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Edição 2098

4 de fevereiro de 2009
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Carta ao Leitor
O dia em que o governo sumiu

Ricardo Stuckert/AE
Naquela mesa A crise poderá não dar uma segunda chance se a coordenação do governo existir apenas nesta foto

Enquanto o titular viajava pelo norte da África, o sub do Ministério do Desenvolvimento achou que era hora de dar uma guinada de 180 graus na orientação oficial brasileira de comércio exterior e decidiu tomar uma medida protecionista radical. O funcionário resolveu exigir licença prévia para importação de 60% dos itens da pauta brasileira de compras externas, algo como 3 000 produtos. O ministro viajante não foi informado, o da Fazenda tomou conhecimento pelos jornais e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só soube o que estava em curso quando chegaram a seus ouvidos avaliações dos efeitos desastrosos sobre o coração da atividade produtiva do país. A loucura durou 48 horas. Ela foi suspensa por ordem do presidente Lula, que a classificou de "um erro fenomenal". Resolvido? Longe disso.

É muito bom que o presidente tenha agido rapidamente, mas a situação toda é um péssimo sinal de falta de diretrizes, coordenação, clareza e linha de comando na Esplanada dos Ministérios. Absorvido pela missão que se colocou de viabilizar a candidatura de Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, o presidente Lula a inclui em quase todas as suas viagens, que, como se sabe, são de duração e frequência incomparáveis na história republicana brasileira. Se o governo fica à deriva sem Lula e Dilma por perto, o país tem um problema sério. O quadro é alarmante se tomado como um teste da prontidão do governo brasileiro para enfrentar com rapidez e acerto os desafios propostos pela atual crise financeira mundial. Está-se diante de um sorvedouro de riqueza de causas complexas, abrangência profunda, diagnóstico confuso e tratamento desconhecido. É uma falha sistêmica cuja virulência se avoluma a cada dia. Esse fenômeno tem potencial para desestabilizar até mesmo as economias mais sadias, como, sem dúvida, é o caso da brasileira. Toda a atenção é pouca. Não é aceitável agora baixar a guarda, seja qual for a razão alegada para isso. Um momento de desgoverno nesta hora grave pode ser fatal.



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