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"Criar empregos e tornar a economia mais competitiva é hoje um desafio para o mundo todo" |
| Foto: Victor Sokolowicz |
O primeiro-ministro
Romano Prodi, um ex-professor universitário de 58 anos,
é um fenômeno de sobrevivência na política italiana.
À frente de uma coligação de centro esquerda, está
entrando em seu terceiro ano consecutivo no poder
muito para um país que teve 54 diferentes governos em
cinqüenta anos, com média de permanência de apenas
onze meses cada um. Nesse período, Prodi fez mudanças
inimagináveis na até então desacreditada Itália.
Primeiro, botou a economia nos eixos. Com inflação
reduzida e déficit público sob controle, a Itália
está entre os primeiros países credenciados a adotar o
euro, a moeda única européia, cuja implantação
começa no ano que vem e exige rigorosa disciplina fiscal
e monetária de seus governos. O segundo passo inclui
privatizações, reforma na Previdência Social, adoção
de contratos e jornadas flexíveis de trabalho e
desregulamentação da economia, para tornar as empresas
mais competitivas. Na semana passada, às vésperas de
embarcar para o Brasil, onde nesta quarta-feira se
encontra no Palácio do Planalto com o presidente
Fernando Henrique Cardoso, Prodi recebeu VEJA em seu
gabinete do Palazzo Chigi, em Roma, para a seguinte
entrevista.
Veja
Em maio, a
Comissão Européia reúne-se em Bruxelas para decidir
que países estão prontos para o euro, a moeda comum que
começa a entrar em vigor em 1º de janeiro do ano que
vem. Muita gente ainda desconfia da capacidade dos
italianos de manter a disciplina monetária e fiscal
exigida nessa nova etapa da integração continental. A
Itália merece confiança?
Prodi
A
Itália está pronta para o euro. A nova moeda tem regras
muito estritas, que devem ser cumpridas por todos os
países envolvidos. Do nosso lado, não vejo nenhum
grande problema. A inflação é baixa, o déficit
público também e temos nos esforçado para reduzir a
dívida interna e aumentar a competitividade da economia.
Eu acho que não existe motivo para voltar ao passado.
Temos hoje todas as condições de manter o patamar de
disciplina e austeridade que alcançamos nos últimos
anos. Só o tempo dirá se tenho razão.
Veja
A Europa
tem as mais altas taxas de desemprego do planeta, Estados
paternalistas e relações de trabalho que afugentam os
investidores para outros países. Como é possível
enfrentar a competitividade e a inovação tecnológica
dos americanos com um quadro desses?
Prodi
De quanto era a taxa de desemprego nos Estados Unidos
seis anos atrás? Era quase o dobro da atual. O fato de
haver desemprego e falta de competitividade hoje na
Europa não significa que estejamos condenados a
continuar assim para sempre. A solução para os nossos
problemas chama-se crescimento econômico. Praticamente
paramos de crescer nos últimos quatro ou cinco anos. Foi
uma fase de adaptação à nova realidade econômica
mundial e também de preparação para a nova moeda
comum. Todos os países tiveram de fazer grandes
esforços para cumprir as exigências do Tratado de
Maastricht, fundamentadas em austeridade monetária e
fiscal. Agora estamos prontos para colher os frutos desse
esforço. A integração européia e a moeda única são
essenciais para que voltemos a crescer. Uma Europa unida
sob uma moeda forte terá muito mais capacidade de
competir.
Veja
Só
crescimento econômico resolve o problema do desemprego
estrutural, causado pela adoção de novas tecnologias?
Prodi
O
crescimento não é o único meio. É o principal. Temos
também de adotar contratos e jornadas de trabalho mais
flexíveis, reduzir o custo de produção das nossas
empresas, torná-las mais competitivas. Precisamos
investir pesado na qualidade da nossa mão-de-obra por
meio da educação e de programas de treinamentos
especializados. Esse é um desafio que se impõe ao mundo
inteiro, e não apenas à Europa.
Veja
Depois de
se envolver em duas guerras mundiais e perder o passo na
competição industrial e tecnológica, a Europa está
condenada a seguir a liderança americana?
Prodi
A
União Européia tem um objetivo essencial, que é
assegurar a paz no continente. Sem paz não existe futuro
para nós. É preciso a todo o custo evitar a repetição
das tragédias que nos atingiram no passado. O segundo
objetivo da integração é o crescimento econômico. Ao
unir nossas forças, estaremos aptos a competir em pé de
igualdade com os Estados Unidos. Nosso potencial em
pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias é
enorme. Obviamente, competição não significa
confronto. Temos com os Estados Unidos valores e
objetivos em comum, que devem ser preservados. Estou
certo, porém, que o euro representará uma nova e
decisiva etapa na disputa pela liderança econômica
mundial.
