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Música O regente francês
Yan Pascal Tortelier assume
No mês passado, a demissão do maestro John Neschling levantou dúvidas sobre o futuro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Apesar de suas trombadas com o conselho da Fundação Osesp e com os músicos, não há como negar que Neschling, em seus doze anos à frente da orquestra, consolidou-a como o mais respeitável grupo sinfônico brasileiro. Os partidários do maestro sugeriam que, com a saída de Neschling, a qualidade da orquestra poderia se perder. Tudo indica que não será assim. A orquestra não se resume ao seu diretor artístico: é formada por bons músicos, que deram prova de talento sob o comando de outros regentes. E o francês Yan Pascal Tortelier, substituto de Neschling, deve trazer a ela um atributo fundamental: leveza. A Osesp é conhecida por tocar forte, com vigor às vezes excessivo. Esse recurso até funciona na execução de compositores como Beethoven e Mahler, mas é péssimo para peças de Debussy ou Ravel, que requerem mais suavidade. Tortelier tem a sensibilidade exigida pelo repertório francês, uma de suas especialidades. Nas duas semanas em que esteve à frente da Osesp como regente convidado, em 2008, fez com que a orquestra flutuasse. "Com John Neschling, soávamos pesados. Tortelier nos deixou graciosos", diz um integrante da orquestra. O contrato de Neschling vigoraria até o fim de 2010, mas o maestro brasileiro caiu em desgraça após várias declarações públicas infelizes, nas quais desancou músicos, desafetos e até aliados. No início de janeiro, dez dias antes da demissão oficial de Neschling, Tortelier foi convidado por membros do conselho da Osesp a ser o novo regente titular pelo menos pelas próximas duas temporadas. Aceitou a oferta prontamente. "Fui seduzido pela qualidade dos músicos e pela oportunidade de dirigir uma orquestra latino-americana pela primeira vez em minha vida", disse, em entrevista a VEJA. Na reformulação geral que se seguiu, o chileno Victor Hugo Toro, que atuava como regente assistente, também foi demitido, e Tortelier mudou o repertório da temporada 2009, que começa nesta quinta-feira. O maestro francês vai reger oito concertos neste ano o restante da programação será preenchido por convidados (veja quadro).
Os músicos da Osesp ficaram contentes com a mudança. Neschling seguia a tradição do maestro-ditador, que distribui carraspanas nos ensaios. Essa figura do maestro divino, que teve o seu exemplo mais acabado no austríaco Herbert von Karajan, já não encontra tanto espaço no cenário musical, dominado por regentes mais "democráticos", como o inglês Simon Rattle e o holandês Bernard Haitink. Tortelier tem um estilo afável. Isso não quer dizer que não seja um regente enérgico. "O maestro tem de passar confiança para a orquestra. É claro que muitas vezes tive de brigar com músicos para mostrar minha vontade. Porém, jamais elevo o tom de voz", diz. A Osesp é a orquestra mais rica do país. Tem um orçamento anual próximo a 68 milhões de reais (43 milhões do governo do estado e 25 milhões provenientes de assinaturas, vendas de bilhetes e patrocinadores). Yan Pascal Tortelier não é um regente do primeiríssimo escalão, mas é certamente um nome respeitado. É filho de Paul Tortelier, violoncelista que ficou conhecido pelo virtuosismo e pelas convicções políticas: nos anos 60, recusou-se a tocar nos Estados Unidos, em protesto contra a Guerra do Vietnã. Yan Pascal começou seus estudos musicais aos 4 anos e uma década depois se tornou um violinista de renome. "Gravei discos, mas me sentia frustrado. Nunca me satisfiz apenas com o violino", diz. Suas primeiras experiências na regência se deram na Orquestra de Toulouse, como assistente do maestro Michel Plasson. Em 1992, assumiu a direção artística da Filarmônica da BBC, de Manchester, cargo que manteve até 2003. Divorciado, pai de dois filhos, Tortelier também foi diretor artístico da Sinfônica de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e regeu grandes orquestras, como a Sinfônica de Londres e a Royal Concertgebouw, de Amsterdã. "É um maestro competente, culto e de um carisma impressionante", diz o crítico musical Norman Lebrecht. Mais importante, Tortelier reúne qualidades para fazer a Osesp avançar com leveza.
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