Cinema
ONDE O MAL COMEÇA
Em O Leitor, as
várias facetas da "culpa alemã" na
história de um jovem que descobre ter sido amante
de uma guarda de campo de concentração

Isabela Boscov
Divulgação
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FOMOS TÃO FELIZES
Kate e Kross em seu idílio
de leitura
e erotismo: o medo do inocente de que dentro de si haja
um culpado |

Em 1958, na cidade
alemã de Neustadt, o garoto Michael, de 15 anos, conhece
uma mulher mais velha e começa com ela um caso. Só
depois de vários encontros ele descobre que ela se
chama Hanna e isso, mais o fato de que ela trabalha
como condutora de bonde, é tudo que ele sabe. Abrutalhada
pelo cotidiano, na intimidade Hanna é capaz de uma
sensualidade intensa e de prazeres inesperados. Adora, por
exemplo, que Michael leia para ela, de Goethe a tramas policiais,
em serões que servem de prelúdio ao sexo. Certo
dia, Hanna some. Oito anos mais tarde, Michael a revê:
ao acompanhar como estudante de direito um julgamento polêmico,
ele constata que ela é uma das rés. Seu nome
completo é Hanna Schmitz e, durante a II Guerra, alistada
na SS, a força de elite nazista, ela foi guarda de
um campo de concentração. Todas as semanas,
ela e as outras cinco acusadas escolhiam as mulheres que seriam
executadas. A repulsa de Michael logo se tornará ainda
mais profunda. Hanna admite que, sim, ela e as cinco colegas
deixaram que 300 mulheres morressem queimadas, trancadas dentro
de uma igreja que ardia. "Por que não abriram
as portas?", pergunta o juiz, aturdido. "Pela razão
óbvia", responde Hanna o trabalho dos guardas
é guardar, diz ela, não deixar que seus prisioneiros
escapem e se espalhem. O Leitor (The Reader,
Estados Unidos/Alemanha, 2008), que estreia nesta sexta-feira
no país, se desdobra sobre as duas facetas do estado
de culpa em que a Alemanha se lançou no pós-guerra:
a culpa (ou ausência dela, no caso de Hanna) dos que
foram responsáveis pelas atrocidades do nazismo ou
preferiram ignorá-las; e a culpa, paradoxalmente mais
sincera e tingida de vergonha, dos que se misturaram ao horror
sem nem o saber (como Michael).
Uma
reflexão instigante apenas não bastaria para
recomendar um filme. Mas O Leitor envolve, antes de
mais nada, pelos seus componentes de drama, romance e suspense,
herdados do livro publicado em 1995 pelo advogado e filósofo
alemão Bernhard Schlink. Um best-seller mundial (que
agora volta em boa tradução de Pedro Süssekind,
pela editora Record), o romance desperta o interesse por Hanna
por insinuar que a personagem guarda um segredo que ela considera
mais terrível do que seu passado nazista um
segredo que determinará sua condenação
e a ligará para sempre a Michael. A opção
do diretor inglês Stephen Daldry por Kate Winslet é,
assim, o pivô desta adaptação: poucas
atrizes sabem tão bem como calcular um desempenho até
os seus mínimos pormenores físicos e psicológicos
e então ocultá-los, projetando emoções
que parecem nascidas do momento. Na atuação
de Kate, Hanna é tão mais elusiva quanto mais
se sabe sobre ela, e não é difícil compreender
que Michael (na adolescência, vivido por David Kross)
mergulhe nela como se estivesse descobrindo o mundo. Ou que,
adulto (na interpretação nada alemã,
e inglesa demais, de Ralph Fiennes), ele não se canse
de puni-la pela traição. Não que seu
fascínio por ela diminua: em seu verdadeiro papel,
o de uma Alemanha confrontada com os crimes da geração
anterior, Michael enxerga em Hanna não apenas o horror,
mas também o mistério desse horror, com
todo o misto de medo e excitação que os mistérios
costumam provocar.
AS
INDICAÇÕES
Filme
Direção Stephen Daldry
Atriz Kate Winslet
Roteiro adaptado
Fotografia
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É quase certo que, em algum
momento de O Leitor, o espectador se desequilibre
pode ser aquele em que percebe a potência erótica
que Hanna ainda irradia na fase de seu julgamento, ou o ponto
em que a compaixão por ela se avoluma. Diante do que
uma sobrevivente diz a Michael (numa grande cena da sueca Lena
Olin), nutrir pena por alguém que foi tão hediondo
é obsceno mas é quase impossível
também não se comover com o fim cruel de Hanna.
Esse é o fio da navalha sobre o qual O Leitor
caminha: ao mesmo tempo em que usa o holocausto como artifício
para um drama pessoal, lembra que o mal que suas vítimas
tiveram de suportar começou com a desumanização
das pessoas comuns, para que elas fossem metamorfoseadas em
algozes. Essa, enfim, é a origem da "culpa alemã"
o terror de todo Michael de que possa ter dentro de si
uma Hanna.