Edição 1839 . 4 de fevereiro de 2004

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Entrevista: Denys Arcand
O começo do fim

Para o diretor de As Invasões Bárbaras,
o mundo como o conhecemos está prestes
a acabar e dar lugar a uma nova Idade Média


Isabela Boscov

AP

"De certa forma, éramos todos marxistas ou feministas, e sinto que temos uma certa nostalgia dessas crenças – ou apenas de ter crenças"

Morte, desilusão, filosofia, muitos diálogos: não parece ser uma receita de popularidade. Mas, com esses temas, As Invasões Bárbaras acaba de ser indicado ao Oscar de produção estrangeira e virou um sucesso do circuito alternativo em todo o mundo – o maior da carreira de seu diretor, o canadense Denys Arcand, de 62 anos. No Brasil, o filme encetou um pequeno fenômeno: fez lotar salas também para o relançamento de O Declínio do Império Americano, de 1986, do qual As Invasões Bárbaras é uma espécie de continuação. No primeiro filme, um grupo de intelectuais se reunia para um fim de semana no campo e discutia de tudo, a começar (e terminar) por sexo. Em Invasões, os mesmos personagens se reencontram, mas para se despedir de um deles, Rémy, que está à morte. Enquanto Rémy se reconcilia com seu filho e os amigos relembram um ardor ideológico que não têm mais, Arcand evoca uma sensação que pode muito bem estar na raiz da receptividade a seu filme: a de que vivemos numa civilização prestes a ruir. Da província de Quebec, onde nasceu, mora e trabalha, o ex-católico e ex-marxista Arcand falou a VEJA sobre os caminhos que, a seu ver, a sociedade ocidental está trilhando.

Veja – As Invasões Bárbaras fala de morte e desilusão, mas é o maior sucesso de toda a sua carreira. A que o senhor atribui essa receptividade do público?
Arcand –
Não tenho muita certeza. Nunca se sabe quando o sucesso vai acontecer, ou se ele vai acontecer. O que posso dizer ao certo é que esse é o primeiro filme que faço que está repleto de emoção. É uma experiência inteiramente nova para mim. A primeira cena a ser filmada foi aquela em que a filha do personagem de Rémy Girard diz adeus a seu pai de um barco, via satélite. Quando a atriz começou a dizer suas falas, caí no choro – o que é surpreendente, porque, tendo eu mesmo escrito o roteiro, eu sabia o que ela ia dizer. Não saberia explicar nem qual é a natureza dessa emoção. Quando voltei ao meu escritório, mostrei a cena à minha equipe, e todos choraram também. Do começo ao fim das filmagens, nos mantivemos todos nesse estado emocional, a ponto de os atores questionarem o rumo das coisas. Se o público não entrar no espírito do filme, eles diziam, vamos todos parecer ridículos. Felizmente – apesar de haver pessoas que detestam As Invasões Bárbaras –, o público parece ter entrado em sintonia conosco.

Veja – O senhor não acha que talvez o sentimento de desilusão presente no filme, e de mágoa pelo tempo que se perde e não pode ser recuperado, faz com que a platéia se relacione de forma mais íntima com As Invasões Bárbaras?
Arcand –
Sim, e isso vale especialmente para as pessoas da minha geração. Trata-se de um relato muito pessoal de tudo aquilo em que acreditávamos nos anos 60 e 70. De certa forma, éramos todos marxistas ou feministas, e sinto que temos uma certa nostalgia dessas crenças – ou de ter crenças –, ainda que essa nostalgia venha temperada pela satisfação de ver que as amizades resistiram às mudanças. No fundo, esse é um filme sobre mim e os meus amigos.

Veja – Há alguma coisa em que o senhor acreditava nos anos 60 que tenha resistido ao teste do tempo e da história?
Arcand –
Sim: a minha crença em fazer filmes. Ao contrário dos personagens de As Invasões Bárbaras, que são todos intelectuais e nunca fizeram nada de verdadeiramente prático, eu sempre tive o cinema. Quando o marxismo era moda, eu fazia documentários sobre operários, e creio que eles permanecem válidos. Rémy, por outro lado, nem sequer escreveu o livro que tanto planejou, o que é uma amargura que ele enfrenta no fim da vida. Imagino que, no meu leito de morte, também vou estar cheio de medo, mas pelo menos terei o conforto de saber que, na minha carreira, fiz o melhor que pude, e provavelmente terei mais paz do que ele.

Veja – Os personagens de As Invasões Bárbaras sentem que estão vivendo no crepúsculo de uma civilização, que está sob cerco cerrado. O senhor compartilha essa impressão com eles?
Arcand –
Freqüentemente, quando as pessoas envelhecem ou adoecem, elas são tomadas pelo sentimento de que o que se seguirá a elas é um desastre, e que o mundo está se aproximando do fim. Feita essa ressalva, acredito que aquilo que chamamos de civilização ocidental, que se iniciou na Renascença e da qual os Estados Unidos são o produto hoje mais ilustrativo, está de fato chegando ao fim. Quando contemplo o futuro, tenho um pressentimento estranho. Sinto, por exemplo, que as pessoas não lerão mais – e por isso o personagem Sébastien, o filho de Rémy, nunca abriu um livro na vida e não sabe o que é uma ideologia. Na verdade, Sébastien não sabe nem o que é uma idéia, e não se importa com isso. O que não significa que ele não seja um ser humano decente, que cuida de seu pai e procura amenizar o seu sofrimento. Mas os dois são animais de espécies diferentes, por assim dizer.

