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Sérgio Abranches

A face injusta da Justiça

"A sentença condenatória que permite a
Cristovam
Buarque pagar pena prestando
serviços à comunidade talvez não possa ser
cumprida por falta de tempo. Sua agenda está
tomada por serviços que presta em tempo
integral à comunidade"


Ilustração Ale Setti


Quem já viu um ex-governador perder os direitos políticos e ir para a cadeia por ter colocado placas com propaganda do governo nas ruas? Eu só sei de um, Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal, conhecido nacionalmente pelas políticas públicas que implementou e não por malversação de dinheiro público. Fez o mais amplo programa de bolsa-escola do país, desdenhado pelo governador atual, adepto da descontinuidade administrativa. Tornou civilizado o trânsito de Brasília, uma das raras cidades grandes do país onde os motoristas param nas faixas de pedestres sem guarda de trânsito para forçá-los. Resultado de bem-sucedida campanha educacional.

Foi condenado em primeira instância a cinco meses de prisão e multa de 15.000 reais pelo crime hediondo de desobediência à Justiça. A multa, que seria de 150 reais, foi elevada porque ele é homem abonado, tendo sido governador. O magistrado deve imaginar que todo governador deixa o cargo abonado. Não conhece os Covas e os Cristovam da política brasileira. A Justiça havia determinado que retirasse placas com a inscrição "Governo Democrático e Popular" das ruas. Retirou muitas, mas deixou algumas e por estas querem metê-lo na cadeia. Já vi, com a total complacência da Justiça, placas de governos menos democráticos e nada populares, com propaganda muito mais explícita e demagógica, em plena campanha eleitoral. Agora, Cristovam pode ficar inelegível e perder os direitos políticos por oito anos, desfalcando o número de políticos íntegros na ativa, capazes de melhorar o padrão moral de nossa vida cívica.

A Justiça brasileira, como Jano, o guardião romano das portas, tem duas faces. Uma é cega aos crimes dos ricos e poderosos. Outra é vigilante para punir pobres e negros. Uma das chaves serve para abrir as portas das cadeias onde algum sangue-azul deu entrada. A outra mantém trancadas as celas superlotadas de gente sem colarinho.

Há escândalos que derivam de atos impunes, que muitas vezes nem sequer foram investigados. Os jornais estão cheios deles. Dão primeira página. Há escândalos que nascem da injustiça, praticada por ignorância ou excesso de formalismo. Têm pouca repercussão. A condenação de Cristovam Buarque pertence ao segundo caso.

Ironia das ironias, a sentença condenatória permite-lhe cumprir a pena prestando serviços à comunidade. Talvez não possa fazê-lo por falta de tempo. Sua agenda está tomada por serviços que presta em tempo integral à comunidade. Ele tem provavelmente um currículo de dedicação comunitária incomparável ao de quem o condena. Poderia escolher ajudar crianças de rua. Mas um formalista diria que não, pois este é seu trabalho atual. No comando da Missão Criança, dá bolsa-escola com recursos privados para 3.000 crianças, em vários Estados do país, menos no Distrito Federal, para não ser suspeito de inspiração político-eleitoral. Quem acha que não existe político honesto diria que é porque ele agora é candidato a presidente. Se essa é a forma demagógica de conseguir votos para a disputa presidencial, então que todos o façam: para crianças realmente carentes e com recursos privados. De preferência, sem convocar a imprensa para a entrega de cada bolsa e sem faixa na rua.

Falando sério, há que haver limite para a discricionariedade de um magistrado, ainda que imbuído de boas intenções, que decide de forma tão injusta e despropositada. Certamente a injustiça será corrigida em instâncias superiores, fora da alçada regional. Mas é evidente que o Judiciário precisa de uma corregedoria presente, mais eficiente e rápida. Um ouvidor justo, que tome conhecimento dos erros e abusos que atingem diariamente os cidadãos que não têm a proteção do poder, da fortuna ou da certidão de nascimento. Ou acabará sofrendo controle externo, do qual discordo.

Não registrei grandes manifestações de indignação, nem mesmo no partido de Cristovam Buarque. Ainda que seja culpado de propaganda desobediente, o seu não foi o único, nem o pior, nem o mais bem-sucedido caso de uso de placas em obras públicas. Ele perdeu a eleição e com certeza perderia os campeonatos de demagogia ou de mau uso de recursos públicos.

 


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

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