Estou começando

Boni explica sua saída da Globo, diz que a tecnologia está revolucionando a televisão e acha que se deve buscar audiência sem apelação

Mario Sergio Conti

"A pulverização das TVs permitirá que se arrisque mais, que se façam programas e canais experimentais"
Foto: Oscar Cabral  

Há trinta anos, quando entrou na Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, um paulista de família espanhola nascido em Osasco, aceitou a proposta de Roberto Marinho de, em vez do salário, receber 1% do lucro da emissora anualmente. Como nos três primeiros anos a rede deu prejuízo, Boni se contentou com retiradas esporádicas do caixa -- quando havia dinheiro no caixa. Hoje, segundo se atesta na direção da emissora, ele ganha cerca de 800.000 reais por mês, mas não tem o dinheiro para pagar a multa pelo rompimento do contrato que o liga à Globo até abril de 2001: 5 milhões de reais, mais o equivalente a metade dos meses que faltam para terminar o contrato.

Por não ter esse dinheiro, na semana passada Boni aceitou deixar seu cargo de vice-presidente para virar consultor da própria Globo. Estava aliviado e otimista. Aliviado porque terminava a situação na qual muita gente manda e ninguém é responsável. E otimista porque acredita que, aos 62 anos, está começando uma nova carreira, como explica nessa entrevista que deu a VEJA:

Veja Você saiu ou foi saído da Rede Globo?

Boni Nem uma coisa nem outra. Criou-se uma situação que não funcionou, pois havia duplicidade, e até triplicidade de poder dentro da emissora. Eu estava numa situação híbrida, de consultor e executivo. E, mesmo que os envolvidos não quisessem, o arranjo fazia com que houvesse conflitos e atritos. Então, imaginamos três saídas. Primeiro, que eu não cumprisse o meu contrato até o fim, e fosse liberado sem ter de pagar multa. Segundo, que se antecipasse minha transformação em consultor. E a terceira, sugestão do Roberto Irineu, que eu mandasse no que e em quem quisesse na rede. Ele preferiu a segunda alternativa.

Veja Você está preso à Globo por algemas de ouro?

Boni Não. Eu me sinto ligado à Globo como um pai é ligado ao filho mesmo que esse filho às vezes seja malcriado.

Veja Depois de trinta anos decidindo o que boa parte do povo brasileiro vê na televisão, como se sente perdendo esse poder?

Boni Sinceramente, isso vinha me incomodando. Eu já não sabia direito se o que eu fazia poderia ser melhorado, ou alterado profundamente. Eu tinha de sair até para ver o que acontece: se surgem novos talentos, novos programas, programas que não tenham a minha marca e o meu estilo.

Veja Numa rede do porte da Globo, funciona a direção colegiada, ou o comando tem de ser único, com mão de ferro?

Boni Tem de ter alguém decidindo, a mão do comando, de ferro ou não. São centenas de profissionais, de diversas áreas, trabalhando juntos. É gente talentosa, criativa, vaidosa, temperamental. Alguém tem de coordená-los, ouvi-los, orientá-los, e decidir.

Veja Como consultor, você recomendará que a emissora mude o tripé da programação, novela-noticiário-novela?

Boni Sim. Acho que se devem preparar as mudanças. A televisão está vivendo um momento de saturação, de repetição de fórmulas. É preciso imaginar uma nova programação, tentar preparar a televisão para as modificações tecnológicas importantíssimas que estão ocorrendo.

Veja Que mudanças tecnológicas?

Boni A televisão digital. Quando ela for implantada, uma rede como a Globo, ou as americanas CBS, ABC e NBC, poderão transmitir quatro canais abertos simultaneamente. Ou seja, às 8 e meia da noite a Globo poderá estar apresentando a novela num canal, e terá outros três canais à sua disposição, com a mesma qualidade de som e imagem. Ou poderá concentrar o sinal num canal só, a TV de alta definição.

Veja O que é TV de alta definição?

