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Entrevista:
Denys
Arcand
O
começo do fim
Para
o diretor de As Invasões Bárbaras,
o mundo como o conhecemos está prestes
a acabar e dar lugar a uma nova Idade Média

Isabela
Boscov
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AP

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"De
certa forma, éramos todos marxistas ou feministas, e
sinto que temos uma certa nostalgia dessas crenças –
ou apenas de ter crenças"
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Morte,
desilusão, filosofia, muitos diálogos: não
parece ser uma receita de popularidade. Mas, com esses temas, As
Invasões Bárbaras acaba de ser indicado ao Oscar
de produção estrangeira e virou um sucesso do circuito
alternativo em todo o mundo o maior da carreira de seu diretor,
o canadense Denys Arcand, de 62 anos. No Brasil, o filme encetou
um pequeno fenômeno: fez lotar salas também para o
relançamento de O Declínio do Império Americano,
de 1986, do qual As Invasões Bárbaras é
uma espécie de continuação. No primeiro filme,
um grupo de intelectuais se reunia para um fim de semana no campo
e discutia de tudo, a começar (e terminar) por sexo. Em Invasões,
os mesmos personagens se reencontram, mas para se despedir de um
deles, Rémy, que está à morte. Enquanto Rémy
se reconcilia com seu filho e os amigos relembram um ardor ideológico
que não têm mais, Arcand evoca uma sensação
que pode muito bem estar na raiz da receptividade a seu filme: a
de que vivemos numa civilização prestes a ruir. Da
província de Quebec, onde nasceu, mora e trabalha, o ex-católico
e ex-marxista Arcand falou a VEJA sobre os caminhos que, a seu ver,
a sociedade ocidental está trilhando.
Veja
As Invasões Bárbaras fala de morte e desilusão,
mas é o maior sucesso de toda a sua carreira. A que o senhor
atribui essa receptividade do público?
Arcand Não tenho muita certeza. Nunca se sabe
quando o sucesso vai acontecer, ou se ele vai acontecer. O que posso
dizer ao certo é que esse é o primeiro filme que faço
que está repleto de emoção. É uma experiência
inteiramente nova para mim. A primeira cena a ser filmada foi aquela
em que a filha do personagem de Rémy Girard diz adeus a seu
pai de um barco, via satélite. Quando a atriz começou
a dizer suas falas, caí no choro o que é surpreendente,
porque, tendo eu mesmo escrito o roteiro, eu sabia o que ela ia
dizer. Não saberia explicar nem qual é a natureza
dessa emoção. Quando voltei ao meu escritório,
mostrei a cena à minha equipe, e todos choraram também.
Do começo ao fim das filmagens, nos mantivemos todos nesse
estado emocional, a ponto de os atores questionarem o rumo das coisas.
Se o público não entrar no espírito do filme,
eles diziam, vamos todos parecer ridículos. Felizmente
apesar de haver pessoas que detestam As Invasões Bárbaras
, o público parece ter entrado em sintonia conosco.
Veja
O senhor não acha que talvez o sentimento de desilusão
presente no filme, e de mágoa pelo tempo que se perde e não
pode ser recuperado, faz com que a platéia se relacione de
forma mais íntima com As Invasões Bárbaras?
Arcand Sim, e isso vale especialmente para as pessoas
da minha geração. Trata-se de um relato muito pessoal
de tudo aquilo em que acreditávamos nos anos 60 e 70. De
certa forma, éramos todos marxistas ou feministas, e sinto
que temos uma certa nostalgia dessas crenças ou de
ter crenças , ainda que essa nostalgia venha temperada
pela satisfação de ver que as amizades resistiram
às mudanças. No fundo, esse é um filme sobre
mim e os meus amigos.
Veja
Há alguma coisa em que o senhor acreditava nos
anos 60 que tenha resistido ao teste do tempo e da história?
