede Record. E Serra apareceu no Programa do Ratinho, no SBT, para falar da campanha. De vacinação, claro.

A análise dos números da pesquisa do Ibope sugere que FHC já produziu um feito, ainda que mantenha um patamar baixo de aprovação popular. Os governos, não importa qual, são vistos de maneira muito semelhante pela opinião pública. Em geral, o presidente inicia o mandato com a popularidade em alta e cercado de expectativas. (Pudera: que gestão é mais promissora do que aquela que não começou?) Quando o governo chega à reta final, a maioria quer ver o ocupante do Planalto pelas costas. A opinião pública é cruel nesse território. Ela costuma ser generosa com os presidentes da República, mas só depois que eles viram ex. José Sarney é lembrado não pelas agruras que viveu em sua fase de poder, nem pela tentativa desesperada de garantir o quinto ano de mandato. É, sim, o pai do Plano Cruzado. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, então, são deuses do Olimpo. Ninguém se refere às acusações de que foram alvo. "O tempo costuma emprestar uma blindagem aos ex-presidentes", diz o cientista político Sérgio Abranches. "Nesse sentido, é notável que FHC consiga iniciar uma virada positiva em sua popularidade ainda durante sua gestão."

O universo das pesquisas contém dois grandes momentos. Um, mais fácil, é o da exibição dos números. O outro, de alta complexidade, trata da análise dos dados. Em alguns momentos, a queda na popularidade do presidente foi atribuída a razões políticas. Nesse sentido, surpreende que a aprovação esteja subindo exatamente agora, momento em que o país atravessa uma fase inédita de descrença nos políticos. Para onde quer que se olhe se tem notícia de um caso de corrupção. As denúncias atingem o Executivo, o Legislativo e o Judiciário nos três níveis administrativos: federal, estadual e municipal. De acordo com a pesquisa do Ibope, 61% dos entrevistados acham que existe muita corrupção no governo. Ainda que o dado seja ruim, a popularidade de FHC não sofreu com isso. FHC parece imune às sujeiras que circulam a seu redor. "Nada gruda nele", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "As denúncias não o atingem diretamente e, portanto, não afetam sua imagem." Os analistas já batizaram esse poder antiaderente que alguns políticos possuem de "efeito Teflon", referência àquela película que mantém a frigideira limpinha mesmo após a fritura. A pesquisa confirma essa percepção. Segundo o Ibope, 59% acreditam que o presidente está tomando alguma providência para combater a corrupção.

Ainda que as denúncias de corrupção não aumentem a desaprovação, não seria razoável usá-las para explicar o crescimento da aprovação. As razões do aumento estão em outra área: o das boas notícias no campo da economia. No momento em que a popularidade de FHC atingiu seu menor índice no segundo mandato, exatamente em julho de 1999, a taxa de desemprego no país era de 8,1%. O tempo médio de procura de trabalho era de 23 semanas e o rendimento médio das pessoas ocupadas, de 675 reais. A recuperação gradual das finanças do país modificou bastante esse cenário – e, por conseqüência, contribuiu para elevar novamente a popularidade do presidente. Em fevereiro de 2001 a taxa de desemprego foi de 6,4%, o tempo de procura por um trabalho baixou para dezoito semanas e a média de rendimento subiu para 738 reais. O índice do custo de vida sobe atualmente num ritmo equivalente a um quinto do registrado em julho de 1999. "A população está mais preocupada em realizar suas necessidades de consumo e em aumentar seu bem-estar do que em acompanhar as denúncias de Brasília", diz Sérgio Abranches.

É a tal história da frase usada pelo democrata Bill Clinton para explicar as razões de seu sucesso eleitoral e torpedear a campanha republicana de George Bush, pai do atual presidente americano. "É a economia, estúpido", era a frase pregada na parede de um dos assessores de campanha de Clinton. Neste campo, o da economia, o Brasil tem apresentado uma boa lista de realizações. Depois de crescer acima de 4% no ano 2000, o ministro Pedro Malan anunciou na semana passada que o país deve crescer ainda mais do que isso em 2001. Também se anunciou na semana passada um fato inédito: a gasolina vai baixar de preço. A taxa de emprego subiu, a produção industrial aumentou, o novo salário mínimo foi anunciado com antecedência e finalmente chegou a 180 reais. Além disso, a arrecadação da Receita Federal não pára de crescer e a próxima safra agrícola deve ser 10% superior à do ano passado. O pacote é convincente.

Apenas um indicador afasta FHC de uma aprovação mais elevada: a renda baixa do assalariado. As pessoas que trabalham por conta própria estão ganhando hoje mais do que há um ano. Mas o assalariado não. O IBGE divulgou uma pesquisa na semana passada mostrando uma queda de 2,4%. "Quando essa renda voltar a subir, a aprovação do presidente sobe em seguida", afirma Sérgio Abranches. E isso vai interferir nos rumos da eleição de 2002.

 
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