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Isabeau
Christine, 84 quilos, 1,70 metro: dança flamenca, colesterol o.k. e pressão ótima |
| Foto: Alvaro Povoa/ Produção Alla Strelkow |
A moça da foto acima é gorda. Alguém
discorda? Aos 24 anos, a dançarina de flamenco Isabeau
Christine tem 1,70 metro de altura e 84 quilos. É muito?
Depende. A tomar por exemplo a silhueta impossivelmente
longilínea da modelo australiana Elle MacPherson,
apelidada "O Corpo", ou o perfil famélico da
inglesa Kate Moss, o manequim 50 de Isabeau é uma
afronta aos padrões estéticos vigentes. Não seria se
fosse 30 quilos mais magra. Diante do espelho, no
entanto, ela se sente bem. Saúde ameaçada? Há menos de
um mês, Isabeau procurou um médico. Amigos e parentes
assustavam-na com a insistência de que tecido adiposo em
excesso é um risco de vida. Seguiam uma linha de
raciocínio que, desde a década de 50, relaciona o
acúmulo de gordura a males cardíacos, hipertensão,
diabete, colesterol alto, pedras na vesícula, cânceres
de mama, útero, ovário e cólon e disfunções
hormonais. A lista é apavorante. Exemplos como o de
Isabeau, cuja bateria de exames revelou pressão,
colesterol e açúcar no sangue normais, estão levando a
medicina a tentar entender melhor a partir de que momento
alguns quilos a mais representam uma verdadeira ameaça
à saúde. Um polêmico estudo da Universidade da
Carolina do Norte, nos Estados Unidos, acaba de mostrar
que o peso moderadamente acima do normal tem pouco a ver
com um incremento nas taxas de risco de morte prematura.
O trabalho é uma espécie de Lei Áurea para os
gordinhos. Põe a questão da obesidade no lugar certo:
um problema estético que se converte em mal orgânico
apenas se em excesso, ou quando acompanhada de
sedentarismo e doenças pré-existentes. A seguir, as
atuais conclusões da medicina sobre a gordura. Saúde,
Isabeau!
Que se faça aqui a diferença entre
gordos e obesos. Pesadas são pessoas com índice de
massa corpórea (IMC) entre 25 e 30 (veja quadro). Obesas, as que apresentam IMC
superior a 30. Além dos fatores de risco
mencionados acima, a forma como a gordura se distribui no
corpo conta, e muito, no grau de perigo a que os
moderadamente pesados estão expostos. As mulheres,
apesar de tradicionalmente mais gordas, correm menos
riscos do que os homens. Sua gordura, em vez de se
concentrar principalmente na barriga, como nos homens,
tende a se acumular sobretudo nas coxas, nas nádegas,
nos quadris e nos seios. Nos homens, o tecido adiposo em
geral se deposita entre as alças intestinais. A
conseqüência é dramática. Os barrigudos apresentam
três vezes mais risco de desenvolver diabete e doenças
cardiovasculares.
A redenção da
gordura moderada aconteceu porque os médicos perceberam
lacunas metodológicas fundamentais nas estatísticas que
relacionavam o peso dos pacientes aos índices de
mortalidade. "A gordura virou o único vilão numa
história que está cheia de bandidos", diz o
cardiologista Sérgio Diogo Giannini, diretor do setor de
prevenção do Instituto do Coração de São Paulo. Os
bandidos a que se refere o doutor Giannini vão desde o
sedentarismo e a classe social até a genética. A
inatividade física, por exemplo, se associa a 35% das
doenças cardiovasculares fatais, a 35% das mortes por
diabete e a 32% dos óbitos por câncer de colo. O
Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos avaliou
que a prática regular de exercícios reduz em até 60% a
probabilidade de uma mulher vir a ter câncer no seio. Um
estudo recente da Universidade de Michigan mostra que uma
pessoa com parentes próximos vítimas de infarto tem 50%
mais de risco de sofrer um ataque repentino do coração.
Ou seja, muitas vezes o obeso morre porque leva vida
sedentária ou tem propensão genética
e não, simplesmente, porque é obeso.