Arcand Sim: a minha crença em fazer filmes. Ao
contrário dos personagens de As Invasões Bárbaras,
que são todos intelectuais e nunca fizeram nada de verdadeiramente
prático, eu sempre tive o cinema. Quando o marxismo era moda,
eu fazia documentários sobre operários, e creio que
eles permanecem válidos. Rémy, por outro lado, nem
sequer escreveu o livro que tanto planejou, o que é uma amargura
que ele enfrenta no fim da vida. Imagino que, no meu leito de morte,
também vou estar cheio de medo, mas pelo menos terei o conforto
de saber que, na minha carreira, fiz o melhor que pude, e provavelmente
terei mais paz do que ele.
Veja
Os personagens de As Invasões Bárbaras
sentem que estão vivendo no crepúsculo de uma civilização,
que está sob cerco cerrado. O senhor compartilha essa impressão
com eles?
Arcand Freqüentemente, quando as pessoas envelhecem
ou adoecem, elas são tomadas pelo sentimento de que o que
se seguirá a elas é um desastre, e que o mundo está
se aproximando do fim. Feita essa ressalva, acredito que aquilo
que chamamos de civilização ocidental, que se iniciou
na Renascença e da qual os Estados Unidos são o produto
hoje mais ilustrativo, está de fato chegando ao fim. Quando
contemplo o futuro, tenho um pressentimento estranho. Sinto, por
exemplo, que as pessoas não lerão mais e por
isso o personagem Sébastien, o filho de Rémy, nunca
abriu um livro na vida e não sabe o que é uma ideologia.
Na verdade, Sébastien não sabe nem o que é
uma idéia, e não se importa com isso. O que não
significa que ele não seja um ser humano decente, que cuida
de seu pai e procura amenizar o seu sofrimento. Mas os dois são
animais de espécies diferentes, por assim dizer.
Veja
Estaríamos então chegando ao fim do conhecimento?
Arcand De certa forma. Para onde o teatro pode prosseguir
depois de Samuel Beckett, por exemplo? Ou a pintura depois de Andy
Warhol, a música erudita depois de Schoenberg, ou a filosofia
depois de Heidegger e Wittgenstein? Não há nenhum
filósofo sério vivo no mundo neste momento. Estamos
assistindo ao fim da filosofia, da literatura, da arte, do teatro,
da música. Tudo está se acabando aos poucos, e estamos
rumando para algo completamente diverso. O mesmo vale para a política,
claro. O último grande sonho político foi o socialismo,
e ele se provou não exatamente errado, mas inviável.
Quando penso no futuro, sou assaltado por um grande vazio.
Veja
O senhor crê que esta civilização
deixará algum legado para o futuro?
Arcand Um legado imenso, de tudo o que produzimos e pensamos
no decorrer dos últimos séculos. Mas talvez as próximas
gerações venham a ser incapazes de apreciar essa herança.
Imagino que estamos nos aproximando de uma situação
comparável à da Idade Média, em que durante
centenas de anos os monges preservaram, em suas bibliotecas, um
conhecimento que só seria trazido de volta à luz muito
mais tarde.
Veja
Qual será a força dominante nessa nova Idade
Média, em sua opinião?
Arcand A questão é que não haverá
uma força dominante, mas sim guerras incontáveis e
infindáveis. Chegará o dia, como chegou para todos
os impérios, em que o império americano vai ruir.
Então, como o mundo medieval era dividido num sem-número
de cidades-Estado lideradas por senhores de guerra, nós nos
veremos também completamente desorganizados. E não
é improvável ainda que venhamos a guerrear com os
muçulmanos num novo ciclo de Cruzadas. Na verdade, essas
novas Cruzadas já estão em curso.
Veja
Essa queda, a seu ver, é um fato inescapável
da história, ou fomos nós, as gerações
mais recentes, que falhamos?
Arcand Creio ser um fato inevitável. Toda a civilização
ocidental foi construída sobre a cristandade. E, quando começamos
a questionar a existência de um ser supremo e nos afastamos,
intelectualmente, de nossas crenças, passamos a solapar os
alicerces de nossa sociedade. Hoje, se surge uma chance para roubar,
para transgredir, por que não fazê-lo? O único
risco que se corre é o de ser pego, já que, como sociedade,
não acreditamos mais na punição do inferno
e veja bem que não estou dizendo que devêssemos
acreditar no inferno, ou tentar voltar os ponteiros do relógio.
Mas mesmo nos tempos dos velhos capitalistas que construíram
a América, como os Rockefeller, os Morgan e os Vanderbilt,
havia uma bússola moral. Esses foram homens que exploraram
milhões de pessoas, mas eles eram cristãos que acreditavam
na honestidade e em trabalhar com respeito à lei americana.
Hoje essa bússola não existe mais. As corporações
são profundamente corruptas, como demonstra o escândalo
da Enron e os outros tantos que não param de surgir nos noticiários.
Quando isso acontece, é porque o fim está próximo.
Veja
O senhor foi educado numa família intensamente
religiosa, e então o senhor se tornou um marxista. Nesta
altura de sua vida, que peso têm essas influências?
Arcand Eu não diria que tenho admiração
pela religião em si, porque a história da Igreja é,
a meu ver, lamentável, com sua corrupção e
seu currículo de apoio a ditaduras. Mas admiro o princípio
da compaixão e da caridade que tantos cristãos praticam
e praticaram. De um ponto de vista bem pessoal, invejo a paz em
que meus pais morreram, com a convicção de que estavam
a caminho de encontrar seu Salvador uma convicção
que não tenho mais. Quanto ao panorama político, confesso
não ter a mínima idéia do que dizer. A meta
do marxismo, de que devemos trabalhar em prol de uma sociedade mais
justa, é algo em que ainda acredito. Mas como construir isso
na prática, sem as ditaduras, a corrupção,
os apparatchiks e a polícia política que sempre acompanharam
as experiências marxistas? Não creio que seja possível.
Veja
O senhor se sente bem, vivendo no Canadá?
Arcand Me sinto muito bem, o que não deixa de
ser terrível. O Canadá é um país incrivelmente
confortável, e isso é tudo que ele é. Vivemos
com tanto conforto que ainda vamos acabar morrendo disso. Veja,
por exemplo, o debate sobre a separação de Quebec
do resto do Canadá, que durou tantos anos. No final, todos
os argumentos giravam em torno do nosso conforto: vamos perder nossa
aposentadoria? O preço dos selos postais vai subir? O nosso
é um país rico e democrático, cujos únicos
inconvenientes são o clima siberiano neste momento,
a temperatura aqui está em 20 graus negativos e a
chatice. Somos o país mais tedioso do mundo. Definitivamente,
aqui no Canadá, escapamos daquela praga segundo a qual se
deseja a um desafeto que ele viva em "tempos interessantes"
ou seja, tempos de guerra, revolução e tumulto.
Veja
Em As Invasões Bárbaras, o senhor
faz uma apologia da eutanásia: o personagem de Rémy
abrevia o sofrimento de um câncer terminal com o apoio dos
amigos e da família ao passo que, há algumas
semanas, uma mulher francesa foi indiciada por ter ajudado seu filho
tetraplégico, cego e mudo a morrer.
Arcand A eutanásia é, junto com o aborto
e a pena de morte, uma dessas questões sociais que demandam
décadas de debates. Sou inteiramente a favor dela, mas não
creio que me resta tempo suficiente de vida para testemunhar a passagem
da eutanásia a uma prática legal embora, como
todos saibamos, ela seja feita todos os dias, em hospitais de todo
o mundo, como um ato de misericórdia sobre o qual todos silenciam.
