Estréia incomum

Sai em livro a primeira prosa longa de Lima Barreto

Reprodução/Dimitri Ismailovitch
Lima Barreto: desentranhando um folhetim de uma reportagem

Seria um exagero afirmar que O Subterrâneo do Morro do Castelo, misto de reportagem e folhetim publicado em 1905 pelo escritor carioca Afonso Henriques de Lima Barreto no jornal O Correio da Manhã, e só agora lançado em livro (Editora Dantes; 98 páginas; 18 reais), já revelava o talento indiscutível do autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915). Ainda assim, a redescoberta deste que é o primeiro esforço acabado de um dos maiores escritores brasileiros para chegar a uma prosa ficcional de fôlego longo constitui um acontecimento literário. Como considerava O Subterrâneo do Morro do Castelo "muito fraco, muito tênue", Francisco de Assis Barbosa, biógrafo de Lima Barreto e organizador, ao lado de M. Cavalcanti Proença e Antonio Houaiss, das obras completas do escritor, publicadas em 1956, decidiu deixar de fora aquele texto híbrido. Assim, criou-se uma enorme lacuna, só agora preenchida.

Do ponto de vista da carreira de Lima Barreto, O Subterrâneo do Morro do Castelo pode ser entendido como uma originalíssima, inteligente e bem-sucedida estratégia do candidato a escritor que ele era em 1905 para se projetar nos circuitos literários e no gosto do público. Mulato, pobre, o pai enlouquecido, Lima Barreto não conseguira concluir o curso de engenharia na Escola Politécnica, um recinto de exacerbado preconceito racial. Empregado como amanuense na Secretaria da Guerra e mergulhado em frustrações, entregou-se à boemia e aí travou contato com os intelectuais e jornalistas que acabariam por arranjar-lhe o emprego no Correio. Escalado para fazer uma série de reportagens sobre escavações no Morro do Castelo à época da construção da Avenida Central hoje Rio Branco , inventou que ali, onde se acreditava existirem tesouros deixados pelos jesuítas, havia sido encontrado um manuscrito. Passou a publicar, então, junto com as reportagens, trechos do suposto caderno no que acabou se transformando em folhetim de grande sucesso.

Como literatura, o folhetim que conta a história de uma mulher casada que vive um relacionamento extraconjugal com um jesuíta tem alguns problemas. Lima Barreto derrapa em várias passagens, sobretudo no âmbito da trama. Num determinado momento da história, por exemplo, o jesuíta apaixonado recebe ordem para se estabelecer em São Paulo. E Lima Barreto deixa de incluir uma cena que seria natural a da despedida entre ele e sua amante, Dona Garça. Apesar de suas fragilidades, o texto também tem boas passagens, quase sempre irônicas. Se Lima Barreto não foi daqueles autores que nascem prontos, não há dúvida de que amadureceu rapidamente, chegando à excelência já no segundo livro, Policarpo Quaresma. Conhecer o princípio dessa carreira interrompida em 1922, depois de uma existência de apenas 41 anos, é fundamental para compreender melhor a própria literatura brasileira.

Rinaldo Gama




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