Carta ao Leitor
Trate-se dos vivos
Fotos:
Tarcisio Mattos/ Tempo Editorial e Filipe Araujo/AE
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Cenário de devastação
O repórter
Igor Paulin, no interior de Santa Catarina: a história
de um caminhoneiro cujo filho foi encontrado morto boiando
na enchente. No detalhe, a inundação na
cidade de Navegantes |
As primeiras religiões
nasceram como tentativa de domar a natureza. No alvorecer
da história, os homens buscavam sobrepor-se a ela pelo
pensamento mágico ou cultuando deuses que se encarregariam
de apaziguar a água, os ventos, o fogo e a terra, fatores
que determinavam a sorte das sociedades. Fernand Braudel,
o grande historiador francês morto em 1985, atribui
à súbita mudança climática o desaparecimento
simultâneo em torno do ano 1200 a.C. das civilizações
hitita, messênia e cretense, que dominavam o Mediterrâneo.
A palavra "sobrenatural", aliás, embute em
sua origem o confronto com inundações, secas,
incêndios e avalanches.
O progresso tecnológico
nos elevou à condição de espécie
dominante no planeta, e boa parte da humanidade passou a dispor
de um cotidiano menos exposto às catástrofes
naturais. Esquecemos que vivemos à beira de rios que
podem transbordar, de montanhas que podem deslizar sobre nosso
teto, de solos que podem tremer e fender-se, arrasando cidades
inteiras. Esquecemos não só por arrogância,
mas também por um saudável bloqueio psicológico
que nos permite, afinal de contas, viver, trabalhar e frutificar,
sem ser atormentados dia após dia pela constatação
de nossa fragilidade.
Vez por outra, no entanto, somos
devolvidos à nossa dimensão insignificante diante
da natureza. Foi o que ocorreu em Santa Catarina. Na semana
passada, um dilúvio afetou um em cada quatro moradores
de um dos estados mais prósperos do Brasil. Mais de
uma centena de vidas foi ceifada e dezenas de milhares de
pessoas viram sua casa ser destruída. Só em
Blumenau, caíram do céu, em cinco dias, 300
bilhões de litros de água o suficiente
para abastecer a cidade de São Paulo por três
meses. Igor Paulin, um dos repórteres de VEJA encarregados
de cobrir a tragédia, relata histórias pungentes
como a do caminhoneiro cujo filho foi encontrado morto boiando
na enchente. A natureza não é mãe nem
madrasta. Ela é simplesmente indiferente à nossa
existência. Passado o pior momento, resta aos catarinenses,
com a solidariedade dos demais brasileiros, ecoar a determinação
do marquês de Pombal, logo após o terremoto que
destruiu Lisboa em 1755: "Enterrem-se os mortos; trate-se
dos vivos".