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Ponto
de vista: Marcos Sawaya Jank
Alca:
girassol
ou margarida?
"A
Alca foi sendo esvaziada
pelo desinteresse
dos EUA
e por sentimentos
antiamericanos
no
governo e na sociedade
brasileira"
Representantes do Brasil e de outros 33 países estarão
reunidos em Puebla, no México, nesta semana, para uma das
reuniões mais cruciais desde o início das negociações
da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
No último encontro, ocorrido em Miami, em novembro de 2003,
os negociadores acertaram que os países poderão, individualmente,
assinar acordos de amplitude geográfica e temática
variáveis com os parceiros que se interessarem. O objetivo
da reunião desta semana é justamente definir o tamanho
e o formato do futuro bloco. Puebla deverá, assim, determinar
se a Alca será um "girassol", com um núcleo comum
pesado e algumas pétalas no formato de acordos bilaterais
ou plurilaterais, ou se será apenas uma "margarida", com
um núcleo comum pequeno e pétalas maiores. Se o denominador
comum da Alca não for convincente, vários países
poderão simplesmente desinteressar-se do processo em favor
de outros arranjos menos abrangentes, que atendam mais facilmente
a seus interesses imediatos.
Ilustração Ale Setti
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A Alca foi sendo paulatinamente esvaziada em virtude do relativo
desinteresse dos Estados Unidos pela América Latina e por
sentimentos antiamericanos que têm aflorado no governo e na
sociedade civil brasileira. A decisão de Miami representou
um recuo significativo porque o Brasil aceitou princípios
que combateu arduamente no início das negociações.
Caso em Puebla prevaleça a idéia de uma "margarida"
definhante, há grande risco de que todo o processo desande,
o que poderá levar o reativo acordo Mercosul-União
Européia para o mesmo marasmo. Enquanto isso, a roda dos
acordos bilaterais continuará se movendo nas Américas,
um caminho difícil que, dependendo de nosso desempenho, poderá
criar ou deslocar comércio, investimentos e empregos. Trata-se,
sem sombra de dúvida, de um intrigante jogo de xadrez, no
formato de partidas simultâneas que são jogadas individualmente
ou em grupos. O próximo lance, que é definir se iremos
ou não movimentar as peças dentro de uma abstrata
estratégia denominada Alca, será decidido a partir
desta segunda-feira em Puebla.
Na realidade, o que está em jogo é o já clássico
conflito entre três opções de inserção
internacional que não são necessariamente excludentes:
o multilateralismo, que envolve negociações com um
número grande de países, o regionalismo amplo, como
o exemplo da União Européia, e o bilateralismo, que
envolve acordos apenas entre duas nações. Centenas
de estudos mostram que o multilateralismo é a melhor opção.
Desde 1947, os países engajaram-se num ambicioso processo
de liberalização comercial recíproca e definição
de regras sistêmicas nas oito rodadas sucessivas de negociação
do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt), que, em
1995, se transformou na Organização Mundial de Comércio
(OMC). Ocorre, porém, que a OMC tem avançado lentamente,
por causa da enorme complexidade de negociar dezenas de temas com
148 países-membros com interesses fortemente distintos.
Na última década, o Brasil decidiu deixar temporariamente
de lado sua tradicional visão autárquica e defensiva
e engajou-se na negociação de dois megaprojetos de
causar inveja: a Alca e o acordo entre Mercosul e União Européia.
O objetivo básico era firmar acordos equilibrados que nos
ampliassem o acesso a mercados de produtos fortemente protegidos
(principalmente os agronegócios, têxteis, calçados
e automóveis) e corrigissem arbitrariedades como o uso de
subsídios agrícolas e a imposição de
barreiras não-tarifárias. Para tanto, decidimos defender
arduamente alguns princípios básicos de negociação.
O primeiro foi a regra de que "nada está resolvido até
que tudo esteja resolvido", em contraposição à
idéia de acordos setoriais que seriam fechados à medida
que fossem concluídos. O objetivo era deixar tudo em aberto
para poder fazer e exigir concessões. Isso tudo para ter
um pacote final equilibrado. O segundo princípio era aquele
que estipulava que a Alca seria um bloco único com velocidade
e regras uniformes. Tentávamos com isso combater o enorme
poder de fogo dos EUA sobre um grande número de países
muito pequenos e pouco exigentes do continente. Esses dois princípios
foram por água abaixo. A escolha agora é entre a margarida
e o girassol.
Marcos Sawaya Jank é presidente do Instituto de Estudos
do Comércio
e Negociações Internacionais Icone (www.iconebrasil.org.br)
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