Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O bom americano
e a prostituta

Uma história em que os princípios
e sentimentos certos se recusam
a ficar no lugar certo

Jornalista em princípio deve limitar-se a relatar. Não deve interferir na notícia. Às vezes, no entanto, acontece. Aconteceu com o jornalista americano Nicholas D. Kristof, colunista do The New York Times, enquanto se dedicava, há dias, no Camboja, a uma reportagem sobre o tráfico de mulheres. De repente, no meio de uma entrevista com uma prostituta de 17 anos, no vilarejo de Poipet, conhecido por seus bordéis, ocorreu-lhe perguntar: "Você gostaria de ir embora?" As meninas, em Poipet, são como escravas dos agentes para os quais trabalham. Dependem deles para tudo, e só podem deixar o bordel acompanhadas de um vigilante. Kristof conseguira entrar no bordel fazendo-se de cliente. Aos poucos foi ganhando a confiança da moça. "Isto é um inferno", comentou ela. Sim, claro que gostaria de ir embora – mas isso custaria dinheiro. Cento e cinqüenta dólares. Kristof entendeu-se com quem de direito, pagou, ganhou em troca um recibo de pagamento "pela liberdade de uma garota" e ei-lo, em vez de apenas levantando a história de uma personagem, mudando o curso de sua vida.

Kristof acabou comprando a liberdade não de uma, mas de duas jovens prostitutas. Nas últimas duas semanas, contou como isso aconteceu, numa série de artigos. Essa que lhe custou 150 dólares foi a primeira, e até a semana passada seu caso ia bem. Ela voltara para a família e, com outros 100 dólares oferecidos pelo jornalista, armou uma banca de venda de comida. Mais complexa é a segunda história, a de Srey Mom, de 18 anos. Quando Kristof propôs comprar-lhe a liberdade, ela levou um susto. "É inacreditável", disse, com um sorriso "que parecia iluminar a rua". Srey Mom informou que sua liberdade custava 70 dólares. Ela valia bem menos do que a outra, primeiro porque era uma prostituta havia já quatro anos no metiê, e segundo porque tinha a pele escura. Enquanto pela primeira jovem a clientela pagava 13 dólares, com Srey Mom a sessão ficava por 2,5 dólares.

Na verdade, na hora de acertar com a dona do bordel, revelou-se que o preço da liberdade não seriam 70 dólares, mas 400. Era quanto a jovem teria feito de dívida com a casa – e observe-se de passagem que, tal qual nas fazendas que exploram o trabalho escravo no Brasil, uma maneira de manter as jovens presas é cumulá-las de dívidas. Seguiu-se uma barganha, e afinal estipulou-se em 203 dólares o preço da liberdade de Srey Mom. Fechado o negócio, a dona do bordel, a quem suas meninas chamavam de "mãe", acendeu incenso e rezou por ela no altar budista armado na entrada do estabelecimento, ao mesmo tempo que aconselhava a jovem a não recair na prostituição. Para desconcerto de quem imagina que mal é mal e bem é bem, branco é branco e preto é preto, eis a nuance de uma dona de bordel – e senhora de escravas – solícita e carinhosa com a pupila que a abandona.

Srey Mom fugira de casa, aos 14 anos, porque brigava muito com a mãe. Num ponto de ônibus encontrou uma mulher que a encaminhou para seu primeiro bordel. O dono do bordel banhou-a com suco de abacaxi, o que supostamente lhe clarearia a pele, e "vendeu sua virgindade", por bom preço, a um homem de negócios – essa primeira noite custa sempre caro. Quatro anos depois, no carro com Kristof, que a levava de volta para a casa dos pais, ela se mostrava ansiosa. A família a receberia bem? A mãe a recepcionaria com abraços ou com uma surra? Enfim, ao chegar à sua aldeia – alívio. Srey Mom foi recebida por uma tia que se jogou em seus braços. Vizinhos e outros membros da família deram-se às mesmas expansões. Apareceram enfim o pai e a mãe e a jovem atirou-se de joelhos diante deles, pedindo perdão. Eles disseram que até haviam encomendado uma cerimônia fúnebre, na suposição de que a filha tivesse morrido. Alegremente, eles a perdoaram. Kristof, como tinha feito com a outra, adiantou-lhe 100 dólares, para ela abrir um pequeno negócio – e assim foi, ou melhor, assim poderia ter sido, não fosse que... Não fosse que poucos dias depois Srey Mom brigou com a mãe e correu de volta ao bordel.

Talvez Kristof, o americano correto, que não se contentou em fazer a reportagem, mas pretendeu enriquecê-la com um desvio em direção ao bem, tenha sido trapaceado. Trapaça maior, porém, é deste mundo, que se recusa a aceitar a ordem justa, os princípios e sentimentos certos no lado certo, e os errados no lugar errado, e em vez disso oferece donas de bordel, dublês de senhoras de escravo, a quem as pupilas chamam de mãe, e mães a quem as filhas vêem como inimigas. A Srey Mom pode estar reservada, além de uma vida de opressão e escárnio, uma morte, de Aids, aos 20 e poucos anos. Isso não a impede de sentir mais conforto no bordel que na família, assim como muitas crianças brasileiras de rua, a quem a morte espreita igualmente, se sentem melhor fora do que dentro de casa, e muitos jovens dos grotões brasileiros da pobreza se sentem mais prestigiados entre quadrilhas de criminosos. Tudo muito confuso, muito fora de lugar.

 
 
 
 
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