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Doente no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo: epidemia não se confina mais a "grupos de risco" |
| Foto: Eneida Serrano |
O último relatório sobre o avanço da
Aids em todo o mundo, divulgado na semana passada, é um
aviso de que a tecnologia e as campanhas de
esclarecimento ajudam a controlar a propagação do
vírus, mas pouco podem fazer contra a miséria. De
acordo com dados da Unaids, a agência da ONU encarregada
do controle da doença, 30,6 milhões de pessoas estão
infectadas pelo HIV. O número é um terço maior do que
as estimativas feitas recentemente. Segundo as previsões
do início da década, a casa dos 30 milhões seria
atingida apenas no ano 2000. A diferença para cima se
explica porque a Aids avança em alta velocidade nos
países pobres, principalmente na África, onde reinam a
falta de informação e a miséria. É nesses países que
se concentram nove entre dez casos registrados. No
Brasil, os números apontam para uma tendência também
preocupante ligada à desinformação. Nas capitais, onde
as campanhas de esclarecimento ocupam rádio e
televisão, o ritmo proporcional de crescimento da Aids
diminuiu. No interior, a velocidade aumentou. Além de se
interiorizar, a doença no país está atingindo com
força a fatia da população com baixa renda e baixa
escolaridade. De posse dos dados, o Ministério da Saúde
prepara-se para mudar a estratégia de combate à
doença, com alterações inclusive na campanha de rádio
e televisão.
Com os novos números, a Aids passa a ser
a doença infecciosa que mais mata no mundo, com 2,3
milhões de vítimas ao ano, ultrapassando a malária,
que faz 2,1 milhões de mortes. Calcula-se que 5,8
milhões de pessoas terão sido contaminadas até o final
de 1997. Desse total, 68% estão na África e 22% no Sul
e Sudeste Asiático, contra apenas 0,5% na Europa
Ocidental. A população européia tem o melhor nível de
escolaridade de todos os continentes. Lá, as campanhas
de prevenção são constantes e os governos não hesitam
em tomar medidas que no Terceiro Mundo não vingam
por exemplo, distribuir seringas para viciados em drogas,
o que reduz os índices de transmissão dentro do grupo
em até vinte vezes. "Em muitos países, problemas
culturais impedem as pessoas de lutar contra a Aids de
maneira realista", explica Sandra Thurman, diretora
do programa de Aids do governo americano. Os problemas
culturais podem ser quase insuperáveis, como na África,
onde um dos gatilhos para a propagação da doença é a
poligamia entre as populações islâmicas. Uma das raras
boas novas do continente é Uganda, onde a educação
primária é mais difundida e organismos internacionais
investiram pesado em campanhas pelo uso da camisinha.
Lá, os índices de contaminação estão caindo.
Pá de cal
Quando se fala em grandes números e estimativas feitas
por órgãos internacionais, os observadores mais
prudentes costumam erguer uma sobrancelha. É comum
encontrar exageros e cálculos que beiram o absurdo,
criados por gente interessada em atrair atenção para
uma causa. O estudo da semana passada, porém, foi
reconhecido por seu rigor metodológico. "No início
da epidemia, os números da Aids chegaram a ser
superestimados. Depois, os órgãos de saúde foram
repetindo ao longo dos anos as mesmas estatísticas,
dando a falsa impressão de que a doença estava
estabilizada. Agora, com a evolução da metodologia,
creio que estamos mais próximos da realidade",
explica o médico André Lomar, presidente da Sociedade
Pan-Americana de Infectologia. Algumas das conclusões do
estudo são espantosas. No ano passado, a Unaids
calculava que o HIV infectava 8.200 pessoas por dia.
Neste ano, trabalha-se com um crescimento duas vezes
maior: 16.000 contaminações diárias. Uma em cada 100
pessoas em idade sexualmente ativa está contaminada, e
apenas 10% dos portadores sabem que possuem o vírus.
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| A Aids já matou 11,6 milhões de pessoas e infectou outros 30,6 milhões |
O relatório joga uma pá de cal na safra de previsões otimistas sobre a epidemia, que começou no ano passado graças à descoberta do coquetel de medicamentos contra o HIV, 100 vezes mais forte do que o AZT. Houve quem previsse que a Aids logo estaria sob controle. Nos últimos meses, comprovou-se que o coquetel não é tão eficiente quanto se imaginava, e os dados da semana passada mostram que a doença tem um poder de destruição avassalador. Em alguns lugares, a Aids já assumiu proporções catastróficas. Nos países abaixo do Deserto do Saara, 7,4% das pessoas em idade sexualmente ativa são portadoras do HIV. No Zimbábue, o índice é de 20% e em Botsuana chega a 30%. Neste país, o ataque da doença foi tão devastador que reduziu a expectativa de vida da população de 61 para 43 anos de idade, o mesmo nível da década de 50. O relatório da Unaids adverte para o perigo dos países asiáticos, nos quais a infecção progride de maneira espantosa. Na Índia, onde o número de soropositivos já é estimado em 5 milhões, as autoridades temem por uma explosão da doença.
No Brasil, quinze anos atrás, havia dezenove homens com HIV positivo para cada mulher infectada. Naquele tempo, a maioria das contaminações se dava por meio de relações homossexuais. Hoje, com o aumento de contaminações entre mulheres, na proporção de uma para cada três homens, a forma de contágio predominante passou a ser a heterossexual. No interior do país, a contaminação entre as mulheres é 22% maior do que nas capitais. Vê-se que não faz mais sentido algum falar em "grupo de risco", expressão usada para se referir a viciados em drogas injetáveis, homossexuais e hemofílicos.
Esposas
espancadas
Além das mulheres, a
doença está migrando das capitais para o interior. Há
oito anos, 66% dos casos eram registrados nas capitais.
Com as campanhas de esclarecimento concentradas nos
grandes centros urbanos, nos últimos anos, a situação
se inverteu. Entre as notificações de novos casos, 54%
vêm do interior. Os dados sobre a doença mostram com
clareza como ela ataca preferencialmente o desinformado.
Não é por outra razão que cresce o número de
contaminados entre pessoas com baixa escolaridade. O
mesmo fenômeno se registra nos Estados Unidos. Lá, a
incidência da Aids entre os negros e os imigrantes
hispânicos, mais pobres, cresce em velocidade
preocupante.
Com a mudança de
perfil, as campanhas de rádio e televisão do governo
federal irão mudar, passando a se dirigir principalmente
às mulheres. É com elas que Brasília quer falar na
hora de cobrar o uso do preservativo. Não vai ser uma
tarefa fácil. As pesquisas mostram que muitas
adolescentes se recusam a cobrar do parceiro o uso da
camisinha, simplesmente porque acham que ele "é
fiel". O problema se agrava quando a mulher que
está casada há vários anos tem de pedir ao marido que
use o preservativo
há casos de esposas que foram espancadas ao sugerir a
idéia. E há o famoso raciocínio do "isso nunca
vai acontecer comigo". "Só existe uma maneira
de conter a epidemia. O uso da camisinha deve ser adotado
como norma de conduta social", explica o coordenador
do setor de doenças sexualmente transmissíveis e Aids
do Ministério da Saúde, Pedro Chequer.
Copyright © 1997, Abril
S.A. |