Afinal que país é este?
Belíndia ou Coríndia?

O Brasil de melhor nível de vida se compara à Coréia,
mas no extremo inferior está junto da Índia,
entre os quarenta mais pobres do mundo

Luiza Ruberti

No início dos anos 70, Edmar Bacha inventa o termo Belíndia para denominar este nosso país heterogêneo que conteria uma Bélgica rica e uma Índia miserável. O termo vira uma metáfora para as desigualdades do Brasil. A partir de 1990, o PNUD começa a comparar países usando o seu índice de desenvolvimento humano, baseado na esperança de vida, alfabetização, escolaridade e renda per capita. Com a ajuda de Marcelo Cabrol, calculei os mesmos índices para Estados e províncias do Brasil, México, Argentina e China. Ou seja, tratamos cada Estado como se fosse um país e aplicamos neles as mesmas fórmulas do PNUD, visando identificar as Bélgicas e Índias.

Podemos inicialmente comparar as Bélgicas (excluindo as capitais). No Brasil, o Rio Grande do Sul aparece claramente à frente de todos os outros Estados. Santa Catarina vem em terceiro lugar e São Paulo em quarto. Na Argentina, ganha a província de Córdoba e no México a província de Sonora. Na China, o melhor nível de vida está em Shanxi, com Pequim bem próximo. É instrutivo verificar, não há diferenças significativas entre os Estados/províncias com os melhores níveis de desenvolvimento humano. Estão em situação muito parecida e bastante boa. De fato, não há uma só província da Argentina, do México ou da China que ofereça uma qualidade de vida superior à do Rio Grande do Sul. É verdade, o Rio Grande do Sul não atinge a Bélgica, mas chega ao respeitável nível da Coréia (próximo de Costa Rica, Uruguai e Chile). São Paulo, a "locomotiva" do país, compara-se com a Rússia e com a Polônia.

Examinemos agora os menos desenvolvidos. O Nordeste tem índices baixíssimos, sendo a Paraíba o pior Estado. Mas, ao contrário do que se imagina, o Piauí não é o último (por ter uma expectativa de vida mais longa), havendo quatro Estados em pior situação (Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Paraíba).

Na Argentina a província de Jujuy mostra as piores condições sociais. Seu índice corresponde praticamente à média brasileira (ou a Goiás, 10º lugar no Brasil). Ou seja, as diferenças entre Brasil e Argentina resultam de que os nossos Estados pobres são muito piores do que os argentinos pobres. O México, na sua maior diversidade, é mais parecido com o Brasil. Mas não tanto, já que Chiapas, o pior Estado, corresponde a Mato Grosso (11º lugar no Brasil). Ou seja, o barril de pólvora de Chiapas está melhor do que todo o Nordeste brasileiro. Somente a China mostra uma situação mais próxima da nossa, o Tibet se comparando com os piores Estados do Nordeste brasileiro (mas, ainda assim, bem acima da Paraíba).

Comparando o índice da Paraíba com os do PNUD, encontramos que está praticamente no mesmo nível da Índia, que está dentre os quarenta mais pobres do mundo, próximo da Costa do Marfim, Bolívia e Egito (que equivale ao Piauí).

Em suma, não chegamos à Bélgica, embora não fiquemos mal junto com a Coréia. Mas no extremo inferior estamos praticamente empatados com a Índia. Ou seja, combinamos Coréia e Índia. "Coríndia", portanto. Pior, as nossas Coréias e Índias compõem blocos bem separados (com Mato Grosso e Goiás no meio do caminho). Muito literalmente, são "dois Brasis".

Como os índices usados têm muita inércia, é certo que os progressos recentes não estejam sendo captados. Mas não podemos subestimar a gravidade do que estão mostrando. Convivem no mesmo território Estados escandalosamente diferenciados.

(A versão integral deste ensaio sairá na Revista Brasileira de Economia em um número dedicado a Mario Henrique Simonsen.)




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