Boni É uma televisão com qualidade técnica infinitamente melhor que o cinema de hoje, com profundidade quase tridimensional, com tela de 16 por 9, num formato que lembra o cinemascope. Se se juntarem os sinais de quatro canais digitais, obtém-se a alta definição. Com isso, as TVs abertas poderão ter, em alguns horários, quatro canais e, em outros, um só, de alta definição. Ou seja, elas terão de diversificar a sua programação, passando a concorrer com as TVs por assinatura.

Veja A TV digital não vai demorar décadas para entrar no ar?

Boni A lei americana estabeleceu que todas as redes terão de estar transmitindo o sinal digital em maio de 1999. Os primeiros aparelhos já poderão ser vistos agora em janeiro, na feira de Las Vegas, e estarão à venda em novembro de 1998. A previsão é de que, nos Estados Unidos, ela esteja implantada comercialmente em 2004. No Brasil, como é uma tecnologia cara, acho que em 2010 ela será viável, talvez até antes. A TV digital será revolucionária porque dará mais quatro canais para cada rede aberta.

Veja A televisão digital poderá matar as TVs por assinatura?

Boni Acho que o futuro das TVs por assinatura está assegurado. Nelas, o telespectador busca duas coisas: a qualidade de transmissão, que a televisão digital também supre, e a diversidade colossal de opções, e isso a digital não pode fazer. Ela oferece alguns canais a mais, mas não 500, que é o universo das TVs por assinatura. A digital também não concorre com o pay-per-view, no qual a televisão por assinatura vende a transmissão de determinados programas, shows e jogos. Nem com o video-on-demand, por meio do qual o espectador decide em que horário, por exemplo, assistirá a tal ou qual filme. Todas essas mudanças tecnológicas, repito, irão revolucionar a televisão, pulverizando o poder, abalando a TV industrial, de massa.

Veja O desenvolvimento tecnológico, com a fragmentação que propicia, não provoca a extinção de profissionais como você: aqueles que montam grandes programações nacionais, que querem atingir milhões de pessoas ao mesmo tempo, de todas as classes?

Boni É, esse poder deve ser extinto. Acho que foi isso que a Globo fez comigo... Mas eu quero mudar. Como consultor da Globo, ou fora dela, sinto que minha carreira está apenas começando. A palavra correta não é fragmentação. É pulverização, e ela permitirá que se arrisque mais, que se façam canais e programas experimentais.

Veja A existência de tantos canais é positiva?

Boni O excesso é o problema das TVs por assinatura. Para preencher todos os canais, elas transmitem programas de auditório cucarachos, noticiários em alemão. Em Los Angeles há uma estação que transmite um sismógrafo, 24 horas por dia, e tem até patrocinador. Não adianta ter acesso a 500 canais se só meia dúzia deles é razoável. Esse é um tremendo desafio, um problema aparentemente insolúvel, por causa do tempo, como dizia o meu amigo Gene Jankowski, que foi presidente da CBS por mais de dez anos. É necessário tempo para escrever uma minissérie, tempo para os atores decorarem o texto, tempo para ensaiarem, para fazer os cenários e figurinos, para dirigir, tempo para editar. Mesmo que no mercado existam idéias, mesmo que exista talento, mesmo que haja dinheiro para a produção, e é preciso muito dinheiro, há algo que não se obtém no mercado: tempo para fazer as coisas.

Veja Essas centenas de canais provocarão um enriquecimento cultural do ser humano?

Boni Podem significar o contrário: um emburrecimento, se imperar a mecanização, a repetição de fórmulas. Há duas questões ligadas: de quanta informação o ser humano precisa e quanta ele consegue absorver? Shakespeare, dizem alguns especialistas, leu pouco mais de trinta livros durante sua vida inteira, o que lhe bastou para compor uma obra formidável, que serve de matriz a Freud e está viva até hoje. Agora, há informação demais. Meu filho Bruno, de 10 anos, gosta de computador, de estudar animais, de cinema, de televisão, de línguas. Às vezes, ele diz: pai, não agüento mais, não dá tempo. E é preciso tempo para refletir sobre o que se viu na TV, as coisas que se aprenderam, para conversar sobre elas. Assim se formam o conhecimento e a opinião pública. Uma novela da Globo ou uma reportagem de VEJA só cumprem sua função se as pessoas conversam a respeito delas, tomam posição. Se cada pessoa vê uma coisa específica, fica mais difícil haver diálogo, o que leva à atomização da sociedade.

