Carta ao Leitor
O dia em que o governo sumiu
Ricardo
Stuckert/AE
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| Naquela mesa
A crise poderá não
dar uma segunda chance se a coordenação
do governo existir apenas nesta foto |
Enquanto o titular
viajava pelo norte da África, o sub do Ministério
do Desenvolvimento achou que era hora de dar uma guinada de
180 graus na orientação oficial brasileira de
comércio exterior e decidiu tomar uma medida protecionista
radical. O funcionário resolveu exigir licença
prévia para importação de 60% dos itens
da pauta brasileira de compras externas, algo como 3 000 produtos.
O ministro viajante não foi informado, o da Fazenda
tomou conhecimento pelos jornais e o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva só soube o que estava em curso quando
chegaram a seus ouvidos avaliações dos efeitos
desastrosos sobre o coração da atividade produtiva
do país. A loucura durou 48 horas. Ela foi suspensa
por ordem do presidente Lula, que a classificou de "um
erro fenomenal". Resolvido? Longe disso.
É muito bom
que o presidente tenha agido rapidamente, mas a situação
toda é um péssimo sinal de falta de diretrizes,
coordenação, clareza e linha de comando na Esplanada
dos Ministérios. Absorvido pela missão que se
colocou de viabilizar a candidatura de Dilma Rousseff, ministra-chefe
da Casa Civil, o presidente Lula a inclui em quase todas as
suas viagens, que, como se sabe, são de duração
e frequência incomparáveis na história
republicana brasileira. Se o governo fica à deriva
sem Lula e Dilma por perto, o país tem um problema
sério. O quadro é alarmante se tomado como um
teste da prontidão do governo brasileiro para enfrentar
com rapidez e acerto os desafios propostos pela atual crise
financeira mundial. Está-se diante de um sorvedouro
de riqueza de causas complexas, abrangência profunda,
diagnóstico confuso e tratamento desconhecido. É
uma falha sistêmica cuja virulência se avoluma
a cada dia. Esse fenômeno tem potencial para desestabilizar
até mesmo as economias mais sadias, como, sem dúvida,
é o caso da brasileira. Toda a atenção
é pouca. Não é aceitável agora
baixar a guarda, seja qual for a razão alegada para
isso. Um momento de desgoverno nesta hora grave pode ser fatal.