É claro que a gordura excessiva faz mal à saúde. O estudo da Universidade da Carolina do Norte, publicado na revista The New England Journal of Medicine, é muito rigoroso em relação às pessoas com índices de massa corporal superior a 30. Os pesquisadores anotaram que, para IMCs além de 32, a incidência de mortes prematuras chega a duas vezes mais do que em relação a indivíduos com IMC até 27.
Do ponto de vista do padrão estético
vigente, chega a existir um gabarito para o corpo ideal
é o que seguem as agências de modelos na hora de
recrutar candidatas. Perfeita é a silhueta longilínea,
ossuda, levemente esculpida com alguns músculos. Do
ponto de vista médico, é bem diferente. Segundo o
endocrinologista e professor da Universidade de São
Paulo Alfredo Halpern, o que existe, para cada
indivíduo, é o "peso factível", ou
"peso mínimo saudável". Não se sabe ao certo
o que é mais importante na determinação desse peso.
Alguns pesquisadores sugerem que ele seja estabelecido
nos primeiros anos de vida, como uma resposta à
disponibilidade de alimentos. Outros acham que mais
importante do que o fator ambiental é a herança
genética.
Não é difícil identificar esse peso. Qualquer pessoa que já tenha entrado numa dieta alimentar rigorosa percebe que perder os primeiros quilos é fácil. A partir de um ponto determinado, os esforços para emagrecer começam a surtir menos efeito. Esse é o chamado "peso factível". Emagrecer além dele pode significar uma obediência ao padrão estético, mas sacrifica a natureza do organismo, entrando no terreno do risco à saúde. Os médicos sabem que não se pode mudar esse limite. Não adiantam exercícios físicos, dietas ou os dois juntos. As drogas até conseguem "enganar" a natureza. Mas o efeito delas dura apenas enquanto forem ingeridas. Depois, tudo volta ao que era antes.
Em geral, sim. Entre os 30 e os 60 anos,
homens e mulheres tendem a ganhar uma média de 4 quilos
por década. Isso acontece porque o metabolismo fica mais
lento, ou seja, queima mais lentamente as calorias que
ingere. A aparência flácida que as pessoas ganham com o
passar dos anos não é resultado apenas desse fenômeno.
Dois outros também contribuem. O primeiro é a perda de
massa muscular. O segundo fator, mais presente entre as
mulheres, é a descalcificação óssea. Como os
músculos e ossos pesam mais do que a gordura, e são
eles que estão indo embora, o ganho em peso de 3 a 4
quilos na verdade corresponde a um incremento na massa
gordurosa bem maior. Calcula-se que chegue a 7 ou 8
quilos. Por isso os médicos são tão enfáticos ao
recomendar exercícios físicos. A atividade física
compensa também a queda nos níveis metabólicos com a
queima extra de calorias.
O corpo é natureza, e na natureza não
existe filosofia, estética, moda. O que existe é a
programação para a sobrevivência. Nesse caso, a mente
e o corpo operam em registros opostos. Um indivíduo pode
decidir que o melhor para si é privar-se da quantidade
de alimentos a que está habituado, para emagrecer. Seu
corpo entende que corre o risco de perecer de fome. Para
se prevenir, de um lado, reduz os níveis de atividade
metabólica, de forma a economizar o estoque de energia.
De outro, aumenta a eficiência com que absorve as
calorias dos poucos alimentos que ingere. É por isso que
95% das pessoas que emagrecem muito depois de uma dieta
acabam recuperando todos os quilos perdidos em pouco
tempo
fenômeno conhecido por
"efeito ioiô". Quando o período do regime
acaba, e volta-se a ingerir a quantidade normal de
alimentos, os níveis metabólicos baixos seguem
garantindo a estocagem extra de calorias.