Veja – Estaríamos então chegando ao fim do conhecimento?
Arcand –
De certa forma. Para onde o teatro pode prosseguir depois de Samuel Beckett, por exemplo? Ou a pintura depois de Andy Warhol, a música erudita depois de Schoenberg, ou a filosofia depois de Heidegger e Wittgenstein? Não há nenhum filósofo sério vivo no mundo neste momento. Estamos assistindo ao fim da filosofia, da literatura, da arte, do teatro, da música. Tudo está se acabando aos poucos, e estamos rumando para algo completamente diverso. O mesmo vale para a política, claro. O último grande sonho político foi o socialismo, e ele se provou não exatamente errado, mas inviável. Quando penso no futuro, sou assaltado por um grande vazio.

Veja – O senhor crê que esta civilização deixará algum legado para o futuro?
Arcand –
Um legado imenso, de tudo o que produzimos e pensamos no decorrer dos últimos séculos. Mas talvez as próximas gerações venham a ser incapazes de apreciar essa herança. Imagino que estamos nos aproximando de uma situação comparável à da Idade Média, em que durante centenas de anos os monges preservaram, em suas bibliotecas, um conhecimento que só seria trazido de volta à luz muito mais tarde.

Veja – Qual será a força dominante nessa nova Idade Média, em sua opinião?
Arcand –
A questão é que não haverá uma força dominante, mas sim guerras incontáveis e infindáveis. Chegará o dia, como chegou para todos os impérios, em que o império americano vai ruir. Então, como o mundo medieval era dividido num sem-número de cidades-Estado lideradas por senhores de guerra, nós nos veremos também completamente desorganizados. E não é improvável ainda que venhamos a guerrear com os muçulmanos num novo ciclo de Cruzadas. Na verdade, essas novas Cruzadas já estão em curso.

Veja – Essa queda, a seu ver, é um fato inescapável da história, ou fomos nós, as gerações mais recentes, que falhamos?
Arcand –
Creio ser um fato inevitável. Toda a civilização ocidental foi construída sobre a cristandade. E, quando começamos a questionar a existência de um ser supremo e nos afastamos, intelectualmente, de nossas crenças, passamos a solapar os alicerces de nossa sociedade. Hoje, se surge uma chance para roubar, para transgredir, por que não fazê-lo? O único risco que se corre é o de ser pego, já que, como sociedade, não acreditamos mais na punição do inferno – e veja bem que não estou dizendo que devêssemos acreditar no inferno, ou tentar voltar os ponteiros do relógio. Mas mesmo nos tempos dos velhos capitalistas que construíram a América, como os Rockefeller, os Morgan e os Vanderbilt, havia uma bússola moral. Esses foram homens que exploraram milhões de pessoas, mas eles eram cristãos que acreditavam na honestidade e em trabalhar com respeito à lei americana. Hoje essa bússola não existe mais. As corporações são profundamente corruptas, como demonstra o escândalo da Enron e os outros tantos que não param de surgir nos noticiários. Quando isso acontece, é porque o fim está próximo.

Veja – O senhor foi educado numa família intensamente religiosa, e então o senhor se tornou um marxista. Nesta altura de sua vida, que peso têm essas influências?
Arcand –
Eu não diria que tenho admiração pela religião em si, porque a história da Igreja é, a meu ver, lamentável, com sua corrupção e seu currículo de apoio a ditaduras. Mas admiro o princípio da compaixão e da caridade que tantos cristãos praticam e praticaram. De um ponto de vista bem pessoal, invejo a paz em que meus pais morreram, com a convicção de que estavam a caminho de encontrar seu Salvador – uma convicção que não tenho mais. Quanto ao panorama político, confesso não ter a mínima idéia do que dizer. A meta do marxismo, de que devemos trabalhar em prol de uma sociedade mais justa, é algo em que ainda acredito. Mas como construir isso na prática, sem as ditaduras, a corrupção, os apparatchiks e a polícia política que sempre acompanharam as experiências marxistas? Não creio que seja possível.

Veja – O senhor se sente bem, vivendo no Canadá?
Arcand –
Me sinto muito bem, o que não deixa de ser terrível. O Canadá é um país incrivelmente confortável, e isso é tudo que ele é. Vivemos com tanto conforto que ainda vamos acabar morrendo disso. Veja, por exemplo, o debate sobre a separação de Quebec do resto do Canadá, que durou tantos anos. No final, todos os argumentos giravam em torno do nosso conforto: vamos perder nossa aposentadoria? O preço dos selos postais vai subir? O nosso é um país rico e democrático, cujos únicos inconvenientes são o clima siberiano – neste momento, a temperatura aqui está em 20 graus negativos – e a chatice. Somos o país mais tedioso do mundo. Definitivamente, aqui no Canadá, escapamos daquela praga segundo a qual se deseja a um desafeto que ele viva em "tempos interessantes" – ou seja, tempos de guerra, revolução e tumulto.