Veja Qual o efeito político da pulverização da televisão?

Boni Como abala a hegemonia das grandes empresas, a pulverização pode democratizar a televisão. Mas pode levar também ao efeito contrário: a irrelevância. Em vez de ser um instrumento de moldar a opinião pública, a pulverização talvez a desarticule. O oposto da TV aberta de hoje é a TV de consulta, que já acontece com algumas emissoras de cabo, como a CNN e a Globo News. Onde a pulverização pode ter um aspecto positivo, e aliás já tem, como no caso da New York One, é na TV comunitária, quando ela parte para cobrir os problemas de uma cidade. Esse é um tipo de televisão que eu gostaria de fazer. Não acredito nessas televisões de noticiários internacionais cada vez mais genéricos, feitos para hóspedes de hotéis, notícias que não são ditas na sua língua. Acredito no enraizamento da televisão em comunidades, cidades.

Veja Você é a favor de algum tipo de controle ou censura da televisão?

Boni Sou favorável ao V-chip, um aparelhinho que fica embutido no televisor e, quando ativado, o desliga. É ativado por meio de um código transmitido pelas emissoras no início de cada programa. O código avisa: será apresentado a seguir um programa com cenas de nudez, ou de sexo explícito, ou com linguagem chula, ou violência, e o V-chip desligará o televisor caso o telespectador o tenha programado com um dos itens. Nos Estados Unidos, os televisores já têm de sair de fábrica com o V-chip. O prazo para que as emissoras e a indústria de entretenimento elaborem um sistema de classificação encerra-se em fevereiro de 1998. Se o sistema não ficar pronto, o FCC, a agência de comunicação americana, fará um código à revelia da indústria. Prevê-se que em julho de 1999 o sistema esteja implantado em 50% dos televisores americanos. O V-chip impossibilita a censura e coloca o controle na mão do espectador, em casa.

Veja Quando o V-chip for implantado vai ser possível medir, na prática, o quanto os telespectadores gostam de baixaria e o quanto ela é imposta pelos profissionais de televisão, certo?

Boni Não precisa esperar, eu respondo: o público não quer assistir a baixaria. Dou um exemplo recente. Apresentamos o filme Beethoven, o do cachorro, no começo da tarde de domingo. Havia cerca de 40% de televisores ligados, e conseguimos 32 pontos de audiência. O filme acabou e entraram no ar o Gugu e o Faustão, que é um bom programa mas teve uma fase apelativa, e os dois, somados, conseguiram 34 pontos, com os mesmos 40% de aparelhos ligados. Ou seja, o cachorro foi mais competente que os dois juntos. É por isso que, quando ainda mandava na Globo, fui contra um segundo programa de auditório no domingo. Eu achava que tinha de se bolar algo novo: teatro infantil, dramaturgia que sabemos fazer, algo assim, em vez de ir para o baixo nível.

Veja Vamos supor que, na tarde de domingo, uma determinada rede coloque no ar um programa com o Ratinho, esse renomado intelectual, e consiga 50 pontos de audiência mostrando aquelas coisas que só ele é capaz. O que você sugeriria para a emissora que está perdendo audiência: transmitir concertos sinfônicos ou imitar o Ratinho?

Boni Eu sugeriria fazer um programa popular de qualidade. Não aconselharia, nunca, imitar o senhor Ratinho. Até por uma questão prática: o bom anunciante não quer ter seu produto associado ao senhor Roedor. O anunciante não é louco de, no auge da revolução francesa, entre uma decapitação e outra, apresentar propaganda de colar. Programa popular de qualidade é difícil fazer, mas não é impossível. Lembra de Pantanal? Pois é, a Manchete fez Pantanal muito bem, e incomodou bastante a Globo. É por isso que eu dizia antes de sair da Globo: dane-se que o Gugu esteja 2 pontos acima do Faustão. Dois pontos não é nada, não afasta o público nem o anunciante. Não devemos ir para a apelação.

