|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O bem que Bush
faz a Kennedy
Quarenta
anos depois, o presidente assassinado recupera o brilho perdido
pela contínua exibição de seus podres
O presidente
John Kennedy não morreu apenas naquele dia 22 de novembro
de 1963 em que foi atingido pelos tiros disparados do sexto andar
do Depósito de Livros Escolares do Texas, no centro de Dallas.
Nestes quarenta anos agora completados, ele morreu muitas outras
vezes de tiros que o atingiram em sua imagem de liberal e
de lutador por um mundo pacífico, tanto quanto na de marido
perfeito da mais charmosa primeira-dama a jamais pôr os pés
na Casa Branca. Mesmo o clã familiar a que pertencia, tão
conspícuo pelo glamour e pela dedicação às
boas causas quanto pelas periódicas visitas da tragédia,
teve a boa imagem atingida por histórias de adultérios,
acidentes mal explicados, alcoolismo e drogas. Aquela sexta-feira
em Dallas foi só o começo.
Durante
os mil dias de sua Presidência, Kennedy foi como uma luz sobre
os Estados Unidos e o mundo. Ao assumir, ele era o mais jovem presidente
da história do país (43 anos) a suceder o mais velho
até então (Dwight Eisenhower, com 70 ao deixar o posto).
Tal contraste continha significados que ultrapassavam suas figuras
individuais. Os cansados EUA dos anos 50 entravam no que seriam
os irrequietos anos 60 sob a égide de um moço que,
como poucos em sua história, parecia capaz de sacudir a poeira
do conformismo. Nos anos Kennedy as tensões da Guerra Fria
com a União Soviética seriam amenizadas pelos acenos
da "coexistência pacífica". Para a América Latina
havia as promessas da Aliança para o Progresso. Acresce que
na pessoa do presidente tinha-se alguém que irradiava inteligência
e bom gosto, cercado de artistas e intelectuais, aberto ao mundo
e à cultura. Era um período de esperança.
Ou
não? O período Kennedy corresponderia de verdade à
impressão de reino encantado de homens elegantes, mulheres
bonitas, idéias inteligentes e nobres princípios que
transmitia? As primeiras estocadas revisionistas disseram respeito
ao Vietnã. No governo Kennedy a guerra civil que se travava
nesse país não era ainda um tema candente no mundo.
Sob seu sucessor, Lyndon Johnson, sim, virou ponto fulcral da Guerra
Fria, com envolvimento militar americano de largas proporções
e aos poucos se começou a lembrar que foi sob Kennedy
que os EUA enviaram os primeiros contingentes à região.
Ei-lo posto na origem da mais desastrosa guerra americana. Isso,
mais a lembrança da fracassada tentativa de invadir Cuba
o célebre episódio da Baía dos Porcos,
no início de seu governo , mudou Kennedy num aguerrido
guerreiro frio.
Em
anos mais recentes tomou-se conhecimento do mulherengo doentio que
o habitava. Orgias seriam encenadas na Casa Branca. Em livros e
reportagens, o caráter de todo o clã foi posto em
jogo do patriarca Joseph, o pai do presidente, que teria
usado meios escusos para amealhar sua fortuna, ao irmão caçula,
Ted, que não pediu socorro a tempo quando, numa escapada
com a secretária, um acidente de carro veio a matá-la.
OK, nem os Kennedy nem o governo Kennedy eram o que se pensava.
Os escândalos e as revisões históricas conduziam
inexoravelmente à miséria da desilusão e da
desmistificação. E no entanto...
No
entanto, observem-se as fotos e os filmes da época
e que saudade! O presidente de postura impecável e discurso
inspirado irradiava confiança. Os EUA sob sua direção
pareciam guiados pela fé nos valores humanísticos
e o desejo de parceria com o mundo. Como explicar que se chegue
aos quarenta anos do assassinato de Kennedy com tais imagens positivas
prevalecendo sobre o que de negativo se soube dele depois? A resposta
é: George W. Bush. Melhor dizendo: o contraste com Bush.
Bush encarna a face sombria, arrogante e ignorante dos EUA. Na comparação,
Kennedy ganha de volta o brilho perdido durante os anos de insistente
exibição de seus podres. Bush faz bem a Kennedy. Rende-lhe
uma recuperação histórica.
Segundo
o historiador Arthur Schlesinger, que foi assessor de Kennedy e
escreveu um livro clássico sobre seu governo (Mil Dias
John Kennedy na Casa Branca), um clima hostil
ao presidente dominava o Texas, o Estado onde viria a ser morto.
O diretor do principal jornal de Dallas, o Dallas Morning News,
disse uma vez a Kennedy que o país precisava de um homem
a cavalo, e não um que brincava de montar no velocípede
da filha, como fazia o presidente. Em Fort Worth, onde Kennedy esteve
horas antes da fatídica esticada até Dallas, ofereceram-lhe
um chapéu de cowboy. Nada mais típico de um Estado
que escreve Schlesinger "cultivava cuidadosamente
o mito do velho Texas e seus homens viris, bons cavaleiros, bons
atiradores". Kennedy, que, ao contrário de alguém
muito conhecido de nós, brasileiros, se recusava a pôr
qualquer chapéu na cabeça, amavelmente declinou de
vestir o de cowboy. É curioso, muito curioso, que quarenta
anos depois um homem do Texas ocupe a Presidência americana
um que mais de uma vez já posou de chapéu de
cowboy, e se orgulha dos valores viris da terra.
|