Veja
Durante a
maior parte deste século, a Itália foi profundamente
afetada pelo ideal socialista de distribuição de bens e
riquezas, sob a tutela do Estado. Como os italianos vão
se virar diante da globalização, que privilegia como
valores a eficiência e a competição?
Prodi
Nós nunca abandonamos a idéia de que deva haver mais
justiça social, o que significa melhor distribuição de
riquezas e oportunidades. Eu sou pela correção do
Estado social, e não pela sua abolição. Uma das
tarefas do Estado é tentar reduzir a diferença entre as
camadas mais ricas e mais pobres da sociedade. Ocorre que
um Estado paternalista e dominado por interesses
corporativos é incapaz de fazer frente a esse desafio.
Na Itália de alguns anos atrás, o Estado tinha-se
tornado um fim em si mesmo, atendendo a interesses
específicos de grupos, partidos e funcionários
públicos. O que está em jogo no momento não é a
justiça social, mas a eficiência e a capacidade do
Estado em promovê-la. Muitos reclamam das reformas na
Previdência Social que estamos promovendo. Ocorre que,
sem elas, simplesmente não será possível garantir
aposentadoria para todos, em termos justos, no futuro.
Não se trata, portanto, de abolir o sistema de pensões,
mas torná-lo viável e acessível a todos.
Veja
O senhor
tem defendido uma maior aproximação entre a União
Européia e o Mercosul, o mercado que integra o Brasil e
alguns de seus vizinhos. O presidente Bill Clinton, por
sua vez, gostaria de ver o Mercosul absorvido pela Alca,
o mercado comum que reuniria todo o continente americano.
O que a Europa tem a oferecer aos países do Mercosul?
Prodi
Em primeiro lugar, o Mercosul baseia-se na experiência
de integração européia. Fomos nós que trilhamos
primeiro esse caminho, não os americanos. Além disso,
os países envolvidos no Mercosul têm uma enorme
identidade cultural com os europeus. Basta ver a
quantidade de brasileiros e argentinos que são
descendentes de imigrantes europeus, em especial de
italianos. A aproximação do Mercosul com a União
Européia facilitará nossas relações comerciais e
consolidará essa identidade histórica.
Veja
Grandes
companhias italianas, como a Fiat, têm escolhido o
Brasil como base de lançamento de seus produtos
mundiais. Por que o Brasil?
Prodi
Sim, o Brasil tornou-se uma de nossas grandes
prioridades. Por vários motivos. O primeiro, mais
óbvio, são as nossas ligações históricas e afetivas.
Há 25 milhões de brasileiros descendentes de imigrantes
italianos ou mesmo nascidos na Itália. Eles formam uma
parte expressiva da sociedade brasileira. São laços
emocionais que não podem ser desprezados. A segunda
razão é que a economia brasileira vive um momento
extremamente promissor. A estabilidade da moeda, o
crescimento do mercado interno, a integração com os
demais países do Mercosul, tudo isso é um momento
imperdível para qualquer investidor.
Veja
As
diferenças regionais são um problema comum entre o
Brasil e a Itália. No sul italiano, mais pobre, o
índice de desemprego é dez vezes maior do que na
região norte. No Brasil, o Nordeste é muito mais pobre
do que o Sul e o Sudeste. Como resolver isso?
Prodi
Na Itália, nosso grande esforço tem sido o de atrair
para o sul do país uma nova geração de empreendedores,
de modo que a região possa crescer pelas suas próprias
forças, sem depender de favores do governo central. No
passado, esse tipo de assistencialismo só contribuiu
para o enriquecimento e a perpetuação no poder de
determinados grupos, sem propiciar benefício real à
população. É uma mudança que não se faz de uma hora
para outra. Exige muito tempo e uma boa dose de
solidariedade nacional.
Veja
Como o
senhor espera angariar solidariedade nacional quando uma
frente, liderada por Umberto Bossi, tenta convencer as
províncias mais ricas do norte a se separar da Itália e
criar um novo país, a República da Pandânia?
Prodi
Esse movimento é constituído de aventureiros da
política. O separatismo não tem a menor chance de ir
adiante. É um absurdo pensar em dividir a Itália num
momento em que os países europeus estão empenhados em
abolir suas fronteiras e criar uma moeda comum. Uma das
reformas atualmente em discussão no Parlamento prevê a
transformação da Itália numa federação. As regiões
serão mais autônomas para criar leis e decidir
questões fiscais e orçamentárias. As reformas também
prevêem a diminuição do número de cadeiras no
Parlamento central e a criação de casas legislativas
regionais. Presidente e primeiro-ministro serão
escolhidos em eleições diretas. Tudo isso vai mudar a
face política do país, reforçar o poder de
representação de cada região e esvaziar a idéia de
separatismo.