Veja Então você nunca pressionou para subir a audiência?

Boni Sim, o tempo todo. O que eu não pressionei foi para baixar o nível e conseguir audiência. Nunca fiz isso. Nem os anunciantes nem a direção da Globo fizeram pressão para baixar o nível. E convém não esquecer que o grande anunciante do Programa do Gugu é o próprio Gugu, que vende bonequinhos e artigos populares na sua rede de lojas. Ele é inteligente. Quanto ao Faustão, espero que o novo diretor, o Nilton Travesso, faça um programa à altura da competência e da modernidade do Fausto Silva.

Veja O que você gosta de assistir na televisão?

Boni Sou um típico espectador de notícias. Novela, acho muito longa, não tenho paciência para acompanhar. Gosto de minisséries de doze capítulos, de seriados como Carga Pesada e Malu. Programa de auditório, eu tenho horror.

Veja Qual telejornal você gosta?

Boni Gostaria de dar uma resposta longa. O editorial, o conteúdo político do jornalismo da Globo, sempre foi do doutor Roberto, da família Marinho. Mas o jornalismo esteve sob minha jurisdição até recentemente. Eu contribuí com o jornalismo, trabalhando junto com o Armando Nogueira, o Renato Pacote, o Borjalo. A gente chegava na Globo às 8 e meia da manhã, almoçava juntos, via o Jornal Nacional juntos, via o jornal de fim de noite, jantava depois, no fim de semana íamos para Búzios ou Cabo Frio, juntos. E estávamos sempre tendo idéias para melhorar o telejornalismo e a Globo numa época de ditadura. Sempre achamos o jornalismo estratégico para a programação. Eu entrava no jornalismo. E o Armando Nogueira às vezes dizia que tal novela estava uma porcaria. Eu gostava do amor, da excitação com que o Jornal Nacional era feito, de como o jornalismo estava integrado ao ritmo da programação da emissora. E, com a maior sinceridade, digo que fiquei chateado quando tiraram o jornalismo da minha área, ainda que eu não influísse nele politicamente. Mas, respondendo: o atual diretor do Jornal Nacional, o Evandro Carlos de Andrade, é um ótimo profissional, tenho uma convivência pessoal muito boa com ele, gosto muito da linha de denúncia do JN, mas acho que o segmento político foi minimizado exageradamente, e não gosto do clima e do ritmo do noticiário. O Boris Casoy, na Record, é bom mas está precisando de mais recursos técnicos e humanos. Na Bandeirantes, o Paulo Henrique Amorim ainda não engrenou mas vai acertar.

Veja A política do governo de concessões de TVs a cabo está correta?

Boni O ministro Sergio Motta chegou tarde a uma situação viciada. Historicamente, a política de concessões foi orientada para privilegiar as oligarquias e os monopólios. Se um jornal era dócil ao governo, seu dono ganhava uma concessão de rádio. Se o jornal e o rádio eram dóceis, o dono ganhava uma televisão. O caso clássico foi o dos Diários Associados. Agora, se o jornal, o rádio e a televisão aberta são dóceis, o dono tem todas as chances de conseguir uma TV a cabo. No geral, o sistema de licitação por leilões e pontos está correto, mas ele acaba privilegiando o bispo Edir Macedo.

Veja Por quê?

Boni São feitas três exigências aos concorrentes: ter capital, penetração no município e capacidade técnica. Ora, os fiéis do bispo providenciam o capital. Existe um templo da Igreja Universal em cada cidade. E, ao fazer a Record, a Igreja adquiriu capacitação técnica. Não tenho nada contra o bispo, mas ele está sendo beneficiado, ainda que indiretamente.




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