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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
O
bom americano
e a prostituta
Uma
história em que os princípios
e sentimentos certos se recusam
a ficar no lugar certo
Jornalista
em princípio deve limitar-se a relatar. Não deve interferir
na notícia. Às vezes, no entanto, acontece. Aconteceu
com o jornalista americano Nicholas D. Kristof, colunista do The
New York Times, enquanto se dedicava, há dias, no Camboja,
a uma reportagem sobre o tráfico de mulheres. De repente,
no meio de uma entrevista com uma prostituta de 17 anos, no vilarejo
de Poipet, conhecido por seus bordéis, ocorreu-lhe perguntar:
"Você gostaria de ir embora?" As meninas, em Poipet, são
como escravas dos agentes para os quais trabalham. Dependem deles
para tudo, e só podem deixar o bordel acompanhadas de um
vigilante. Kristof conseguira entrar no bordel fazendo-se de cliente.
Aos poucos foi ganhando a confiança da moça. "Isto
é um inferno", comentou ela. Sim, claro que gostaria de ir
embora mas isso custaria dinheiro. Cento e cinqüenta
dólares. Kristof entendeu-se com quem de direito, pagou,
ganhou em troca um recibo de pagamento "pela liberdade de uma garota"
e ei-lo, em vez de apenas levantando a história de uma personagem,
mudando o curso de sua vida.
Kristof
acabou comprando a liberdade não de uma, mas de duas jovens
prostitutas. Nas últimas duas semanas, contou como isso aconteceu,
numa série de artigos. Essa que lhe custou 150 dólares
foi a primeira, e até a semana passada seu caso ia bem. Ela
voltara para a família e, com outros 100 dólares oferecidos
pelo jornalista, armou uma banca de venda de comida. Mais complexa
é a segunda história, a de Srey Mom, de 18 anos. Quando
Kristof propôs comprar-lhe a liberdade, ela levou um susto.
"É inacreditável", disse, com um sorriso "que parecia
iluminar a rua". Srey Mom informou que sua liberdade custava 70
dólares. Ela valia bem menos do que a outra, primeiro porque
era uma prostituta havia já quatro anos no metiê, e
segundo porque tinha a pele escura. Enquanto pela primeira jovem
a clientela pagava 13 dólares, com Srey Mom a sessão
ficava por 2,5 dólares.
Na
verdade, na hora de acertar com a dona do bordel, revelou-se que
o preço da liberdade não seriam 70 dólares,
mas 400. Era quanto a jovem teria feito de dívida com a casa
e observe-se de passagem que, tal qual nas fazendas que exploram
o trabalho escravo no Brasil, uma maneira de manter as jovens presas
é cumulá-las de dívidas. Seguiu-se uma barganha,
e afinal estipulou-se em 203 dólares o preço da liberdade
de Srey Mom. Fechado o negócio, a dona do bordel, a quem
suas meninas chamavam de "mãe", acendeu incenso e rezou por
ela no altar budista armado na entrada do estabelecimento, ao mesmo
tempo que aconselhava a jovem a não recair na prostituição.
Para desconcerto de quem imagina que mal é mal e bem é
bem, branco é branco e preto é preto, eis a nuance
de uma dona de bordel e senhora de escravas solícita
e carinhosa com a pupila que a abandona.
Srey
Mom fugira de casa, aos 14 anos, porque brigava muito com a mãe.
Num ponto de ônibus encontrou uma mulher que a encaminhou
para seu primeiro bordel. O dono do bordel banhou-a com suco de
abacaxi, o que supostamente lhe clarearia a pele, e "vendeu sua
virgindade", por bom preço, a um homem de negócios
essa primeira noite custa sempre caro. Quatro anos depois,
no carro com Kristof, que a levava de volta para a casa dos pais,
ela se mostrava ansiosa. A família a receberia bem? A mãe
a recepcionaria com abraços ou com uma surra? Enfim, ao chegar
à sua aldeia alívio. Srey Mom foi recebida
por uma tia que se jogou em seus braços. Vizinhos e outros
membros da família deram-se às mesmas expansões.
Apareceram enfim o pai e a mãe e a jovem atirou-se de joelhos
diante deles, pedindo perdão. Eles disseram que até
haviam encomendado uma cerimônia fúnebre, na suposição
de que a filha tivesse morrido. Alegremente, eles a perdoaram. Kristof,
como tinha feito com a outra, adiantou-lhe 100 dólares, para
ela abrir um pequeno negócio e assim foi, ou melhor,
assim poderia ter sido, não fosse que... Não fosse
que poucos dias depois Srey Mom brigou com a mãe e correu
de volta ao bordel.
Talvez
Kristof, o americano correto, que não se contentou em fazer
a reportagem, mas pretendeu enriquecê-la com um desvio em
direção ao bem, tenha sido trapaceado. Trapaça
maior, porém, é deste mundo, que se recusa a aceitar
a ordem justa, os princípios e sentimentos certos no lado
certo, e os errados no lugar errado, e em vez disso oferece donas
de bordel, dublês de senhoras de escravo, a quem as pupilas
chamam de mãe, e mães a quem as filhas vêem
como inimigas. A Srey Mom pode estar reservada, além de uma
vida de opressão e escárnio, uma morte, de Aids, aos
20 e poucos anos. Isso não a impede de sentir mais conforto
no bordel que na família, assim como muitas crianças
brasileiras de rua, a quem a morte espreita igualmente, se sentem
melhor fora do que dentro de casa, e muitos jovens dos grotões
brasileiros da pobreza se sentem mais prestigiados entre quadrilhas
de criminosos. Tudo muito confuso, muito fora de lugar.
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