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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Os
tropeços da razão
"A
geografia do progresso é cheia de
grotões sombrios, nos quais ainda impera
o espírito da Inquisição. E
na topografia
brasileira há muitos grotões"
Galileu
disse que a Terra gira em torno do Sol. Darwin afirmou que os homens
e os macacos têm antepassados comuns. Einstein disse que massa
vira energia e que o tempo anda mais devagar em um avião.
Essas mudanças de paradigmas foram marcos importantes no
desenvolvimento da ciência.
Com sua espantosa imaginação, cada um desses gigantes
da ciência abalou as bases do conhecimento em sua área.
Mas, no fundo, a revolução científica maior
ocorreu na forma pela qual se passou a decidir quem tinha razão.
Galileu foi condenado e quase queimado em praça pública
pelos tribunais da Santa Inquisição. Os curadores
da verdade eram os religiosos e seus critérios de verdade,
as escrituras sagradas. Após décadas titubeando, Darwin
arrostou o pensamento religioso da época. Mas já não
se arriscava a ser queimado vivo, e a discussão lentamente
pendeu para os argumentos científicos. No início do
século XX, tomou corpo a teoria da relatividade, incendiando
a física clássica. Mas, diante da novidade, a Igreja
nada disse, e os físicos perguntaram: "Ah, é? Cadê
a evidência?"
A marca do progresso científico é justamente o maior
peso que vai ganhando a evidência empírica para decidir
quem está certo. Perdem espaço a fé, a ideologia
e a superstição nessa tarefa. Cada vez mais é
o teste da realidade que decide, marcando a transição
de Galileu para Einstein. Obviamente nem todas as ciências
avançam em igual ritmo. E a geografia do progresso é
cheia de grotões sombrios, nos quais ainda impera o espírito
da Inquisição. E na topografia brasileira há
muitos grotões.
Avança a medicina baseada em evidência. Ótimo.
Contudo, embora a preocupação com os transgênicos
não seja descabida, trata-se de um assunto científico
em que houve retrocesso. Voltamos aos tempos de Darwin. Em vez de
vasculhar a evidência científica disponível,
o assunto recende a anticapitalismo, protecionismo europeu e querelas
de poder.
Na economia, as cores ideológicas tingem cada vez menos o
processo decisório. Nosso bom jornalismo econômico
fala do mundo real, desvencilhando-se da mitologia e dos modelos
simplistas. Mas ainda há pregadores falando de FMI e Alca
sem nada conhecer do assunto. Volta a Santa Inquisição,
agora vestida de patrulha ideológica.
Ilustração Ale Setti
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Muitos cometem o erro elementar de duvidar dos resultados das estatísticas.
Devemos duvidar dos métodos de coleta, dos procedimentos
de análise e das interpretações. De resto,
boa parte da formação científica consiste em
aprender a desconfiar e a encontrar erros nessas etapas. Contudo,
se não somos capazes de detectar vícios nos processos
usados, não podemos recusar os resultados. Pena que essa
disciplina intelectual seja mais difícil do que dar palpites
sobre o que não se estudou e ainda menos se aprendeu.
Já se disse que existe um limite para o que se pode fazer
com números, bem como um limite para o que se pode fazer
sem números. Julgamentos morais e escolhas acerca de nosso
futuro não se resolvem por números. Mas o erro oposto
também ocorre, pois na educação resvalamos
para épocas pré-científicas, tratando assuntos
quantificáveis sem usar números. É como discutir
o peso de alguém, em vez de pedir que suba na balança.
Não registramos os avanços da quantificação
para medir o que os alunos aprenderam na escola. Queremos discutir
se a educação piorou sem usar nem entender as estatísticas.
Decidimos qual forma de ensinar é melhor sem medir se com
ela os alunos aprendem mais. Os supostamente doutos criticam o Provão
sem ter a cultura técnica para fazê-lo. Não
fosse o bastante, a evidência rigorosamente controlada é
tratada como mais um palpite de mais alguém. De Einstein,
involuímos para Galileu.
Para José Guilherme Merquior, "os problemas [no Brasil]
são sempre apresentados de maneira abstrata, principista
e apriorista. Portanto, o coeficiente de análise empírica,
de exame concreto de realidades verificáveis é muito
pequeno. (...) Falam de noções abstratas (...) O resultado
é que se restaurou no Brasil o estilo escolástico
de debate. Uma das melhores definições de escolástica
como estilo retórico diz que ela era uma maneira precisa
de falar de coisas vagas".
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@earthlink.net)
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