|
|
![]() |
| Foto: Alvaro Povoa |
É uma batalha que
exige privações e sofrimento. Quase 60% das
entrevistadas fazem dieta para perder peso. Abriram mão
da sensação de saciedade e não conseguem olhar sem
culpa para um bolo de chocolate. Uma em cada quatro
submete-se a tratamentos médicos para emagrecer, muitos
deles à base das famosas "bolinhas", as
anfetaminas. A luta tem um lado mais sombrio do que o
corte da feijoada de sábado. As drogas que sabotam a
fome também aumentam os níveis de irritação,
dificultam o sono e atrapalham qualquer trabalho que
exija concentração. O nível de ansiedade do usuário
atinge o grau máximo e chega-se a trincar os dentes de
nervoso. Uma em cada cinco entrevistadas disse já se ter
submetido a intervenções cirúrgicas na forma de
plásticas ou lipoaspirações. Não é preciso perguntar
a motivação de tanto sacrifício. Qual é a mulher que
não quer ser mais bonita, mais magra, consertar um
defeitinho, ainda que imaginário? O mesmo questionário
já havia sido aplicado à população americana pela
revista Psychology Today, com resultados
análogos. Seis em cada grupo de dez entrevistadas
também se declararam insatisfeitas com a própria
aparência. Dessas, 89% queriam emagrecer. O
impressionante, em ambos os casos, é o grau de
insatisfação revelado pelas pesquisas. O anseio, tão
compreensível, de melhorar a aparência eventualmente
atinge níveis de desvario. Uma em cada seis das
entrevistadas americanas daria mais de cinco anos de sua
vida para ter o que imagina ser o peso ideal. Morreria
jovem e magra
que felicidade!
É um paradoxo. Nunca a humanidade pôde
comer tanto e nunca quis comer tão pouco. Por quê? As
duas hipóteses mais em voga professam que: 1) a medicina
condena os excessos adiposos, logo, emagrecer é um
imperativo da boa saúde; 2) há uma conspiração da
indústria da beleza, da moda, da publicidade, do cinema
e da televisão para impor o padrão "magrela"
e, assim, conseguir vender remédios, roupas, matrículas
em academias de ginástica, pagar honorários em
clínicas de cirurgia plástica e spas de emagrecimento.
Sobre a primeira hipótese, fala a psiquiatra Angélica
Azevedo, coordenadora do Programa de Transtornos
Alimentares da Universidade Federal de São Paulo:
"Não se pode culpar a medicina pelos padrões de
beleza dos anos 90. Nas sociedades ocidentais, o corpo
definido como esteticamente perfeito é bem mais leve do
que o preconizado pelos cientistas como ideal de
saúde". Estudos americanos revelam que essa
diferença já chega a 20%. Do ponto de vista de um
endocrinologista sério, uma mulher de 1,75 metro,
pesando 64 quilos, não tem o que fazer num consultório.
Sob a ótica do modelo de beleza vigente, contudo, ela é
gorda. Estaria em forma se, ao subir na balança, esta
lhe fizesse o elogio secretamente ansiado: 55 quilos.
Não é de saúde, pois, que se trata.
Estética
da magreza
A outra hipótese, aquela segundo a qual há uma
conspiração da indústria da beleza, da moda e do
cinema para impor um padrão de beleza, é uma conhecida
bandeira das feministas. Essa hipótese se baseia em
alguns argumentos razoáveis. Uma organização
não-governamental americana chamada About-Face, em
defesa da imagem das mulheres gorduchas
os Estados Unidos têm disso
,
reuniu num único trabalho os resultados de várias
pesquisas sobre como o sexo feminino é abordado pela
estética da magreza. Alguns deles:
Em 1992,
as revistas americanas destinadas a mulheres estampavam
10,5 vezes mais artigos relacionados a dietas e perda de
peso do que as masculinas.
69% dos
personagens femininos das séries de televisão são
magros, contra apenas 17,5% dos homens. As mulheres
gordas são apenas 5% do total, enquanto os homens
gordos, 26%
No Brasil, mais pobre em estatísticas, parece ser assim também. Tente-se lembrar de uma gorda televisiva que não seja Claudia Jimenez, a comediante que interpretava a caricata empregada Edileusa, do programa Sai de Baixo, ou Silvia Poppovic. É difícil. Já homens gordos aparecem em todas as novelas. Fica muito fácil, no entanto, citar mulheres com corpos espetacularmente esguios: Carolina Ferraz, Adriane Galisteu, Silvia Pfeifer, Lavinia Vlasak, Malu Mader e outras tantas beldades magras.
