BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2102

4 de março de 2009
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
SEÇÕES
Carta ao Leitor
Entrevista
Leitor
Millôr
Blogosfera
PANORAMA
Imagem da Semana
Holofote
SobeDesce
Conversa
Números
Datas
Radar
Veja Essa
 

Maílson da Nóbrega
Por que o Brasil não quebra

"O Brasil poderia ter aproveitado a bonança mundial
se preconceitos ideológicos não tivessem retardado
investimentos privados em infraestrutura e as reformas
não houvessem minguado"

A crise não deve quebrar o Brasil, mas o presidente Lula diz que tem gente torcendo para que isso aconteça. Deve ser algum lunático ou um político imbecil a imaginar que é bom herdar o caos. O discurso do presidente cheira a teoria conspiratória para sensibilizar certas plateias.

Convencionou-se dizer que um país quebra quando não consegue honrar compromissos de sua dívida externa. É o resultado de erros de política econômica ou da chamada "parada súbita" de fluxos externos. Isso ocorreu com o Brasil várias vezes: na República Velha, no período Vargas, na quadra democrática de 1946-1964 e no regime militar.

Sustado o pagamento da dívida, seguem-se discussões difíceis com os credores, que podem durar anos. O pior desses episódios, o de 1982, teve várias fases até ser concluído, em 1993. Em 1987, numa dessas fases, o novo governo civil decretou uma inconsequente moratória unilateral. Realçou a quebra do país (que vinha do regime militar) e declarou que não tinha intenção de pagar. O erro tem reflexos até hoje.

A partir dos anos 1990, as quebras se tornaram raridade. Houve apenas duas: Rússia (1998) e Argentina (2001). A maioria dos países tem gestão macroeconômica responsável, evitando as crises externas de origem interna. Os gigantescos apoios do Fundo Monetário Internacional (FMI) impediram quebras via "paradas súbitas". Antes, o acordo máximo havia chegado a 6 bilhões de dólares. Em 1994, o do México inaugurou a nova realidade: mais de 50 bilhões de dólares.

A essa dupla melhoria seguiu-se uma terceira: a combinação, particularmente a partir de 2003, do crescimento espetacular da China com um vigoroso ciclo de prosperidade mundial. Países emergentes que antes quebravam se beneficiaram do aumento da demanda e dos preços de suas commodities. O Brasil ganhou mais por ser também forte exportador de produtos manufaturados.

Esses países passaram a produzir superávits externos e a acumular robustas reservas internacionais. Todos, inclusive o Brasil, pagaram a dívida com o FMI. Lula explorou politicamente o fato perante um público pouco informado e avesso ao Fundo. Teria sido um ato de coragem do presidente, que "mandou embora o FMI".

Ato efetivo de coragem foi abandonar as ideias equivocadas do PT e manter a política econômica herdada do antecessor. A continuidade preservou o processo de amadurecimento das mudanças institucionais introduzidas por governos anteriores, das quais proveio o tripé que constituiu a barreira contra a maré da crise: metas para a inflação, câmbio flutuante e superávits fiscais primários.

O Brasil poderia ter aproveitado melhor a bonança mundial se preconceitos ideológicos não tivessem retardado investimentos privados em infraestrutura – como os de energia e transporte rodoviário – e as reformas não houvessem minguado no atual governo. Mesmo assim, a estabilidade macroeconômica permitiu que tivessem curso a elevação do potencial de crescimento e a acumulação de robustas reservas internacionais.

Ao contrário de crises passadas, esta encontrou os países emergentes menos vulneráveis. Nenhum quebrou até agora, apesar da gravidade e da duração da turbulência. O Brasil não é exceção nem deve isso apenas ao atual governo, como se tenta fazer crer.

A estabilidade política, a política econômica crível – com destaque para o Banco Central – e o pagamento regular da dívida nos tornaram um risco relativamente menor. Isso é claro no prêmio de risco dos papéis brasileiros, medido pelo banco J.P. Morgan. No início de 2003, ainda sob os efeitos do "pânico Lula" (o medo de retrocesso), o prêmio era de 1.443 pontos básicos (cada 100 pontos equivalem a 1 ponto porcentual acima da taxa de juros de títulos do Tesouro americano), 89% pior do que a média dos países emergentes.

Em abril de 2007, o prêmio igualou a média e em dezembro caiu para 163 pontos. Já era 7,5% melhor do que a média. Com a crise, agora supera os 400 pontos, mas piorou menos do que o dos outros países. É 35% melhor do que a média. Maiores pioras: Equador, Venezuela e Argentina, nessa ordem. Alguma pista?

O Brasil quebra se houver uma guinada na política econômica, mas Lula é contra essa maluquice. Assim, o risco de irmos para o beleléu é muito baixo.

Maílson da Nóbrega é economista



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |