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Em
foco: Gustavo Franco
A
liturgia dos
bancos centrais
"Os
bancos centrais devem ser extremamente
cuidadosos com sua comunicação e com a liturgia
da deliberação"
As
decisões de bancos centrais sobre taxas de juros afetam um
universo imenso de relações econômicas, e esse
efeito é tanto maior quanto mais ofendem as expectativas
do mercado. Na verdade, a política monetária deve
ser vista como um jogo de formação de expectativas,
em que os BCs devem ser extremamente cuidadosos com sua comunicação
e com a liturgia da deliberação. As informações
que acompanham suas decisões com muita freqüência
são muito mais importantes que a decisão em si.
Na
semana passada reuniu-se o FOMC (o comitê de política
monetária Copom do banco central americano)
e foi publicado um "comunicado à imprensa", de meia página,
anunciando o que todos já sabiam, ou seja, que a taxa de
juros deles permaneceria inalterada em 1%. Quase simultaneamente
nosso Banco Central fez publicar a ata da reunião do Copom
da semana anterior, que decidiu manter inalterada a taxa de juros
básica em 16,5%.
Por
surpreendente que pareça, os efeitos sobre os mercados do
mundo inteiro do comunicado do FOMC foram devastadores. No comunicado
anterior, de 9 de dezembro, eles diziam que "o comitê acredita
que a política de acomodação (leia-se juros
de 1% anuais) pode ser mantida por um período considerável".
No comunicado de agora (28 de janeiro), esta frase foi substituída
por "o comitê acredita que pode ser paciente em remover sua
política de acomodação", e foi por isso que
os mercados desabaram em toda parte, acredite se quiser.
Cá
no Brasil, a Ata da 92ª reunião do Copom é um
longo documento escrito em um economês carregado no qual é
difícil encontrar as mensagens ali colocadas com imenso cuidado,
até porque, às vezes, não há mensagem
nenhuma. Tenha-se claro que as atas não são gravações
das reuniões e tampouco trazem coisa alguma sobre dúvidas,
medos, ansiedades, especulações e cogitações
dos participantes. Na esmagadora maioria dos casos, são apenas
leituras comentadas de estatísticas, sempre vagas e subjetivas
como as próprias decisões. Com efeito, não
importa quantas virgens são imoladas no altar da transparência,
as decisões do Copom são matéria de julgamento,
subjetivas portanto, nunca é possível explicá-las
por "a" mais "b", embora sempre exista ex post facto (depois
de fato) muito do que nossos amigos portenhos chamam de "carreras
del domingo con el diario del lunes", ou seja, boas teorias para
fazer previsões sobre as razões do BC para ter feito
o que fez.
Modelos
matemáticos e simulações são relevantes
nas decisões do Copom e do FOMC. Mas, como ensina um antigo
membro do FOMC, Alan Blinder, em seu livro de memórias, eles,
nos EUA, olham com grande respeito para os modelos econométricos,
porém os senhores membros do comitê, implícita
ou explicitamente, associam enorme importância ao que ele
chamou de uncle asking, algo como "perguntar a seu tio",
ou a seu cunhado, que sempre terá uma teoria sobre o estado
da economia.
O
mesmo vale para os "indicadores" apresentados pelas entidades de
classe, pelos circunstantes, parentes e agregados dos diretores,
os quais, por sua vez, também desenvolvem sua própria
métrica para o comportamento da economia. Conta-se que um
certo diretor do BC reparava muito nas filas dos restaurantes ou
nos engarrafamentos no Baixo Leblon para avaliar o que fazer com
os juros; muita fila, muita gente na rua para comer fora, é
porque o juro está baixo, dizia. Podia ser brincadeira, mas
tinha efeito muito concreto no clima da reunião.
Nunca
essas razões e impressões vão aparecer nas
atas do Copom, cujo propósito é dirigir-se ao mercado
para lhe fornecer segurança. Alan Greenspan, um mestre nessa
arte, sempre a exercita exibindo um talento inigualável para
pequenos enigmas, para filigranas estatísticas de importância
menor mas que poderiam, se devidamente trabalhadas, estar indicando
alguma coisa meio relevante que ninguém reparou, pois é
o detalhe do detalhe. Invariavelmente cansado, o interlocutor termina
convencido não tanto da minúcia e da relevância
na análise, mas do extremo cuidado de Greenspan com julgamentos
de ordem subjetiva. No fundo, é disso que se trata.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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