A eutanásia é e será, por muito tempo, um tabu
de ordem religiosa: nossa vida não pertence a nós,
e sim a Deus e, por extensão, ao Estado. Mas acredito que
esse tabu será vencido. Na Holanda, por exemplo, que é
o país mais civilizado do mundo, a eutanásia já
foi legalizada. A morte de Rémy, entretanto, é a minha
visão de uma morte ideal. É assim que eu gostaria
de ir-me: num lugar belo, cercado por minha família e meus
amigos, no momento que me parecer mais adequado.
Veja
Seu filme parece sugerir que, já que tudo o mais
está falhando, cultivar e preservar os relacionamentos pessoais
é tudo a que se pode almejar hoje.
Arcand De fato, como não tenho mais esperanças
políticas, essa é a única sugestão que
tenho a dar. Isso e que se tente concretizar alguma paixão
pessoal pode ser tanto o cinema como uma coleção
de selos. Mas é preciso deixar algo.
Veja
E quanto aos filhos? Eles são um tema fundamental
de seu filme.
Arcand Vivi a maior parte de minha vida sem filhos, e
aos 55 anos de idade adotei uma menina. Não concebo mais
a vida sem ela, mas não acho que filhos sejam um fator essencial
para a felicidade. Algumas pessoas os têm e isso não
as torna menos insatisfeitas. No caso de As Invasões Bárbaras,
o relacionamento entre Rémy e seu filho tem mais a ver com
a minha própria experiência com meu pai. Meu pai desprezava
os filmes e o cinema, e durante toda a minha vida me foi impossível
obter dele algum tipo de reconhecimento ou encorajamento. Na opinião
dele, eu era um fracassado. Só no leito de morte ele cedeu
um pouco: O Declínio do Império Americano havia
sido lançado alguns meses antes, e várias pessoas
a quem ele respeitava insistiam com ele que eu havia conquistado
algo. Minha mãe também não entendia muito bem
minha opção. Na época em que comecei a dirigir
quase não havia cineastas no Canadá, e ela certamente
teria preferido que eu tivesse me ordenado padre.
Veja
A religião foi, em algum momento, um conforto para
o senhor, como foi para os seus pais?
Arcand Quando criança, eu era muito religioso.
Morávamos numa cidade pequena, onde todos iam à missa,
e a devoção era uma zona de segurança. Mas
então nos mudamos para Montreal, para uma casa que ficava
a um quarteirão da biblioteca municipal. Eu podia ler tudo
que quisesse, sem pagar nada. Comecei a devorar os livros
um artigo inexistente na minha casa e a me dar conta de que
existem outros pontos de vista possíveis. Um dia, quando
tinha uns 14 anos, perdi a missa de domingo. Fui andando para casa,
pensando que estava em pecado mortal e que, se fosse atropelado
por um ônibus, iria diretamente para o inferno. Então
percebi que isso não fazia muito sentido. Se eu parasse de
acreditar em Deus, eu iria odiar meus pais? Claro que não.
Eu iria roubar? Também não. Percebi que nada mudaria,
e daquele dia em diante nunca mais fui à missa.
Veja
No entanto, o senhor reencenou a vida de Cristo em 1989,
em Jesus de Montreal, um de seus filmes de maior sucesso.
Arcand A religião foi parte de mim por muito tempo,
e depois de O Declínio do Império Americano
achei que precisava fazer um balanço das minhas crenças,
e perceber até que ponto elas ainda me influenciavam.
Veja
Há uma cena em Jesus de Montreal em que
o ator que interpreta Cristo destrói um estúdio em
que um comercial está sendo filmado. A mídia representa,
para o senhor, a versão moderna dos vendilhões do
templo?
Arcand Dirigi alguns comerciais durante a minha carreira,
e eles sempre me causaram um bocado de desconforto moral. Acho que
pôr o talento a serviço de vender coisas de que as
pessoas não necessitam é um mau uso dele. O consumismo
tomou o lugar da fé. Mas minha religião é outra:
fazer os melhores filmes de que sou capaz.
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