Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O bem que Bush
faz a Kennedy

Quarenta anos depois, o presidente assassinado recupera o brilho perdido
pela contínua exibição de seus podres

O presidente John Kennedy não morreu apenas naquele dia 22 de novembro de 1963 em que foi atingido pelos tiros disparados do sexto andar do Depósito de Livros Escolares do Texas, no centro de Dallas. Nestes quarenta anos agora completados, ele morreu muitas outras vezes – de tiros que o atingiram em sua imagem de liberal e de lutador por um mundo pacífico, tanto quanto na de marido perfeito da mais charmosa primeira-dama a jamais pôr os pés na Casa Branca. Mesmo o clã familiar a que pertencia, tão conspícuo pelo glamour e pela dedicação às boas causas quanto pelas periódicas visitas da tragédia, teve a boa imagem atingida por histórias de adultérios, acidentes mal explicados, alcoolismo e drogas. Aquela sexta-feira em Dallas foi só o começo.

Durante os mil dias de sua Presidência, Kennedy foi como uma luz sobre os Estados Unidos e o mundo. Ao assumir, ele era o mais jovem presidente da história do país (43 anos) a suceder o mais velho até então (Dwight Eisenhower, com 70 ao deixar o posto). Tal contraste continha significados que ultrapassavam suas figuras individuais. Os cansados EUA dos anos 50 entravam no que seriam os irrequietos anos 60 sob a égide de um moço que, como poucos em sua história, parecia capaz de sacudir a poeira do conformismo. Nos anos Kennedy as tensões da Guerra Fria com a União Soviética seriam amenizadas pelos acenos da "coexistência pacífica". Para a América Latina havia as promessas da Aliança para o Progresso. Acresce que na pessoa do presidente tinha-se alguém que irradiava inteligência e bom gosto, cercado de artistas e intelectuais, aberto ao mundo e à cultura. Era um período de esperança.

Ou não? O período Kennedy corresponderia de verdade à impressão de reino encantado de homens elegantes, mulheres bonitas, idéias inteligentes e nobres princípios que transmitia? As primeiras estocadas revisionistas disseram respeito ao Vietnã. No governo Kennedy a guerra civil que se travava nesse país não era ainda um tema candente no mundo. Sob seu sucessor, Lyndon Johnson, sim, virou ponto fulcral da Guerra Fria, com envolvimento militar americano de largas proporções – e aos poucos se começou a lembrar que foi sob Kennedy que os EUA enviaram os primeiros contingentes à região. Ei-lo posto na origem da mais desastrosa guerra americana. Isso, mais a lembrança da fracassada tentativa de invadir Cuba – o célebre episódio da Baía dos Porcos, no início de seu governo –, mudou Kennedy num aguerrido guerreiro frio.

Em anos mais recentes tomou-se conhecimento do mulherengo doentio que o habitava. Orgias seriam encenadas na Casa Branca. Em livros e reportagens, o caráter de todo o clã foi posto em jogo – do patriarca Joseph, o pai do presidente, que teria usado meios escusos para amealhar sua fortuna, ao irmão caçula, Ted, que não pediu socorro a tempo quando, numa escapada com a secretária, um acidente de carro veio a matá-la. OK, nem os Kennedy nem o governo Kennedy eram o que se pensava. Os escândalos e as revisões históricas conduziam inexoravelmente à miséria da desilusão e da desmistificação. E no entanto...

No entanto, observem-se as fotos e os filmes da época – e que saudade! O presidente de postura impecável e discurso inspirado irradiava confiança. Os EUA sob sua direção pareciam guiados pela fé nos valores humanísticos e o desejo de parceria com o mundo. Como explicar que se chegue aos quarenta anos do assassinato de Kennedy com tais imagens positivas prevalecendo sobre o que de negativo se soube dele depois? A resposta é: George W. Bush. Melhor dizendo: o contraste com Bush. Bush encarna a face sombria, arrogante e ignorante dos EUA. Na comparação, Kennedy ganha de volta o brilho perdido durante os anos de insistente exibição de seus podres. Bush faz bem a Kennedy. Rende-lhe uma recuperação histórica.

•••

Segundo o historiador Arthur Schlesinger, que foi assessor de Kennedy e escreveu um livro clássico sobre seu governo (Mil Dias John Kennedy na Casa Branca), um clima hostil ao presidente dominava o Texas, o Estado onde viria a ser morto. O diretor do principal jornal de Dallas, o Dallas Morning News, disse uma vez a Kennedy que o país precisava de um homem a cavalo, e não um que brincava de montar no velocípede da filha, como fazia o presidente. Em Fort Worth, onde Kennedy esteve horas antes da fatídica esticada até Dallas, ofereceram-lhe um chapéu de cowboy. Nada mais típico de um Estado que – escreve Schlesinger – "cultivava cuidadosamente o mito do velho Texas e seus homens viris, bons cavaleiros, bons atiradores". Kennedy, que, ao contrário de alguém muito conhecido de nós, brasileiros, se recusava a pôr qualquer chapéu na cabeça, amavelmente declinou de vestir o de cowboy. É curioso, muito curioso, que quarenta anos depois um homem do Texas ocupe a Presidência americana – um que mais de uma vez já posou de chapéu de cowboy, e se orgulha dos valores viris da terra.

 
 
 
 
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