Veja – Em As Invasões Bárbaras, o senhor faz uma apologia da eutanásia: o personagem de Rémy abrevia o sofrimento de um câncer terminal com o apoio dos amigos e da família – ao passo que, há algumas semanas, uma mulher francesa foi indiciada por ter ajudado seu filho tetraplégico, cego e mudo a morrer.
Arcand –
A eutanásia é, junto com o aborto e a pena de morte, uma dessas questões sociais que demandam décadas de debates. Sou inteiramente a favor dela, mas não creio que me resta tempo suficiente de vida para testemunhar a passagem da eutanásia a uma prática legal – embora, como todos saibamos, ela seja feita todos os dias, em hospitais de todo o mundo, como um ato de misericórdia sobre o qual todos silenciam. A eutanásia é e será, por muito tempo, um tabu de ordem religiosa: nossa vida não pertence a nós, e sim a Deus e, por extensão, ao Estado. Mas acredito que esse tabu será vencido. Na Holanda, por exemplo, que é o país mais civilizado do mundo, a eutanásia já foi legalizada. A morte de Rémy, entretanto, é a minha visão de uma morte ideal. É assim que eu gostaria de ir-me: num lugar belo, cercado por minha família e meus amigos, no momento que me parecer mais adequado.

Veja – Seu filme parece sugerir que, já que tudo o mais está falhando, cultivar e preservar os relacionamentos pessoais é tudo a que se pode almejar hoje.
Arcand –
De fato, como não tenho mais esperanças políticas, essa é a única sugestão que tenho a dar. Isso e que se tente concretizar alguma paixão pessoal – pode ser tanto o cinema como uma coleção de selos. Mas é preciso deixar algo.

Veja – E quanto aos filhos? Eles são um tema fundamental de seu filme.
Arcand –
Vivi a maior parte de minha vida sem filhos, e aos 55 anos de idade adotei uma menina. Não concebo mais a vida sem ela, mas não acho que filhos sejam um fator essencial para a felicidade. Algumas pessoas os têm e isso não as torna menos insatisfeitas. No caso de As Invasões Bárbaras, o relacionamento entre Rémy e seu filho tem mais a ver com a minha própria experiência com meu pai. Meu pai desprezava os filmes e o cinema, e durante toda a minha vida me foi impossível obter dele algum tipo de reconhecimento ou encorajamento. Na opinião dele, eu era um fracassado. Só no leito de morte ele cedeu um pouco: O Declínio do Império Americano havia sido lançado alguns meses antes, e várias pessoas a quem ele respeitava insistiam com ele que eu havia conquistado algo. Minha mãe também não entendia muito bem minha opção. Na época em que comecei a dirigir quase não havia cineastas no Canadá, e ela certamente teria preferido que eu tivesse me ordenado padre.

Veja – A religião foi, em algum momento, um conforto para o senhor, como foi para os seus pais?
Arcand –
Quando criança, eu era muito religioso. Morávamos numa cidade pequena, onde todos iam à missa, e a devoção era uma zona de segurança. Mas então nos mudamos para Montreal, para uma casa que ficava a um quarteirão da biblioteca municipal. Eu podia ler tudo que quisesse, sem pagar nada. Comecei a devorar os livros – um artigo inexistente na minha casa – e a me dar conta de que existem outros pontos de vista possíveis. Um dia, quando tinha uns 14 anos, perdi a missa de domingo. Fui andando para casa, pensando que estava em pecado mortal e que, se fosse atropelado por um ônibus, iria diretamente para o inferno. Então percebi que isso não fazia muito sentido. Se eu parasse de acreditar em Deus, eu iria odiar meus pais? Claro que não. Eu iria roubar? Também não. Percebi que nada mudaria, e daquele dia em diante nunca mais fui à missa.

Veja – No entanto, o senhor reencenou a vida de Cristo em 1989, em Jesus de Montreal, um de seus filmes de maior sucesso.
Arcand –
A religião foi parte de mim por muito tempo, e depois de O Declínio do Império Americano achei que precisava fazer um balanço das minhas crenças, e perceber até que ponto elas ainda me influenciavam.

Veja – Há uma cena em Jesus de Montreal em que o ator que interpreta Cristo destrói um estúdio em que um comercial está sendo filmado. A mídia representa, para o senhor, a versão moderna dos vendilhões do templo?
Arcand –
Dirigi alguns comerciais durante a minha carreira, e eles sempre me causaram um bocado de desconforto moral. Acho que pôr o talento a serviço de vender coisas de que as pessoas não necessitam é um mau uso dele. O consumismo tomou o lugar da fé. Mas minha religião é outra: fazer os melhores filmes de que sou capaz.

 
 
 
 
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