Mas essa hipótese da conspiração, que
carrega um traço de paranóia e tem o defeito de reduzir
uma questão complexa a mera batalha em torno do lucro,
também não se sustenta. O argumento irretorquível da
psiquiatra Angélica Azevedo: "Existe mesmo uma
indústria da magreza, ela fatura alto, é verdade. Mas
também existe uma indústria de alimentos que fatura
alto, e ninguém em sã consciência diria que é a
indústria que cria a fome". Xeque-mate. E volta-se
à velha questão: por que a gordura corporal se tornou
uma obsessão moderna?
"Dois fatores
se combinam para responder à questão. O primeiro é
que, de fato, nunca a humanidade foi tão gorda, em que
pese a existência de alguns focos de fome epidêmica,
como na África. O outro é que nunca houve tamanha
veiculação dos modelos de beleza, o que dispara uma
verdadeira corrida em direção ao ideal estético",
resume o endocrinologista Alfredo Halpern, da
Universidade de São Paulo. Gravados nas moléculas do
DNA, por força da seleção natural, estão os momentos
de fome angustiante pelos quais a humanidade passou em
estiagens prolongadas, congelamentos súbitos, pragas
devastadoras, escassez de caça. Só os que tinham
programas genéticos para acumular calorias
leiam-se gorduras
sobreviveram, transmitindo essa característica para as
proles. Eles engordavam nos tempos de abundância e
torravam os excessos nos períodos de escassez. Por
200.000 anos, gerações e gerações de homens e
mulheres viveram muito bem com esse mecanismo de
estocagem de energia. Mais recentemente, o homem aprendeu
a plantar, desenvolveu técnicas de adubagem, colheita,
armazenagem e conservação de suprimentos. A
produtividade do solo foi multiplicada por vinte, contra
um crescimento vegetativo da população de cerca de seis
vezes, resultando numa oferta constante de comida que
não tem precedente na longa caminhada do homem sobre o
planeta. O comércio e a indústria também contribuíram
para aumentar a quantidade e variedade dos alimentos,
colocados agora à disposição das pessoas em templos do
consumo chamados supermercados. Só que a espécie
humana, do ponto de vista genético, não foi feita para
viver nessa fartura.

"A biologia
humana ainda reflete um estilo de vida baseado na caça e
na coleta, como o que existia no nosso passado
paleolítico", diz Halpern. "A epidemia de
obesos da época atual resulta do choque entre essa
natureza e a cultura de afluência em que vivemos."
Estudos entre populações atuais que ainda vivem da
coleta e da caça não registram casos de obesidade, o
que leva a crer que esse problema virtualmente inexistiu
para nossos antepassados. Enquanto isso, dados do
Ministério da Saúde dos Estados Unidos mostram que, de
1980 para hoje, o número de americanos com sobrepeso
saltou de 25% da população para 34%. São 58 milhões
de gordinhos, gordos e gordões, movidos a hambúrgueres,
bacon e batatas fritas, muitas vezes pateticamente
acompanhados do selo fat free
sem gordura. Os dados brasileiros também apontam nesse
sentido: no mesmo período, o número de mulheres gordas
cresceu 40% e o de homens, 30%. No total, o país acumula
cerca de 30 milhões de indivíduos com gordura extra,
dos quais 7 milhões considerados obesos segundo os
padrões médicos. São motivos de sobra para que
legiões afluam aos consultórios e academias para
emagrecer.


"Falência
moral"
Bombardeio
de imagens A existência de
cânones de beleza não é, portanto, o que singulariza
os tempos atuais. A feminista americana Naomi Wolf
(autora de O Mito da Beleza) notou que o traço
peculiar da época é que a mulher comum de antes da
Revolução Industrial, confinada aos trabalhos
domésticos e à vida social limitada ao bairro,
possivelmente nunca experimentou o sentimento da mulher
moderna em relação à beleza. "Esta vive o mito da
beleza como uma contínua comparação com um ideal
físico amplamente difundido." Wolf explica:
"Antes da invenção de tecnologias de produção em
massa
|