Em busca do corpo saudável e não necessariamente do corpo que se julga perfeito, a briga contra a balança não requer medidas drásticas. Perder 10% do peso total é o suficiente para acabar com os efeitos deletérios da gordura. O coração hiperatrofiado diminui de tamanho. Nove em cada dez hipertensos voltam a apresentar pressão normal. Durante o sono, o número de paradas respiratórias cai para menos da metade. Ao se livrar de 13 quilos, um homem de 1,70 de altura e 130 quilos, por exemplo, continua na categoria dos obesos. Mas deixa de sofrer dos males da obesidade. "Antes, só ficaríamos contentes se esse paciente passasse a pesar 70 quilos", diz o doutor Halpern. "O objetivo de luta mudou."
Obesidade é tendência genética que se
combina com fatores externos, como o sedentarismo e a
quantidade de alimentos ingerida. Para demonstrar que
existe mesmo a propensão inata, o médico canadense
Claude Bouchard, da Universidade Laval, em Quebec,
manteve doze pares de gêmeos idênticos internados por
100 dias. Alimentou a todos com a mesma dieta
hipercalórica. Controlou o nível de atividade física.
Quando receberam alta, os 24 rapazes estavam mais gordos.
Mas em níveis diferentes. Alguns tinham ganho apenas 3
quilos. Outros, até 12 quilos. Dentro de cada dupla de
irmãos, porém, os incrementos de gordura foram
semelhantes. Isso é genética.
Por muitos anos, os médicos atribuíram a obesidade a um caráter desmazelado, preguiçoso e auto-indulgente. As pesquisas genéticas estão livrando pelo menos alguns gordos dessas pechas. A mais decisiva foi a que descobriu uma proteína no sangue, a que se chamou de leptina, responsável por avisar ao cérebro a hora de parar de comer. Os cientistas notaram que alguns ratos gordos possuíam um defeito genético que impedia a produção dessa substância e, por isso, os animais só paravam de comer quando não havia mais comida à disposição. No final do ano passado foi encontrada a primeira família humana portadora do mesmo problema. Como nos ratos, a falta da leptina conduziu a quadros de obesidade. Não dá, no entanto, para culpar apenas a genética. Engordar é antes de mais nada fruto de uma economia energética. Quem come muito e não gasta caloria engorda mesmo. Tendo ou não predisposição para a obesidade.
Ninguém acha que é rica demais ou magra
demais, zombam as socialites americanas. Pesquisas feitas
nos EUA confirmam que um sujeito 10 quilos mais pesado do
que outro recebe pelas mesmas funções, no final do ano,
12.000 dólares menos de salário. No mercado de
casamentos, os gordos também levam a pior. Um estudo da
Universidade Harvard mostrou que as mulheres obesas têm
20% menos chance de conseguir um marido em relação às
magras. A neurose coletiva por perder peso não é à
toa, como se vê. "Os médicos são procurados por
mais gente que não precisa mas quer perder peso do que
por quem realmente necessita emagrecer por causa da
saúde", afirma o endocrinologista Alfredo Halpern.
Em alguns casos, a preocupação beira a insanidade.
Fora os quadros extremos de anorexia e bulimia, distúrbios que atingem no máximo 3% das mulheres jovens, o emagrecimento excessivo tem conseqüências orgânicas sérias e pouco divulgadas. Uma delas é o descontrole hormonal. Mulheres submetidas a dietas rigorosas passam a apresentar dificuldade para engravidar. O corpo interpreta a falta de alimento como uma ameaça à vida do indivíduo. O cérebro ordena, então, que o organismo suspenda a atividade reprodutiva para evitar perdas desnecessárias de energia. Dietas drásticas podem também alterar o sistema imunológico por causa das deficiências nutricionais, como a falta de zinco, que baixam a produção de anticorpos. Além disso, a perda excessiva de peso é fator de risco para a formação de pedras na vesícula. Num organismo privado de comida, as substâncias produzidas na vesícula para digestão dos alimentos perdem a utilidade. Concentradas no órgão, viram pedras.
Um pouco mais de prazerSatanizadas nas últimas três décadas como o principal inimigo da boa saúde num prato de comida, as gorduras ganharam uma trégua com a divulgação de novas pesquisas das universidades Harvard e de Washington. O armistício não é irrestrito. Mas já é um alívio saber que alguns dos pratos mais saborosos podem ser degustados sem pânico. Alguns dos pontos principais:
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