Os
Maias na versão new age
Ilustração Pepe Casals
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Na penúltima VEJA havia notícias sobre as contas
milionárias do ex-diretor financeiro da Funcef, a pilhagem
dos afilhados de Jader Barbalho na Sudam e as suspeitas de
caixinha no Porto de Santos. O que mais me escandalizou, porém,
foi a entrevista de Maria Adelaide Amaral, que adaptou para
a TV Os Maias, de Eça de Queiroz. Ela explicou
que tomou a liberdade de transformar o incestuoso e covarde
protagonista do romance num homem digno que recusa o incesto
porque "o espectador anda sedento de bons exemplos éticos".
O caso mereceria uma CPI. Se Maria Adelaide Amaral adaptasse
para a TV Dom Casmurro, faria o filho de Capitu idêntico
a Bentinho. Em Crime e Castigo, suprimiria o assassinato
da velha agiota. Na Divina Comédia, eliminaria
o Inferno.
Arnaldo Jabor é outro que sente a necessidade de
passar mensagens positivas. Cito algumas de suas frases
num artigo recente: "Há um grande amor brasileiro
pelo fracasso. É o desejo oculto da sociedade. O
fracasso nos enobrece. É uma vitória para
muitos. Há um negativismo crônico no pensamento
brasileiro. O abismo para nós é um desejo
secreto". Jabor acha que o melhor antídoto contra
essa síndrome do fracasso é ter a coragem
de ir à TV e dizer: "O Brasil está melhorando!"
Quem colocou em prática os ensinamentos de Jabor
foi o professor Roberto Mangabeira Unger. Ele profetizou
que, "de repente, o Brasil se levantará. Será
um milagre de iniciativas óbvias e sinceras. O Brasil
chegará ao concerto das grandes nações.
Haverá ordem no Brasil. Entre nossas crianças
pobres e morenas, serão revelados gênios, até
aquele dia ocultos e mudos. O engrandecimento do Brasil
soará, em todos os recantos da Terra, como o grito
de uma criança ao nascer, prometendo novo começo
para o mundo".
Dizem que Unger é o guru de Ciro Gomes. Ele fala
como um guru. Um guru new age. Um dos fundamentos da new
age é o pensamento positivo. De acordo com seus mais
conceituados teóricos, precisamos convencer-nos da
inevitabilidade de nosso sucesso, inflando nossa auto-estima,
repetindo insistentemente para nós mesmos que somos
"excepcionais" e que "temos a capacidade de realizar milagres".
Além disso, também é necessário
inspirar-nos em bons exemplos (Maria Adelaide Amaral) e
libertar-nos de todas as formas de negativismo ou medo do
fracasso (Arnaldo Jabor). A literatura new age garante que,
seguindo essas simples regrinhas, aprendemos a usar a mente
em nosso favor. Com o pensamento positivo, é possível
ganhar dinheiro, salvar o casamento e curar o câncer.
Um autor promete até que dá para remover as
calorias da comida, a fim de que possamos comer à
vontade sem engordar.
Portanto, repitamos com força: o Brasil se levantará!
Se, em vez disso, você é desses antipatriotas
negativistas que acreditam que o país é destinado
ao fracasso, saiba que um dia a História será
reescrita por Maria Adelaide Amaral. Ela transformará
em homens dignos e exemplos éticos até mesmo
o ex-diretor financeiro da Funcef, os afilhados de Jader
Barbalho na Sudam e a turma do Porto de Santos.