Veja
Antes de
virar primeiro-ministro, o senhor levava uma vida
bastante tranqüila como professor universitário. Como
tem sido sua experiência na política?
Prodi
Política é, por definição, uma atividade difícil.
Ninguém está nela a passeio. É nesse terreno que os
interesses mais poderosos e contraditórios da sociedade
se confrontam. Tenho enfrentado algumas dificuldades, mas
nenhuma que não pudesse superar. Além disso, minha
experiência não foi puramente acadêmica. Dirigi por
bastante tempo a IRI, uma holding de empresas estatais,
de onde lançamos o programa de privatização hoje em
andamento. Tive de aprender a negociar e, às vezes, a
contrariar muita gente. Foi uma boa escola que, agora, me
tem sido útil no governo. A Itália nunca havia passado
por um período de reformas tão profundas. Tenho
procurado fazer tudo com muita calma. Política é mais
uma questão de paciência do que de experiência. Quando
há disposição para ouvir e negociar, não tem segredo.
Veja
O senhor
também praticava ciclismo e corrida de longa distância.
Tem conseguido manter esses hobbies?
Prodi
Tenho, sim, embora com menos freqüência. Todo sábado
de manhã pego minha bicicleta e vou passear em algum
lugar calmo. Evidentemente, nunca em Roma, onde não há
espaço nem seria possível fazer isso. A única
diferença é que já não posso pedalar sozinho. Estou
sempre acompanhado de seguranças e assessores. É o
mínimo que posso fazer para não deixar que a vida no
poder fique muito monótona.
Veja
Quando o
senhor assumiu o cargo, em 1996, muita gente apostava que
o seu governo cairia em alguns meses devido à sua pouca
experiência na política. Qual é o segredo de sua
sobrevivência?
Prodi
Há uma diferença fundamental entre este governo e os de
meus antecessores. No passado, os eleitores nunca sabiam
direito o que esperar do governo. Primeiro se compunha o
novo gabinete para, só depois, informar o país sobre o
programa que se pretendia seguir. Nós fizemos o oposto.
Fui eleito numa coalizão de partidos com propósitos
muito claros. O eleitor que nos apoiou sabia exatamente o
que esperar do nosso governo. Ninguém foi surpreendido
por uma mudança de rumo no meio do caminho. Isso tornou
meu governo muito mais estável do que os anteriores. É
uma mudança e tanto. Nossa longa história de
instabilidade tinha deixado o italiano comum muito
cético em relação aos políticos e às próprias
instituições. As reformas que estamos fazendo agora
eram necessárias havia muito tempo, mas foram adiadas
com mentiras e falsas promessas. Recuperar a confiança
desse eleitor médio é vital. A única maneira de
conseguir isso é cumprir o prometido.
Veja
A aliança
que sustenta o seu governo inclui ex-comunistas, que no
passado queriam estatizar tudo, e ex-democrata-cristãos,
que durante quarenta anos beneficiaram-se da máquina do
governo italiano. Como o senhor pretende reformar o
Estado com esse tipo de aliados?
Prodi
Como você bem observou, são todos ex alguma coisa. E os
meus aliados estão mais para ex-socialistas ao estilo
sueco e alemão do que para comunistas soviéticos. A
democracia cristã é um fenômeno muito forte na
política italiana, tem até hoje cerca de 40% do
eleitorado e nem todos os democrata-cristãos podem ser
apontados ou confundidos com usurpadores da máquina do
Estado. Meu governo baseia-se numa coalizão homogênea,
de centro esquerda, com idéias coerentes a respeito do
futuro do país.
Veja
Numa
reportagem recente da revista The Economist, Giovanna
Melandri, liderança do PDS, um dos partidos que o
apóiam, dizia que o senhor sabe lidar bem com a máquina
do governo, mas é ingênuo na política. O que o senhor
tem feito para provar o contrário?
Prodi
O
que é ser ingênuo na política? Se for agir com
austeridade e honestidade, então sou ingênuo mesmo.
Minha receita é simples. Eu nunca quis ser um Maquiavel,
como muitos dos meus antecessores pretenderam ser.
Ninguém os acusou de serem ingênuos, mas seus governos
caíram um após o outro, numa sucessão de instabilidade
que marcou profundamente a imagem política da Itália.
Posso ser ingênuo, mas até agora as coisas deram certo
e estou durando mais que os outros. Espere e verá. Esse
é o meu lema.
Copyright © 1997, Abril
S.A. |