| |
Emergentes da bola
Pela
primeira vez, os países da África podem
se destacar no Mundial de futebol
Acostumada a ser palco de rebeliões e
guerrilhas, a África está assistindo a uma revolução
diferente, desta vez no campo dos esportes, mais
precisamente no futebol. Praticamente alijados das
competições internacionais até a década de 60, como
retaliação por não gozarem de independência
política, os países africanos começaram a chamar a
atenção nos anos 80, com façanhas isoladas. Em 1986 a
seleção do Marrocos foi o primeiro time do continente a
passar da fase inicial da Copa. Em 1990, Camarões, com
uma maneira de jogar irreverente, chegou às
quartas-de-final. Em 1994, foi a vez de a Nigéria
surpreender com sua ousadia e velocidade. Dois anos
depois, destroçou a seleção brasileira na semifinal
das Olimpíadas e engoliu a Argentina na final. Pouco a
pouco, com um campeonato bastante competitivo, o futebol
africano foi ganhando estrutura e passou a conquistar
cada vez mais espaço. Tanto que, à próxima Copa, na
França, a África comparecerá com cinco representantes:
África do Sul, Camarões, Marrocos, Nigéria e Tunísia.
"Nos próximos dez anos uma equipe da África será
campeã do mundo", costuma dizer Zagallo, o técnico
da seleção brasileira.
A Copa da África,
encerrada neste fim de semana em um país chamado Burkina
Faso com a disputa do título entre a África do Sul e o
Egito, deu uma boa demonstração da pujança do novo
futebol africano. Mais de 700 jornalistas estrangeiros
acompanharam os jogos da Copa, que tiveram transmissão
direta de televisão para Europa, Austrália, Japão e
Brasil. Também baixou nos hotéis e estádios de Burkina
Faso uma legião de empresários e caçadores de talentos
em busca de revelações africanas. A África é hoje um
dos maiores fornecedores de mão-de-obra do futebol
mundial, e este é um grande indicador da qualidade de
seu futebol. Dos 350 jogadores que disputaram a Copa da
África, 120 vestem a camisa de clubes da Europa, Japão
e América do Sul. Entre eles há algumas estrelas, como
o nigeriano Taribo West, que defendem as cores do
italiano Internazionale de Milão, um dos cinco melhores
times do mundo, ao lado de Ronaldinho. E como os
marroquinos Noureddine Naybet e Salaheddine Bassir, que
jogam no La Coruña, da Espanha.

Medalha de
ouro
Dos cinco países que estarão na Copa, a Nigéria é a
que tem mais chances. Com jogadores talentosos e bem
treinados, só não é tida como uma seleção favorita
para vencer a Copa por causa da falta de organização
interna, uma característica comum a todos os países do
continente. O futebol africano, a exemplo da política e
da economia, vive num caos que mistura corrupção,
pobreza e desorganização. Na Nigéria, quem escala o
técnico ou escolhe os adversários para os amistosos do
time é o presidente da República, general Sani Abacha,
chefe do governo mais corrupto do mundo. "O futebol
é o principal partido político da Nigéria", diz
Emmanuel Donald, jornalista da revista African Soccer.
Em conseqüência
dessa desordem, vários jovens nem estão discutindo as
ofertas que recebem de empresários europeus para poder
deixar seus países o quanto antes. Há quem saia de casa
aos 15 anos de idade. Pode parecer uma loucura ou até
uma irresponsabilidade, mas permanecer no local onde
nasceram é, para muitos, a pior alternativa. Em Burkina
Faso, por exemplo, a expectativa de vida é de apenas 46
anos, contra 67 no Brasil, e apenas um em cada cinco
adultos sabe ler ou escrever. Nessa saída precoce,
alguns se dão muito bem. É o caso de Benni McCarthy, o
artilheiro da África do Sul, que aos 20 anos de idade
defende o Ajax da Holanda há um ano.
O país que está
mais perto de superar seus problemas é a África do Sul,
que só voltou a participar de competições
internacionais em 1992, depois do fim do apartheid. O
futebol, tradicionalmente uma atividade dos negros em
contraposição ao rúgbi, que era dos brancos,
desempenhou um papel importante na integração racial.
Hoje até a rádio nacional, que transmite em língua
africâner para a minoria branca mais conservadora, já
dedica espaço ao futebol. "Não gostamos de
perdedores, e o futebol sul-africano é vencedor",
explica o único comentarista de futebol da emissora. Com
intervenção do governo e patrocínio de empresas
privadas, os clubes estão se organizando e o futebol
cresce a olhos vistos. Além de participar da Copa na
França, a África do Sul é séria candidata a sediar a
Copa do Mundo de 2006.
Poder
negro no esporte
O
espetacular crescimento do futebol na África
volta a dar força a uma antiga questão: seriam
os negros mais dotados para o esporte do que os
brancos? A revista americana Sports
Illustrated fez uma pesquisa em busca de uma
resposta e, pelo menos para os atletas dos
Estados Unidos, a resposta é sim. A pesquisa
mostrou algumas situações surpreendentes:
Cada vez há mais negros nos times de basquete e
futebol americano, os esportes mais populares dos
Estados Unidos.
Cada vez há mais brancos praticando futebol,
mountain bike e montanhismo, esportes com pequena
presença negra.
Cada vez mais os jovens brancos têm ídolos
esportivos negros.
O
predomínio dos negros em algumas modalidades é
devastador. São negros 80% dos jogadores da NBA,
a liga profissional de basquete, e 67% dos da
NFL, a liga de futebol americano. Diante da
investida, os brancos estão aderindo a esportes
alternativos, em que a concorrência com os
negros não é tão acentuada. Nas escolas,
nota-se o decréscimo de estudantes brancos que
querem jogar basquete e futebol americano e o
aumento dos que se inscrevem para praticar o
nosso futebol e o hóquei, esportes pouco
procurados pelos negros.
Especialistas
em ciência do esporte apontam características
fisiológicas que podem explicar essas
diferenças. Segundo eles, a musculatura dos
negros é dotada de maior quantidade de fibras de
contração rápida, o que os tornaria mais aptos
à prática de esportes de velocidade e explosão
muscular. Mas o estudo da Sports Illustrated revela
que, no caso americano, está ocorrendo também
uma mudança de atitude da população branca.
"Seria uma tragédia se uma garota pregasse
um pôster de um negro na parede de seu quarto
até vinte anos atrás", diz o sociólogo
negro Stanley Crouch. "Hoje nenhum pai se
incomoda que sua filha seja fã de Michael
Jordan."
|

|
|