Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Os tropeços da razão

"A geografia do progresso é cheia de
grotões sombrios, nos quais ainda
impera
o espírito
da Inquisição. E na topografia
brasileira há muitos grotões"

Galileu disse que a Terra gira em torno do Sol. Darwin afirmou que os homens e os macacos têm antepassados comuns. Einstein disse que massa vira energia e que o tempo anda mais devagar em um avião. Essas mudanças de paradigmas foram marcos importantes no desenvolvimento da ciência.

Com sua espantosa imaginação, cada um desses gigantes da ciência abalou as bases do conhecimento em sua área. Mas, no fundo, a revolução científica maior ocorreu na forma pela qual se passou a decidir quem tinha razão. Galileu foi condenado e quase queimado em praça pública pelos tribunais da Santa Inquisição. Os curadores da verdade eram os religiosos e seus critérios de verdade, as escrituras sagradas. Após décadas titubeando, Darwin arrostou o pensamento religioso da época. Mas já não se arriscava a ser queimado vivo, e a discussão lentamente pendeu para os argumentos científicos. No início do século XX, tomou corpo a teoria da relatividade, incendiando a física clássica. Mas, diante da novidade, a Igreja nada disse, e os físicos perguntaram: "Ah, é? Cadê a evidência?"

A marca do progresso científico é justamente o maior peso que vai ganhando a evidência empírica para decidir quem está certo. Perdem espaço a fé, a ideologia e a superstição nessa tarefa. Cada vez mais é o teste da realidade que decide, marcando a transição de Galileu para Einstein. Obviamente nem todas as ciências avançam em igual ritmo. E a geografia do progresso é cheia de grotões sombrios, nos quais ainda impera o espírito da Inquisição. E na topografia brasileira há muitos grotões.

Avança a medicina baseada em evidência. Ótimo. Contudo, embora a preocupação com os transgênicos não seja descabida, trata-se de um assunto científico em que houve retrocesso. Voltamos aos tempos de Darwin. Em vez de vasculhar a evidência científica disponível, o assunto recende a anticapitalismo, protecionismo europeu e querelas de poder.

Na economia, as cores ideológicas tingem cada vez menos o processo decisório. Nosso bom jornalismo econômico fala do mundo real, desvencilhando-se da mitologia e dos modelos simplistas. Mas ainda há pregadores falando de FMI e Alca sem nada conhecer do assunto. Volta a Santa Inquisição, agora vestida de patrulha ideológica.

Ilustração Ale Setti


Muitos cometem o erro elementar de duvidar dos resultados das estatísticas. Devemos duvidar dos métodos de coleta, dos procedimentos de análise e das interpretações. De resto, boa parte da formação científica consiste em aprender a desconfiar e a encontrar erros nessas etapas. Contudo, se não somos capazes de detectar vícios nos processos usados, não podemos recusar os resultados. Pena que essa disciplina intelectual seja mais difícil do que dar palpites sobre o que não se estudou e ainda menos se aprendeu.

Já se disse que existe um limite para o que se pode fazer com números, bem como um limite para o que se pode fazer sem números. Julgamentos morais e escolhas acerca de nosso futuro não se resolvem por números. Mas o erro oposto também ocorre, pois na educação resvalamos para épocas pré-científicas, tratando assuntos quantificáveis sem usar números. É como discutir o peso de alguém, em vez de pedir que suba na balança. Não registramos os avanços da quantificação para medir o que os alunos aprenderam na escola. Queremos discutir se a educação piorou sem usar nem entender as estatísticas. Decidimos qual forma de ensinar é melhor sem medir se com ela os alunos aprendem mais. Os supostamente doutos criticam o Provão sem ter a cultura técnica para fazê-lo. Não fosse o bastante, a evidência rigorosamente controlada é tratada como mais um palpite de mais alguém. De Einstein, involuímos para Galileu.

Para José Guilherme Merquior, "os problemas [no Brasil] são sempre apresentados de maneira abstrata, principista e apriorista. Portanto, o coeficiente de análise empírica, de exame concreto de realidades verificáveis é muito pequeno. (...) Falam de noções abstratas (...) O resultado é que se restaurou no Brasil o estilo escolástico de debate. Uma das melhores definições de escolástica como estilo retórico diz que ela era uma maneira precisa de falar de coisas vagas".


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@earthlink.net)

 
 
 
 
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