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Governo
Dirceu em semana de regente
O
ministro da Casa Civil, José Dirceu,
incorpora, na ausência de Lula,
o papel de chefe de governo

Alexandre
Oltramari
Fotos Luiz Antonio
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José
Dirceu: reunião com ministros, posse e palpites
na
área econômica
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Na
semana passada, o Brasil viveu uma situação curiosa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava em viagem oficial
ao exterior. Diz a Constituição que, na ausência
do presidente, o vice é o responsável pela administração
do governo. Mas não foi isso que se viu. O presidente em
exercício, José Alencar, cumpriu uma agenda miúda,
quase provinciana. Recebeu prefeitos e vereadores do interior de
Minas Gerais, despachou com assessores e até enviou um projeto
de lei ao Congresso para conceder uma pensão vitalícia
aos parentes dos fiscais do trabalho assassinados em serviço.
Muito diferente do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu,
que distribuiu diretrizes, prometeu reformular a administração
pública, foi ao Congresso, deu palpite sobre projetos polêmicos
e fez incursões em temas delicados de competência de
técnicos da área econômica. Era como se o país,
de repente, tivesse três presidentes ao mesmo tempo, um fora
cuidando de política externa, um presidente em exercício
sem funções relevantes e, por fim, um ministro com
prerrogativas de regente em pleno exercício de suas funções
executivas.
Um presidente brasileiro que governou há um século,
Rodrigues Alves, disse uma frase interessante sobre os poderes dos
ministros. "O ministro faz tudo o que quer, menos o que o presidente
não quer", afirmou Alves. José Dirceu é exatamente
assim. Faz tudo o que quer, menos o que Lula não quer. Dão-se
muito bem porque há pouca chance de atrito entre eles. Lula
está mais preocupado em reformar o mundo. Numa viagem ao
exterior, disse que o Brasil poderia liderar um movimento para refazer
a geografia do comércio mundial. Em outra ocasião,
sugeriu a criação de um imposto mundial sobre a venda
de armas para financiar programas contra a fome em âmbito
planetário. Já que implantou o Fome Zero no Brasil,
por que não um Fome Zero Globalizado? Já Dirceu pensa
mais na solução dos desafios práticos do dia-a-dia
do governo.
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| O
vice, José Alencar: agenda miúda com prefeitos e vereadores
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Antes
de embarcar para a Índia, Lula chamou o ministro Dirceu em
seu gabinete e, informalmente, transferiu-lhe o comando. Num sistema
presidencialista, cabe exclusivamente ao presidente da República
a tarefa de escolher e nomear ministros, estabelecer as diretrizes
dos ministérios e supervisionar seu cumprimento. Lula delegou
essas missões a José Dirceu. Foi ele quem, em nome
do presidente e por sua ordem, montou o xadrez da reforma ministerial,
demitiu e articulou os novos nomes, distribuiu tarefas e vai fiscalizá-las.
"Ele é o primeiro-ministro", ironizou o petista Cristovam
Buarque, demitido do Ministério da Educação.
Em conversas reservadas, Cristovam diz que sua administração
sempre esbarrou na resistência da Casa Civil. Segundo o magoado
Cristovam, ele não conseguia fazer seus projetos andarem
na área de influência de José Dirceu. Dirceu
nunca concordou com esse tipo de definição de seus
poderes e sempre que pode deixa claro quem é o verdadeiro
chefe. Diante das críticas recebidas de Cristovam, o chefe
da Casa Civil ironizou: "Olha que o presidente me demite lá
da Índia". Cristovam foi demitido pelo telefone durante uma
viagem que fazia a Lisboa. Lula queria esperar sua volta, mas Dirceu
insistiu que não havia tempo.
Logo no primeiro dia de sua semana longe de Lula, José Dirceu
afirmou que neste ano "temos 3 ou 4 pontos de taxa de juros para
baixar". Depois, mostrou-se a favor do projeto que amplia para o
Amapá e outras áreas da Região Norte os benefícios
da Zona Franca de Manaus idéia de que o Ministério
da Fazenda não quer nem ouvir falar. Dirceu também
advertiu empresários que estão remarcando preços.
Enquanto o ministro Antonio Palocci considera que os aumentos de
preço em janeiro são passageiros e não causam
preocupação, Dirceu preferiu avisar aos empresários
que o governo não vai tolerar remarcações.
No início de janeiro, uma declaração de José
Dirceu sobre a autonomia do Banco Central já havia criado
certo mal-estar com a área econômica. Em uma entrevista,
ele disse que o governo poderia discutir o projeto de autonomia,
mas isso não significava que a proposta seria enviada ao
Congresso. A autonomia do BC é defendida pelo ministro da
Fazenda, Antonio Palocci. Dirceu explicou depois que foi mal interpretado.
Na semana passada, Lula, da Índia, retomou o assunto. "Autonomia
do Banco Central é uma inquietação de teses
acadêmicas", disse. "Quero um Banco Central sério,
que não faça aventura. E isso nós já
temos." Ou seja: Lula e Dirceu estão falando a mesma língua,
um aqui e o outro na Índia.
Rafael Neddermeyer/AE
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| O
senador Cristovam Buarque: "Ele é um primeiro-ministro" |
Na reforma ministerial de uma semana atrás, José Dirceu
perdeu formalmente as atribuições de articulador político,
funções entregues ao novo ministro Aldo Rebelo, e
ficou encarregado pelo presidente da gerência da máquina
federal. Na verdade, Dirceu continua mandando tanto quanto antes.
Lula não tem muita paciência para tocar o dia-a-dia
e delegou essas funções ao ministro de sua confiança.
José Dirceu parece às vezes preocupar-se com as versões
que circulam sobre o tamanho de seu poder. A lealdade entre ele
e Lula é, no entanto, tão grande que a preocupação
do ministro é possivelmente mais formal do que real. Tudo
o que faz é combinado nos bastidores com o chefe. Recentemente,
Dirceu fez questão de pôr em curso uma história
sobre a limitação de sua autonomia. O chefe da Casa
Civil havia se comprometido com a cúpula do PMDB a entregar
dois ministérios ao partido. Segundo a versão que
o próprio Dirceu se encarregou de espalhar, Lula vetou o
acordo, desautorizando-o publicamente. Com essa história
divulgada, o governo conseguiu empurrar até onde pôde
a entrada do PMDB no governo e, mesmo assim, ainda conseguiu apoio
nas votações mais importantes do Congresso. Dirceu
costuma dizer que não gosta da fama de poderoso porque isso
o deixa vulnerável no campo político. Parece empenhar-se
continuamente em parecer menor do que realmente é.
Já
o vice-presidente... Durante a semana, José Alencar participou
de duas cerimônias oficiais e concedeu treze audiências
públicas. A terça-feira só não foi um
dia perdido porque estava agendado um encontro com João César
Novaes, que vem a ser o chefe de gabinete do prefeito de Juiz de
Fora, Tarcísio Delgado, do PMDB. Na quarta-feira, o dia foi
mais agitado. Houve três audiências. Uma com a bancada
de seu partido, o PL, outra com o deputado petista Virgílio
Guimarães. Para fechar o dia, Alencar recebeu o deputado
Welington Fagundes, do PL, acompanhado de uma comitiva de quinze
prefeitos de Mato Grosso. Estavam em busca de 4 milhões de
reais para combater o efeito das chuvas em sua região. Sobre
a liberação desses 4 milhões para combater
a inundação, diz Selso Lopes, prefeito de Água
Boa: "O presidente (José Alencar) foi muito solícito.
Falou que iria conversar com o José Dirceu para ver se dá
para liberar o dinheiro".
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