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A VELHICE REABILITADA (?) A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude também é passageira. A velhice, sim. Quando um cara fica velho é pro resto da vida. E cada dia fica mais velho. Neste momento em que, afinal, aparecem algumas mulheres defendendo a preservação das rugas, repudiando botóquicis e cirurgias redeformantes, repito a minha posição desde os 20 anos de idade, quando comecei a envelhecer. Defendi isso, entre outros lugares, no álbum do fotógrafo gaúcho Robinson ACHUTTI e no roteiro de Últimos Diálogos, que escrevi para, e com a supervisão de, Walter SALLES
Mas sinto também, nessa foto, condolência e admira-ção, uma percepção reserva-da a muito poucos, a revelação do negativo da beleza. Olho nesses olhos que são os meus, e é como se eles me dissessem: "Qualquer idiota pode ser jovem. Em poucos anos se consegue isso. Mas caras jovens são fotograficamente aflitivas. Não têm biografia. Chapas sem emulsão. Lisas. Pois é preciso muito tempo para envelhecer. E muito talento. O su-premo talento da sobrevivência".
Eu gostava, muito, meu orgasmo era observar a servidão das pessoas à ditadura do gostar. Por que gostar? O que é gostar? Eu detestava detesto! classes. Gregos, troianos, assírios, sergipanos, grã-finos, militares, acadêmicos e, mais que tudo, intelectuais. E não falo de falsos intelectuais. Falo dos de verdade. Inteligentes, finos, perspicazes, criativos. Falo dos mais admiráveis que saco! São os piores. Quando não têm drama eles arranjam, os dramas antigos eles conservam, relembram sempre, os que existem, ampliam, esmiúçam. A humanidade é muito mais feliz do que os intelectuais descrevem. A tragédia é apenas um ou outro momento da história, em um ou outro pedaço da geografia. Num instante menor de uma vida humana. Tem gente que nasce, vive 70 anos e morre sem o gozo e a glória de um instante dramático. MARÍLIA Morre feliz? GONZAGA Por aí. Só não consegui me libertar de gostar... dos velhos. Não consegui me livrar dos velhos. (Aponta, num canto, um pôster de Bertrand Russell.) Aos poucos, com o passar dos anos, eles vieram vindo. Começaram a me atrair, me atraem, estão em mim mesmo. Agora, coisa que não acontecia antes, gosto de mim. (CLOSE. Olha fixo na câmera, um tempo, como se estivesse se olhando num espelho.) Jamais me passaria dizer como aquele escritor, medíocre, aliás, esqueci o nome, que escreveu aquele romance... Esqueci também. (Bate na testa.) Como é mesmo o nome dele? MARÍLIA Com esses dados é impossível saber. GONZAGA Somerset Maugham! Aos 90 anos disse: "Tenho horror de olhar no espelho essa minha cara chinesa". O coitado não aprendeu nada. Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento pra envelhecer. Tudo que viveram está escrito nas sombras e desvãos das velhas fisionomias. Pessoas de 70, 80 anos, são epopeias fisionômicas. Caras jovens são aflitivas. Lisas. Não guardam nada. Que saco Henry Fonda moço, John Wayne moço, como a gente vê agora a toda hora na televisão, mostrando a sua fugidia juventude. Eu me amo, agora. (Absolutamente frio.) E eu te amo agora, mais do que naquele momento em que, vendo você partir, descobri isso.
"Não
achávamos que houvesse hipocrisia em praticar nossas
excentricidades num silêncio decente."
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